"Vida de emigrantes foi de sacrifício. Tentemos evitar que outros sofram"

  • 19/02/2026

Várias foram as vezes que, durante a campanha para as eleições presidenciais, Jorge Pinto sublinhou ter ligações à diáspora em França. É que, à semelhança de tantos outros conterrâneos, também os seus avós maternos partiram em busca de uma vida melhor, na época de 1960. Numa nova edição da obra "Tamem Digo! – Somos Todos Migrantes", o deputado do Livre pinta um retrato que preserva não só a memória familiar, mas também das migrações como um todo, protagonizado por "gente comum" (porque, como disse, "de heróis está a história cheia").

 

Ao desenrolar o novelo da trajetória da sua avó Carmo, desde a pobreza na aldeia de Olo, em Amarante, aos sonhos na terra de todas as oportunidades, o antigo candidato presidencial concedeu, de igual modo, o poder da palavra às mulheres. Isto porque, como recordou ao Notícias ao Minuto, "as histórias da emigração portuguesa são, muitas vezes, contadas no masculino", deixando para trás os pilares que permiriram o salto no desconhecido.

Além de ter frisado que "muitas das famílias portuguesas que vingaram [no estrangeiro] fizeram-no certamente à custa de muitos sacrifícios", o parlamentar advertiu que, "quando precisaram, tiveram um apoio que permitiu concretizar esses sacrifícios em algo palpável". Nessa linha, apelou a que "tentemos evitar que as outras pessoas que, agora, chegam ao nosso país tenham de sofrer o mesmo", tendo em conta que, "se a comunidade portuguesa está hoje bem integrada, é porque as ferramentas de integração existiram e foram criadas". Caso contrário, defendeu, "não estaria".

Há várias famílias que regressaram da emigração e aquilo que fizeram foi precisamente abrir um café ou um restaurante. A minha família foi uma delas, mas há muitas outras. Portanto, achei que ilustrar isso era uma maneira de também dizer a essas pessoas, "Olhem, não é apenas o café da minha avó mas, se calhar, também é o vosso"

Como é que surgiu a oportunidade de colocar a história da sua avó no papel?

Surgiu um bocadinho como uma vontade de preservação de memória familiar, de guardar aquelas histórias que a minha família contava – desde logo a minha avó e a minha mãe – e que, na altura, me pareciam bastante diferentes da história que conheci. Nasci em Portugal, cresci aqui, com a minha família toda, mas muitas das histórias que contavam eram essas das migrações: primeiro antes de emigrar, da pobreza que viveram; depois, enquanto emigrantes; e, depois, o regresso. Fui anotando, fui gravando. Tinha vídeos, se calhar de há mais de 10 anos, com a minha avó, sem saber bem o que faria com aquilo. No livro conto tudo isso, mas há muitas maneiras de usar aquelas memórias: guardá-las só porque sim, ficar para nós, ficar para a família; produzir essas memórias de uma maneira mais ficcionada e, com isso, ter um filme, ter um documentário, ter um livro, o que quer que seja. Não sabia bem o que fazer com elas, mas foi quase uma vontade. Se calhar por isso é que o livro é assim tão estranho, porque escrevi-o exatamente como gostaria que fosse contado à minha família. Por isso é que a primeira frase do livro é, "Ando há muitos anos para vos falar da minha avó", uma coisa muito pessoal.

Tentei fazer essa preservação de memórias – primeiro, sobre a minha avó; segundo, sobre a família alargada; terceiro, sobre esta ideia das migrações. Depois, à medida que o livro se ia escrevendo, era como um novelo que se vai abrindo, e acabou por ser quase um repositório de memórias do próprio café da minha avó. Falo disso no livro, mas recebi imensa coisa das pessoas que frequentavam o café. Com tudo isso, achei que um livro era uma boa maneira de o fazer, e quis, desde logo, que fosse um livro ilustrado, porque dá uma camada de leitura muito diferente do que apenas o texto. É difícil às vezes, e até brinco com isso nesta segunda parte da nova edição, porque quando dizia que era um livro ilustrado, as pessoas achavam que era para crianças. Depois, quando dizia que era para adultos, [pensavam que tinha teor sexual]. Não temos o hábito de ter livros ilustrados em Portugal, mas acho que as ilustrações complementam magnificamente o livro.

