Triplo homicida de Madrid libertado pelos EUA nega crime: "Cilada"
- 06/02/2026
Dahud Hanid Ortiz, um ex-militar condenado na Venezuela pela morte de três pessoas em Espanha, em 2016, quebrou o silêncio após ter sido libertado numa troca de prisioneiros entre os Estados Unidos e a Venezuela no ano passado. Numa entrevista, o homem disse ter sido vítima de uma "cilada orquestrada por terceiros" e que foi torturado durante o período em que esteve preso.
Ortiz, conhecido como o "triplo homicida de Usera" pelo crime cometido em Madrid, nasceu na Venezuela, mas tem também nacionalidade norte-americana, o que lhe permitiu ser uma das dez pessoas que a Venezuela libertou em troca de 252 venezuelanos que estavam detidos numa prisão em El Salvador, em julho de 2025.
O ex-fuzileiro tinha sido condenado há cerca de um ano, em 2024, por um tribunal de Caracas pelos assassinatos de duas mulheres e um homem, a 22 de junho de 2016.
Segundo a acusação, Ortiz saiu da Alemanha, onde residia, para ir ao escritório de advocacia de Víctor Joel Salas, em Madrid, com a intenção de o assassinar por acreditar que mantinha um relacionamento amoroso com a sua ex-mulher. No entanto, o advogado não estava presente e o ex-fuzileiro naval matou as três pessoas que encontrou: duas funcionárias cubanas e um cliente equatoriano. Depois, incendiou o local e fugiu.
Acabou por ser detido em 2018, na Venezuela, e condenado em 2024 a 30 anos de prisão, a pena máxima permitida por lei. Na altura, Espanha chegou a pedir a sua extradição, mas Caracas rejeitou.
Durante os sete anos que esteve detido, Ortiz diz ter sido alvo de "tortura" e que acreditava que iria morrer.
"Permaneci em silêncio porque há coisas que devem ser mantidas em segredo. Mas há outras que precisam ser contadas. Quero contar o que me aconteceu na Venezuela e também negar tudo o que se diz na internet sobre mim em relação ao crime em Espanha", disse o homem, de 51 anos, em entrevista à Telemundo, revelando que foi agredido e abusado sexualmente.
"Uma vez tive de morder a língua para beber meu próprio sangue depois de cinco dias sem comer nada", contou. "Os meus rins começaram a falhar. O meu treinamento militar ajudou-me a sobreviver, mas nada nos prepara para algo assim".
Sobre o crime em Madrid, que as autoridades espanholas consideraram ser um "brutal crime passional", Ortiz reiterou a sua inocência. "Eu não matei aquelas pessoas. Sou inocente", alegou.
"Eu estava na Alemanha, a mais de 2.000 quilómetros daquele lugar, quando tudo aconteceu", insistiu. "Nunca conseguiram apresentar nenhuma prova científica contra mim. Nem uma impressão digital, nem ADN, nem vídeos".
Ortiz afirma que foi vítima de uma "cilada orquestrada por terceiros poderosos e influentes", incluindo o advogado Víctor Joel Salas.
"Ele tinha ligações com o tráfico de drogas, recebeu ameaças e teve de fugir", disse. "Usou os seus contactos para manipular toda esta confusão e incriminar-me porque estava num relacionamento com alguém do meu passado".
O homem recordou ainda o dia que foi detido em Caracas e disse ter sido detido "simplesmente por ser estrangeiro".
"Eu estava na Venezuela de férias. Queria fazer coisas diferentes. Mas um dia, um grande número de polícias encapuzados apareceu, sem qualquer identificação ou mandado, e sem que eu tivesse cometido qualquer crime. Eles atacaram-me e espancaram-me até eu desmaiar. Tudo simplesmente por ser estrangeiro", disse.
Advogado rejeita versão de Dahud Ortiz: "É um assassino"
O advogado, que perdeu a sua mulher no ataque, lamentou que Dahud Ortiz tenha sido libertado durante uma troca de prisioneiros, frisando que "este não era um prisioneiro político comum, é um assassino".
"Neste momento, há três famílias devastadas porque um criminoso foi libertado por engano. Este homem tirou a vida de três pessoas inocentes, deixando crianças órfãs para as quais não sabemos como explicar o que aconteceu. Levei muitos anos para lidar com isso, mas hoje posso dizer que o perdoei pelo que fez… O que eu nunca farei é esquecer, e espero que isso não fique impune. Vamos lutar até o fim para que a justiça seja feita", frisou.
Rejeitou ainda ter armado uma cilada contra o ex-fuzileiro e lembrou que o norte-americano foi expulso do exército dos Estados Unidos por "falsificar documentos para aumentar sua patente oficial".
Segundo o próprio, Ortiz ligou-lhe "inúmeras vezes" para o assediar "antes do crime" e "existem provas testemunhais, técnicas e científicas que comprovam que foi o autor do triplo homicídio".
"Ele chegou a ouvir as conversas da Irina. Invadiu o computador dela. Esse homem é capaz de tudo. E a justiça precisa de ser feita", disse o advogado, referindo-se a Irina Treppel, ex-mulher de Dahud Ortiz.
"Ele tentou fazer as autoridades acreditarem que estava na Alemanha e usou um amigo, chamado Aditya Dolontelide, que mais tarde se tornou uma testemunha-chave no caso, porque lhe pediu que guardasse o seu telefone pessoal para que pudessem ligar para Irina da Alemanha", contou.
EUA libertaram 252 venezuelanos em troca de dez norte-americanos
A Venezuela, recorde-se, chegou a um acordo com Washington para a libertação de 252 venezuelanos que tinham sido deportados dos EUA e que permaneciam detidos numa prisão de alta segurança em El Salvador a troco de norte-americanos detidos no país.
"O Governo da República Bolivariana da Venezuela anuncia com satisfação que conseguiu a libertação de 252 cidadãos venezuelanos que permaneciam sequestrados e submetidos a desaparecimento forçado num campo de concentração, conhecido como Centro de Confinamento do Terrorismo (CECOTEC), na República de El Salvador", lia-se num comunicado divulgado em julho de 2025.
O documento sublinhava que "a Venezuela pagou um preço elevado pela libertação destes cidadãos, através de uma troca com as autoridades dos Estados Unidos de um grupo de cidadãos norte-americanos que se encontravam à ordem da justiça pela sua participação comprovada em crimes graves contra a paz, a independência e a segurança da nação".
Na mesma altura, o chefe da diplomacia dos Estados Unidos, Marco Rubio, anunciou que 10 cidadãos norte-americanos que estavam detidos na Venezuela foram libertados após um acordo entre os dois países e El Salvador.
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