Vendedor de móveis de Alvaiázere tenta livrar-se da água após tempestade
- 03/02/2026
A chuva, que se faz sentir pelo menos há duas semanas, com sucessivas depressões - Ingrid, Joseph, Kristin e, a partir de hoje, Leonardo - dá tréguas pontuais em Alvaiázere, facilitando os trabalhos de recuperação e limpeza dos danos deixados há sete dias pela passagem da tempestade Kristin, com ventos muito fortes.
Pela serra de Alvaiázere, onde áreas florestais ainda recuperam dos incêndios, saltam à vista talhões de eucaliptos completamente tombados com a força do vento, assim como pinheiros caídos nas estradas, inclusive emaranhados com os fios de postos de eletricidade.
Na localidade de Cabaços, em Alvaiázere, o edifício da empresa Móveis MIK, com três andares, ficou sem parte da cobertura e sem as janelas de vidro do 2.º andar, com a água da chuva a entrar desde a madrugada de quarta-feira, quando ocorreu a tempestade Kristin.
Fabricante e vendedor do mobiliário feito por medida, José Pedro conta que "tem sido uma luta muito grande" para responder à destruição provocada pela depressão, quando o vento enrolou a cobertura de chapa e teto falso.
"Tirámos já milhares de litros de água daqui", revela, enquanto tenta livrar-se da água da chuva do chão. A empresa tem os móveis no 1.º andar do edifício, apesar de nos restantes andares ainda existirem alguns bens, como camas e cadeiras, da antiga firma que era do seu patrão, pai de uma das proprietárias do edifício que arrenda.
José Pedro realça também o cansaço físico e emocional após a tragédia, que é "muito grande": "Uma pessoa deita-se na cama, aquilo agora tem sido... O corpo não dá mais."
A proprietária Fátima Gramacho ajuda José Pedro a tentar minimizar os estragos no edifício, referindo que nada fazia prever o que aconteceu, porque se considerava o espaço seguro. "Foi uma surpresa, um verdadeiro choque", expressa.
A residir fora de Alvaiázere, Fátima Gramacho conta que não conseguiu comunicar com a família e, por isso, teve de deslocar-se a este concelho do distrito de Leiria, onde se deparou com estragos nas habitações dos seus familiares, sobretudo nos telhados.
Para tentar resolver os danos das coberturas e telhados, a população tem recorrido a lonas e plásticos, bem como telhas e outros materiais de construção.
Em declarações à agência Lusa, o presidente da Câmara de Alvaiázere, João Paulo Guerreiro (PSD), apelou à entrega de lonas, telhas, cordas e materiais de fixação, afirmando que "tudo o que sirva para fazer cobertura de edifícios é muito importante".
Na segunda-feira, chegou ao município apoio de corporações de bombeiros de Lisboa e de membros do Exército e da Guarda Nacional República, o permite "ter uma capacidade de resposta mais robusta", indicou.
A depressão Kristin provocou estragos "em mais de 95% do parque habitacional e empresarial" de Alvaiázere, e as infraestruturas públicas também sofreram impactos muito significativos, inclusive o centro de saúde e a Loja do Cidadão, bem como as escolas, que só irão reabrir na segunda-feira, depois de serem desobstruídas todas as vias.
A ajudar na retirada de árvores das estradas na localidade alvaiazerense de Relvas, Joaquim Mendes, morador de 65 anos e reformado, está com um machado a cortar troncos. Há fios de eletricidade caídos e, por isso, a ajuda é para que as pessoas da rua voltem a ter luz "mais rápido".
"Também tive bastantes estragos, mas já consegui recuperar parte das coisas. Em casa já não chove, é que o interessa, mas ainda lá tenho muita coisa para arranjar, mas que não faz diferença agora. O que está, dá para guardar mais lá para o verão e para não andar em cima dos telhados. Posso arriscar cair de um telhado abaixo", indica, perspetivando "estragos à volta de 2.000 euros".
Joaquim Mendes conta ainda que "muita comida se estragou, porque não havia luz", e as últimas noites foram iluminadas com lanternas e velas, inclusive para jantar. "Estava-se um bocado na lareira e depois ia-se para a cama", adianta.
"Nunca tinha visto, nem nunca me passou pela cabeça ver uma coisa destas, isto foi mesmo horrível", expressa, relativamente à depressão Kristin.
Dez pessoas morreram desde a semana passada na sequência do mau tempo. A Proteção Civil contabilizou cinco mortes diretamente associadas à passagem da depressão Kristin e a Câmara da Marinha Grande anunciou uma outra vítima mortal, a que se somaram depois quatro óbitos registados por quedas de telhados (durante reparações) ou intoxicação com origem num gerador.
A destruição total ou parcial de casas, empresas e equipamentos, quedas de árvores e de estruturas, cortes ou condicionamentos de estradas e serviços de transporte, em especial linhas ferroviárias, o fecho de escolas e cortes de energia, água e comunicações são as principais consequências materiais do temporal, que provocou algumas centenas de feridos e desalojados.
Leiria, Coimbra e Santarém são os distritos com mais estragos.
O Governo decretou situação de calamidade até ao próximo domingo para 68 concelhos e anunciou um pacote de medidas de apoio até 2,5 mil milhões de euros.
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