Em resumo, era uma ideia de preservação de memórias, no plural, e de mostrar que essas memórias, que são da minha família e da minha avó, são também muito, muito, muito universais na história de Portugal dos anos 60. Em cada apresentação, ou em cada comentário ou crítica que recebia do livro, alguém dizia-me, "Ah, aconteceu o mesmo na minha família. Conheço uma pessoa cuja história é exatamente igual". Portanto, acho que cumpriu esse propósito de preservação, até com as coincidências com a Júlia [da Costa].

Voltando um bocadinho atrás, porque é que optou por ilustrações e não pelas próprias fotografias do café e da sua família? 

É uma excelente pergunta, que nunca me fizeram. Na verdade, é um bocadinho por aquilo que estava a dizer; é para universalizar a história. Fotografias, apesar de tudo, são muito concretas. Uma imagem, uma ilustração de um café… É claro que é aquele café em particular, mas é um qualquer café.

Notícias ao Minuto Capa de "Tamem Digo! - Somos Todos Migrantes"© Reprodução/Penguin Random House Portugal  

Está aberto à interpretação.

É um bocado isso. Há várias famílias que regressaram da emigração e aquilo que fizeram foi precisamente abrir um café ou um restaurante. A minha família foi uma delas, mas há muitas outras. Portanto, achei que ilustrar isso era uma maneira de também dizer a essas pessoas, "Olhem, não é apenas o café da minha avó mas, se calhar, também é o vosso".

O título tem vários significados, sendo que "tamem digo" é não só uma expressão da sua avó, mas também uma metáfora para o direito de ter uma voz, particularmente no que diz respeito às mulheres. O subtítulo "Somos Todos Migrantes" é, por seu turno, quase autoexplicativo. Foi fácil chegar a esta junção?

Então, o título foi muito fácil e costuma ser difícil. Em relação aos outros livros que já escrevi, tive bem mais dificuldade em escrever o título. Este quase que se autoimpôs. Estava a ler aquele livro do Fernando Venâncio que, entretanto, morreu, no ano passado, e descobri que a minha avó não fala mal português, uma coisa que sempre achei. Ela, no fundo, é uma memória viva da língua portuguesa mais arcaica. Achei que era o título perfeito precisamente por essas dinâmicas. Primeiro, porque é uma expressão que ela utiliza muito. Segundo, porque é o reivindicar de uma voz. E terceiro, porque me parecia, tanto na capa da primeira edição, como na capa da segunda edição, que ter a mulher representada é também dar-lhe essa voz. Na primeira edição é só a minha avó; neste caso, são várias mulheres a reivindicar essa voz. Também era um dos propósitos do meu livro, porque as histórias da emigração portuguesa são, muitas vezes, contadas no masculino.

Os subtítulos. Tive dois: a primeira edição era, "Uma História de Migrações", e agora, nesta nova edição, é, "Somos Todos Migrantes". Bem, é um bocadinho também para dar resposta ao sabor dos tempos, àquilo que vivemos atualmente, não só em Portugal, mas também. Quase esquecemos aquela que é a nossa realidade do presente, não só a passada. Evidentemente que, nos anos 60, era numa outra escala, mas continua a ser a nossa realidade. Não falta gente que continua a emigrar. Não falta gente que vem para Portugal e que volta a sair. Tive colegas na escola que nasceram em França, fizeram lá alguns anos de escola, vieram para cá, acabaram os cursos e voltaram para França. Portanto, este vai e vem tem uma certa permanência, o que também tem impacto ao nível da própria identificação de cada um de nós; vi isso com a minha mãe. Estas pessoas que, às vezes, não são exclusivamente portuguesas, ou não são exclusivamente do país de acolhimento, vivem numa espécie de conflito de identidades que estão a tentar ocupar o mesmo espaço. Não é forçosamente num mau sentido, mas também quis retratar isso no livro. Mesmo os filhos dos emigrantes, em certa medida, são emigrantes. Os netos, em certa medida, são emigrantes.

