UE/Mercosul: Acordo é "última chance" de o Atlântico "manter relevância"
- 17/01/2026
"Este acordo funciona como uma grande opção para o Mercosul e para a União Europeia", afirmou em declarações à Lusa Welber Barral, que liderou a secretaria do Comércio Externo brasileiro durante o segundo mandato do Presidente Lula da Silva, entre 2007 e 2011.
"Na verdade, é talvez a última chance que nós tenhamos de manter alguma relevância para o Atlântico, já que o centro dinâmico do mundo está mudando para o Pacífico", frisou o especialista, atualmente conselheiro da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e presidente do Instituto Brasileiro de Comércio Exterior e Investimentos (IBCI).
A assinatura hoje do acordo comercial, após negociações de mais de 25 anos, no Gran Teatro José Asunción Flores do Banco Central do Paraguai, contará com a presença da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, do presidente do Conselho Europeu, António Costa, e dos ministros os Negócios Estrangeiros dos países que compõem o Mercosul Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai) e ainda do atual lider do bloco sul-americano, o Presidente do Paraguai, Santiago Peña.
E ele traz, segundo Welber Barral, previsibilidade comercial "e regras do mundo mais institucionalizado e democrático, em vista do que estão fazendo o China e os Estados Unidos".
O impulso final ao acordo explica-se em grande medida pela necessidade de encontrar mercados e parceiros comerciais alternativos, perante a escalada de tensões comerciais e imposição de tarifas por parte da administração norte-americana após o regresso ao poder de Donald Trump, a que se junta a crescente influência da China em regiões latino-americanas e a dependência europeia de Pequim no fornecimento de matérias-primas críticas.
A acrescentar, no ano passado, Donald Trump iniciou uma crise diplomática sem precedentes com o Brasil e colocou tarifas pesadas à maior económica da América Latina, que entretanto retirou.
Por isso, Welber Barral afirma que, também para o Brasil, o acordo "é muito importante para diminuir a extrema dependência em relação à China e a intervenção norte-americana".
Os Estados Unidos, afirmou, têm "olhado de novo com a nova doutrina Donray para a América Latina toda como seu quintal", depois das forças especiais norte-americanas ter capturado, em Caracas, Nicolas Maduro e dos Estados Unidos terem ameaçado vários países latino-americanos.
"O Brasil é grande demais para ser quintal dos Estados Unidos e, por isso, é importante diversificar com outros blocos que tenham valores similares. É o caso da União Europeia", sublinhou o ex-secretário do Comércio Exterior brasileiro.
Ainda sobre as potencialidades do acordo, o especialista brasileiro acredita numa "enorme possibilidade de aumento de investimento bilateral".
"Muita tecnologia brasileira na área agrícola poderia ser utilizada na Europa, e nós estamos falando, inclusive, de biocombustíveis, em que a Europa é muito ineficiente", disse.
Do outro lado, existe a possibilidade de investimento europeu não apenas nas cadeias agrícolas, "que estão se expandindo muito e podem se expandir no Brasil sem desmatamento", considerou.
Existe também a possibilidade das empresas europeias se instalem nos países do Mercosul "para produzirem produtos de consumo para esse mercado que vai crescer e vai aumentar seu poder de compra".
O acordo permitirá eliminar tarifas para 91% das exportações da UE para o Mercosul e para 92 % das vendas sul-americanas para a Europa, abrindo um mercado conjunto de mais de 700 milhões de consumidores e que, juntos, representam um produto interno bruto (PIB) de aproximadamente 22 biliões de dólares, segundo dados da Comissão Europeia.
Para a União Europeia, o tratado abre as portas de um mercado historicamente protegido aos seus setores industriais mais competitivos, entre os quais se destacam a indústria automóvel e a maquinaria industrial, onde as atuais tarifas entre 35% e 14% desaparecerão progressivamente.
Outros setores que beneficiarão de forma especial serão o químico e o farmacêutico, bem como produtos agroalimentares protegidos por denominações de origem, como os vinhos e os queijos.
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