Rita tinha 18 anos quando desapareceu. Após 20 anos, mistério permanece
- 17/02/2026
Rita Solf Monteiro tinha 18 anos quando, no dia 17 de fevereiro de 2006, desapareceu junto ao Mercado de Matosinhos, no Porto.
Nesse fatídico dia, a jovem, que tinha sido diagnosticada dois anos antes com esquizofrenia, foi deixada ali pela mãe, para apanhar o autocarro rumo a uma visita de estudo à Fundação Serralves.
Entrou no café Internacional, foi à casa de banho e acabou por perder o transporte que ia apanhar com as amigas.
Ainda falou com as funcionárias do estabelecimento - que conheciam a família - e tentou apanhar outro autocarro.
E é aí que o mistério se adensa. Imagens registadas pelas câmaras de videovigilância apanharam a jovem a entrar o transporte, a falar com o motorista e a sair logo de seguida, antes mesmo deste arrancar.
A partir daí, nunca mais foi vista. Passaram-se duas décadas, o processo foi aberto e fechado, o pai processou (e ganhou) o Estado por falhas na investigação e Rita continua sem aparecer. Apesar disso, a família não desiste.
Ao Jornal de Notícias (JN), o pai da jovem, Luís Monteiro, admite que procurou-a em locais de tráfico e consumo de droga, foi a Vigo, onde viveria "um homem suspeito de raptar adolescentes", e até a um acampamento de uma comunidade alternativa, em Monchique, no Algarve. Mas nunca encontrou a filha. Nem ele, nem as autoridades.
A condução da investigação ficou marcada por erros graves. Só três anos depois, por exemplo, é que a Polícia Judiciária (PJ) falou com amigos da Rita, lhe revistou o quarto e falou com os pais.
Em entrevista à CNN Portugal, a inspetora da PJ que ficou à frente do caso nessa altura, admitiu que os colegas anteriores pecaram por não deixar nada escrito e que Rita nunca mais lhe saiu da memória. Apesar dos erros cometidos nas anteriores diligências, acredita que a jovem tenha cometido suicídio.
Em busca de justiça e para evitar que situações como a de Rita se repitam, o pai iniciou uma ação judicial contra o Estado Português.
A decisão do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem (TEDH), em 2022, condenou o Estado a pagar uma indemnização de 26 mil euros, acrescida de 17 mil euros para custos e despesas legais.
Ao falar sobre a decisão do TEDH, numa entrevista ao programa Júlia, da SIC, Luís Monteiro disse que a sua vitória foi "o concretizar de uma verdade" após uma luta de vários anos.
"Felizmente, sou um empresário de sucesso, não tenho necessidade dinheiro, a indemnização é algo que o meu advogado me aconselhou a fazer, mesmo sem pedido de indemnização o processo iria para o Tribunal Europeu", começou por dizer, acrescentando que é uma "pessoa de lutas".
"Se eu puder ajudar outros casos estarei cá, porque tenho posses e tenho meios, e tenho conhecimentos para o fazer", salientou.
Para Luís Monteiro a investigação da PJ foi "pouca, má e tardia".
"Quando havia pistas palpáveis e eles não davam seguimento, comecei a ficar preocupado, preocupadíssimo, mas não podia trocar de fornecedor [...9]. Era aquilo que tinha e tinha de aguentar aquilo", explicou, reiterando que tem "provas" de que a investigação foi, no início, mal conduzida e que estas foram, "felizmente, reconhecidas pelo Tribunal Europeu".
"Foi-me dito por um investigador: 'Oh senhor Monteiro, o senhor não se preocupe, quando a sua filha tiver frio e fome aparece'. Isso foi a primeira", contou, lembrando depois que o telemóvel da filha esteve ativo até ao sábado seguinte, mas "como não havia juiz" não foi enviado um ofício para a operadora para tentar a localização.
Além disso, segundo Luís, a PJ viu as imagens filmadas pela videovigilância do autocarro e nada fez com as mesmas.
"Ter uma pequenina pista num caso de desaparecimento é quase com uma vitória, é o fio da meada, se eles nem aí pegaram no fio da meada. Eles ficaram sentadinhos, à espera", lamentou, lembrando depois que um dos inspetores tinha um telemóvel "com a bateria viciada" e, por isso, "não atendia, nem respondia".
"A Judiciária também já andava como uma barata tonta, também não têm meios. Nem meios humanos, nem meios de automóveis, telemóveis, de investigação", afirmou a Júlia Pinheiro, lembrando que o próprio recebia várias pistas e realizava uma triagem das mesmas antes de entregar às autoridades.
Luís Monteiro entende que as falhas na investigação não foram propositadas, ocorreram sim "por desleixo e mau profissionalismo".
Apesar de todos estes contratempos e de já terem passado duas décadas depois do desaparecimento da filha, Luís Monteiro não desiste de encontrar Rita.
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