Neste momento em que a imigração está na ordem do dia, é perigoso esquecermos isso. Aquela árvore genealógica que incluí… Duas pessoas disseram-me, "Conheço um caso exatamente igual". As histórias das migrações são todas iguais ou muito parecidas. Estes coitados, que chegam aqui do Nepal, do Bangladesh, de onde quer que seja, têm exatamente as mesmas dinâmicas que os portugueses nos anos 60, 70 e 80. Esquecer isso é esquecer a nossa própria história e entristece-me muito.

Não tenhamos dúvidas: a vida dos portugueses que emigraram para França, em particular nos anos 70, foi uma vida de sacrifícios tremendos. O que quero dizer é que não esqueçamos isso. Naquilo que nos competir, tentemos evitar que as outras pessoas que, agora, chegam ao nosso país tenham de sofrer o mesmo. Sejamos capazes de lhes dar condições

Sim, e a minha pergunta seguinte prende-se exatamente com isso. Logo no prólogo, admite que "falta-nos falar de gente comum". Numa altura em que existem cada vez mais camadas da sociedade que parecem ter-se esquecido do nosso passado migratório e das circunstâncias precárias que os portugueses enfrentavam em solo nacional e nos países de acolhimento, o quão importante é, de facto, falar sobre gente comum?

Exatamente. O caso da minha família é um entre dezenas ou, se calhar, centenas de milhares: terem vivido num Bidonville, terem partilhado uma casa com sei lá quantas pessoas, e terem também tido o apoio do Estado de acolhimento. Esquecemo-nos que muitas das famílias portuguesas que vingaram fizeram-no certamente à custa de muitos sacrifícios, como é o caso da minha família, mas também porque, quando precisaram, tiveram um apoio que permitiu concretizar esses sacrifícios em algo palpável. É bom que não esqueçamos essa história, que é certamente a história daqueles que, agora, estão a querer chegar ao nosso país, a fazer as suas vidas e a criar as suas famílias.

O cenário que descreveu dos primeiros anos dos seus avós em França fez-me precisamente lembrar algumas situações noticiadas recentemente quanto às condições de vida de imigrantes em Portugal. Ainda assim, e como realçou no livro, a comunidade portuguesa no estrangeiro é, agora, apresentada como bem integrada, em contraste com outras comunidades. Sabemos, contudo, que o passado conta uma história diferente. É uma questão de xenofobia?

Em certos casos, será. Também é, muitas vezes, uma má tentativa de proteção, na minha opinião. Se vemos uma outra comunidade de um outro país a ser atacada, se calhar, em vez de nos pormos do lado dessa comunidade, enquanto imigrantes no sentido mais amplo, colocamo-nos do lado do opressor, porque é mais fácil. Mas, no fundo, o que me interessa é voltar aos básicos. Fomos um povo que saiu, porque precisava de sair para ter uma vida mais digna. Não tenhamos dúvidas: a vida dos portugueses que emigraram para França, em particular nos anos 70, foi uma vida de sacrifícios tremendos. O que quero dizer é que não esqueçamos isso. Naquilo que nos competir, tentemos evitar que as outras pessoas que, agora, chegam ao nosso país tenham de sofrer o mesmo. Sejamos capazes de lhes dar condições. Se chegam ao nosso país, é porque o nosso país precisa de mão de obra. Se precisa de mão de obra, sejamos capazes de lhes dar as ferramentas de acolhimento e integração necessárias, tal como foram dadas aos portugueses em França. Se a comunidade portuguesa está hoje bem integrada, é porque as ferramentas de integração existiram e foram criadas. Senão, não estaria.

Algo que me saltou à vista foi o facto de ter dado conta do gozo que os ‘avecs’ sofrem por parte da restante população. A que é que se deve esta postura, na sua opinião?

Pois, não sei. Eu próprio fui um bocadinho culpado disso, porque também gozava. Acho que há muitas razões. Há os clichés que se vão criando de um ano para o outro. Sabemos que são pessoas portuguesas, então achamos que ser português – mesmo que viva há anos, se calhar há décadas, no estrangeiro – significa ser um português exatamente igual a nós. E, claro, essas pessoas têm mais dificuldades com a língua. Aqueles que já nasceram num outro país têm mais dificuldades com a língua, na maior parte dos casos, e são imediatamente ironizados ou acusados de ser portugueses de segunda. Os clichés dos carros alugados... Também isso é uma coisa bastante única, porque acaba por ser uma certa identidade portuguesa muito específica, dos portugueses que emigraram e que regressam no verão. É uma realidade que conheço perfeitamente porque, se a minha família direta voltou toda para Portugal, os segundos graus mantêm-se em França. Essa família do verão, do querido mês de agosto, eu conheço muito bem. E, sim, se calhar é importante desmontar e desconstruir essa ideia dos ‘avecs’, porque são uma representação de uma certa forma de ser português.

