Ventura tentou vestir fato da moderação sem deixar fugir eleitorado
- 15/01/2026
Ao longo de duas semanas de campanha, André Ventura falou a dois tons: se por um lado, em declarações aos jornalistas, dizia que queria fazer uma "campanha elevada" e sem ataques aos seus adversários, recusando-se a responder a críticas que lhe eram dirigidas, o candidato não resistia ao seu estilo habitual.
Um dos principais alvos do líder do Chega foi Luís Marques Mendes, candidato apoiado por PSD e CDS-PP, a quem Ventura se referiu várias vezes como "a marioneta" do Governo de Luís Montenegro, acusando-o de menorizar a crise na saúde.
A propósito de vários casos nesse setor, incluindo mortes por falta de assistência médica, Ventura apontou também a 'mira' ao primeiro-ministro e ao atual Presidente da República, considerando que Marcelo Rebelo de Sousa deveria ser mais exigente com o executivo.
No entanto, também não poupou críticas a outros candidatos, como Henrique Gouveia e Melo e João Cotrim de Figueiredo, com um foco, na reta final, em António José Seguro, que chegou a chamar de "tachista", quando as sondagens começaram a apontar para uma provável segunda volta entre si e o candidato apoiado pelo PS.
Ventura assumiu querer "furar a fronteira" dos apoiantes do Chega e seduzir eleitorado de centro-direita, com o objetivo de vencer as eleições presidenciais "com larguíssima margem" no domingo.
Já a preparar uma eventual segunda volta, antecipou um cenário de luta política entre um bloco socialista e um não-socialista, tendo chegado a desafiar o PSD a apoiá-lo se tal acontecer, apesar de, a dois dias do fim da campanha, ter dito que não queria o apoio do presidente social-democrata.
Para dentro, sobretudo em comícios e intervenções, manteve um discurso anti-imigração e anti-corrupção, procurando uma divisão entre "eles" e "nós", com repetidos apelos ao patriotismo e à matriz cristã do país, fazendo questão de enaltecer símbolos nacionais, nomeadamente a bandeira, que estava quase sempre a seu lado.
Quanto ao estilo da sua eventual presidência, Ventura recusou que o chefe de Estado seja "uma jarra de enfeitar" e prometeu ser "mais interventivo", incluindo guiar a ação governativa, apesar de Portugal não ter um sistema presidencialista.
Com apenas duas ações por dia, e poucos quilómetros percorridos, a campanha arrancou a sul em locais mais favoráveis eleitoralmente para o Chega, e só ao sétimo dia o candidato foi a uma capital de distrito, Portalegre.
Ventura apostou sobretudo em arruadas, sempre rodeado de uma grande comitiva de militantes, deputados e dirigentes nacionais e locais do Chega.
Nessas arruadas, colheu sobretudo o voto dos já convertidos, que lutavam por furar a roda de câmaras e seguranças para conseguir selfies, beijinhos e meia dúzia de palavras com o líder do Chega.
Ao mesmo tempo que fazia declarações aos jornalistas, o candidato com maior presença, de longe, nas principais redes sociais (Instagram, Facebook, Twitter e Tiktok) apostou fortemente no espaço digital para transmitir a sua mensagem, em vídeos curtos.
Segundo o Laboratório de Comunicação da Universidade da Beira Interior, 85,7% dos casos de desinformação associada às presidenciais nas redes sociais são da responsabilidade de André Ventura, numa campanha onde também atacou, por vezes, a comunicação social.