Está ali uma preservação das minhas memórias que, na verdade, é bonita. Sei que posso aceder quando quiser, mas faço questão de não o fazer, quase para preservar a memória que tenho do café aberto. Quis lá regressar para o livro, para esclarecer algumas coisas, mas, de resto, embora esteja lá quase todas as semanas, não voltei a abrir a porta. Prefiro guardar aquela memória do café vivo

Se pensarmos na questão de uma forma mais ampla, são pessoas corajosas que saíram do país em busca de uma vida melhor e que também sofrem muito lá fora. Quem fica para trás acaba por esquecer-se que não são só coisas boas. Há também toda uma outra camada, principalmente no que diz respeito ao passado, não é?

Sim, sim. E de muitos sacrifícios, repito. Em particular, essa emigração nos anos 70 era, e certamente na minha família, uma coisa vista como temporária. Para o meu avô, isso sempre foi absolutamente central. Queria regressar a Portugal. Então, queria regressar a Portugal com o máximo de dinheiro possível. Se isso implicasse trabalhar sete dias por semana, 12 meses do ano, era isso que seria feito. E os meus tios e a minha mãe começaram a trabalhar logo a partir dos 12 anos, para também trazerem mais algum dinheiro para casa.

E até houve a questão de a sua mãe ter sido forçada a regressar a Portugal por estar demasiado afrancesada. Portanto, também joga aqui um bocadinho a questão de os filhos que nascem ou que são educados fora do país e que ficam no limbo.

É isso. É num entre dois, na verdade. Ficam mesmo entre duas culturas. A minha mãe, quando eu era pequeno, era ainda muito próxima da cultura francesa. A música que ouvíamos em casa era música francesa dos tempos da juventude dela. Quando ela se encontrava com amigos que também tinham sido emigrantes, as conversas eram sempre sobre França. Não que ela se sentisse mais francesa do que portuguesa; era uma dupla confluência de identidades, que caracteriza as pessoas que crescem em França e que regressam já adultos. Há sempre um conflito de identidades, que não acho que seja forçadamente mau, repito. É uma maneira diferente de ser português e de sentir o ser-se português.

E como é que foi regressar ao café dos seus avós, desta feita sozinho e, mais tarde, com o seu filho? O que é que sentiu?

É curioso, porque vou lá muitas vezes. Os meus avós continuam a viver em cima do café, mas o café, propriamente dito, está fechado. Entrei lá duas vezes: a primeira foi para a primeira edição do livro e, agora, para a segunda. Uma coisa que podia fazer semanalmente, quando vou ver os meus avós, era pedir-lhes a chave. Mas aquilo ficou preservado quase como um museu, ficou como se tivesse sido abandonado de um dia para o outro.

Parado no tempo? 

Parado no tempo. Algumas garrafas continuam lá expostas. Está tudo exatamente igual. Até o calendário, que foi aquele detalhe que achei quase poético, do último mês em que o café funcionou, mantém-se lá. E isto já há quase 20 anos. Está ali uma preservação das minhas memórias que, na verdade, é bonita. Sei que posso aceder quando quiser, mas faço questão de não o fazer, quase para preservar a memória que tenho do café aberto. Quis lá regressar para o livro, para esclarecer algumas coisas, mas, de resto, embora esteja lá quase todas as semanas, não voltei a abrir a porta. Prefiro guardar aquela memória do café vivo. E, depois, há esta ideia de transmissão e de intergeracionalidade. O meu filho já não vai conhecer o café ativo; é a lei da vida e as coisas continuam, e também por isso esta vontade de preservar a memória em forma de livro.

Além de ser preciso falar de gente comum, é também preciso, em paralelo, que a gente comum ouça falar de si própria, para lhe dar visibilidade, para lhe dar esta voz. Acho que, quando isso acontecer com este livro, aí sim, vai ser uma espécie de justiça feita a todas estas pessoas que, muitas vezes, esquecemos. Falamos dos emigrantes quase como uma coisa abstrata

Chegou a deixar o reclame aceso à porta do café?

Ainda não. Está lá e queria muito tê-lo feito; peguei nele depois da primeira edição. Tenho de fazer uma instalação elétrica, não é assim tão complicado quanto isso. O livro acaba com essa nota – é um bocado um spoiler. Quando a minha avó morrer, fica transmitida na ideia do reclame aceso. Quase que não quero acendê-lo agora, para evitar que isso aconteça. É uma maneira de preservação: enquanto não fizer isso, ela por cá continuará.

Entre todas as histórias que incluiu no livro, qual é que destacaria? 

Não sei… Por exemplo, não sabia que a minha avó tinha uma cicatriz grande no pé, por se ter aleijado, quando andava à carta de coisas; descobri ao escrever o livro. Não sabia que a minha avó tinha sido uma apaixonada por teatro, em criança, quando vivia em Olo, a aldeia dela. Aliás, queria escrever – e quero ainda escrever – uma peça de teatro para homenageá-la. Houve muitas coisas que descobri apenas pelo livro. Muitas delas são quase razões de orgulho para a minha avó. Ela fala-me do teatro como se tivesse representado numa peça no Teatro Nacional São João, e era uma coisa que representaram lá na aldeia, se calhar para meia dúzia de pessoas. Ela fala-me disso com a maior das paixões, por isso também quis lá pôr isso. Até do encontro com a Júlia... Acho que há uma série de coincidências que foram acontecendo com o livro que me parecem bastante bonitas e reveladoras do quão este livro é, na verdade, um livro que é da minha avó, mas é de tantas outras avós e avôs de Portugal.

Ia precisamente perguntar se já tinha avançado na questão da peça de teatro, mas já vi que não.

Avancei, na altura. Escrevi ainda um pedaço antes de escrever o livro mas, depois, ficou parada. Já tenho a história: só tenho um personagem, que é a minha avó em quatro momentos diferentes da vida. São quatro atrizes a fazer de minha avó, que dialogam entre si, sobre quatro momentos diferentes da vida dela. Tenho-a já bastante mentalizada; só preciso de, um dia, pô-la em papel.

Qual foi a reação da sua avó ao saber que escreveria um livro sobre a sua vida?

Não somos muito de sentimentos na minha família, e a minha avó não é de expressar sentimentos de todo. Então, foi bastante séria na reação. Também por isso fiz questão de, ainda antes de sair esta segunda edição, imprimir todas as mensagens que fui recebendo sobre a primeira e de lhas entregar. Aí, foi a primeira vez que vi alguma coisa do género, "Epá, as pessoas estão a ler isto e há quem goste". Com esta segunda edição, que vai chegar a muito mais gente, acho que isso vai marcá-la. Além de ser preciso falar de gente comum, é também preciso, em paralelo, que a gente comum ouça falar de si própria, para lhe dar visibilidade, para lhe dar esta voz. Acho que, quando isso acontecer com este livro, aí sim, vai ser uma espécie de justiça feita a todas estas pessoas que, muitas vezes, esquecemos. Falamos dos emigrantes quase como uma coisa abstrata ou que vivem na nuvem quando, na verdade, são histórias muito concretas de pessoas, muitas delas que ainda estão vivas, ainda estão ativas e continuam aqui, no nosso país. Apesar de tudo, para a escala da emigração portuguesa para França, parece-me que é um tema muito ausente da nossa cultura portuguesa, da literatura, dos filmes. Imaginem isto nos Estados Unidos; quantos filmes não haveria sobre a emigração portuguesa para França, fora daqueles clichés que, infelizmente, caracterizam esses filmes, quando existem. O objetivo deste livro foi também colmatar essa falha e dar uma outra perspectiva sobre a emigração, contada na primeira pessoa, de uma maneira mais ligeira, mais divertida, mas não menos fidedigna. Tudo o que lá está é real e foram coisas que aconteceram com as pessoas retratadas.

Como digo nesta segunda parte do livro, eu escrevi-o para que ela pudesse lê-lo. Ela fez três anos de escolaridade; consegue ler com alguma dificuldade, mas consegue. Quis que o livro pudesse ser lido por ela e que ela pudesse ter prazer em ler o livro – e acho que teve. Pelo menos, ela disse-me que sim. Espero que seja verdade

Quando escrevi a primeira edição, muita gente achava que a minha avó já tinha morrido, mas continua viva e bem de saúde. É um privilégio poder publicar isto. Na segunda edição, como digo que ela leu, já fica claro que está bem. Escrevi já há quase dois anos a nova parte; foi no verão de 2024. Depois, fui deixando andar e fui acrescentando coisas. Praticamente todas as semanas tinha uma coisa nova para contar. A primeira edição foi quase uma edição de autor. Foram 500 cópias, numa editora que tinha começado em Amarante, que esgotaram com relativa rapidez. Mas o livro não esteve em quase nenhuma livraria: esteve em Lisboa, na Snob; no Porto, na Flâneur; e numa livraria em Bruxelas. Venderam-se 500 cópias quase só com o boca a boca e com as sessões de apresentação, precisamente porque acho que há muita gente que se revê nestas histórias. Agora, com a Penguin [Random House], o livro está em todo o lado. Vou a muitas livrarias e vejo-o em todo o lado. Acredito que vai chegar a muito mais gente e acho que isso é bom, também para falarmos de uma maneira mais descomplexada sobre aquilo que somos.

E quando lhe disse que seria candidato à Presidência da República, ainda por cima sendo tão novo? Como é que a sua avó reagiu?

Ela nunca acredita, numa primeira reação. Brincamos muito com ela. Por exemplo, quando lhe disse que ia fazer o livro, quando comecei a gravá-lo, ela achava sempre que era uma brincadeira. Mesmo quando lhe levei o livro, não estou certo de ela ter acreditado bem naquilo. Só me parece que percebeu verdadeiramente quando veio a uma sessão da primeira edição do livro. Aí sim, começou a dizer, "Bem, isto é real". "Mas como é que essas pessoas sabem isto?" E eu expliquei-lhe que estava no livro.

Tenho sorte porque, para o bem e para o mal, a minha avó é sempre aquela pessoa que aprova tudo o que os netos fazem. Para a desgraça dos meus pais, a minha avó era sempre aquela pessoa que aprovava tudo e, se calhar, também daí o "tamem digo", de concordância com aquilo que os netos fazem e dizem. Mas foi uma reação positiva. Como digo nesta segunda parte do livro, eu escrevi-o para que ela pudesse lê-lo. Ela fez três anos de escolaridade; consegue ler com alguma dificuldade, mas consegue. Quis que o livro pudesse ser lido por ela e que ela pudesse ter prazer em ler o livro – e acho que teve. Pelo menos, ela disse-me que sim. Espero que seja verdade.

Fugindo um bocadinho ao tema, não posso deixar de lhe perguntar isto. Ficou atrás de Manuel João Vieira, que se apresentou com uma candidatura bastante particular. Sente que foi um sintoma do voto útil ou há outra leitura? 

Imagino que sim, pelo voto útil e pela franqueza das minhas declarações na última semana, ao dizer às pessoas que percebo que votem noutras candidaturas, com medo. Não gosto da expressão voto útil; não acho que quem tenha votado em mim, ou no Manuel João Vieira, ou em qualquer outra pessoa não tenha votado útil. Percebo que é um voto por medo de um eventual cenário – isso está mais do que provado. Até porque, mesmo nas sondagens que davam à minha candidatura valores abaixo de 1%, quando perguntavam quem estava a fazer a campanha mais positiva, eu aparecia sempre no top três. As pessoas reconhecem, votaram com medo e não me chateia. Aliás, se alguma coisa, sou honesto demais na política. Ter dito às pessoas para votarem livremente foi precisamente porque percebia esse sentimento de medo. Não levo a mal quem, querendo votar na minha candidatura, tenha votado noutra, com medo da segunda volta.

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Lusa | 20:07 - 15/11/2025

FONTE: https://www.noticiasaominuto.com/pais/2928141/vida-de-emigrantes-foi-de-sacrificio-tentemos-evitar-que-outros-sofram#utm_source=rss-ultima-hora&utm_medium=rss&utm_campaign=rssfeed


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