"Quão desligados temos de estar para ver funeral streaming como adeus?"

  • 05/02/2026

O Dicionário da Língua Portuguesa (DLP) da Academia das Ciências de Lisboa define "morte aparente" como uma "paragem temporária de algumas funções vitais, especialmente das funções cardíacas e respiratórias, com sinais exteriores de morte, mas em que a reanimação é possível". Esta condição médica foi um dos pontos de partida para o romance homónimo de Carolina Fulcher, que procurou, colocando as emoções no papel, "dar um sentido a algo que não compreendia".

 

Na verdade, a morte do avô, a cujo funeral assistiu à distância, graças à transmissão em direito disponibilizada durante e no rescaldo da pandemia, foi o que levou a autora a "escrever a primeira palavra" do seu livro de estreia, tal como confidenciou ao Notícias ao Minuto.

Esta "experiência surreal" e "macabra" deixou Carolina Fulcher a "escarafunchar" o assunto, uma vez que, na sua ótica, "o funeral é uma despedida daquela pessoa". "O quão desligados temos de estar para podermos achar que assistir a um funeral em streaming vai ter esse papel? Não tem de todo", defendeu.

"Morte Aparente" traz-nos, assim, a história de um homem que, por forma a colmatar a solidão, assiste a transmissões em direto de funerais alheios. No seu caminho cruza-se uma mulher que, também ela, marca presença nas exéquias de desconhecidos, para vincar um artifício de que faz uso para prosseguir com a sua vida, após uma relação tóxica.

A par da própria autora, o protagonista nasceu em morte aparente, o que o leva, em adulto, a "procurar a tristeza nos outros". Perante este "fechar de um ciclo", Carolina Fulcher deixa uma promessa: "Vamos para outra coisa, para outras inquietações."

Nasci nessa condição, em morte aparente, que é um termo médico. No fundo, é entrar no mundo sem vida. Esta foi uma ideia que sempre me acompanhou, durante toda a minha vida. Os médicos lá tentaram reanimar-me várias vezes e, graças a Deus, não desistiram. Das frases que mais ouço a minha mãe dizer, desde criança, é: "Tu nasceste morta." É outra das coisas a que tento dar sentido

O que é que a motivou a escrever esta obra e a abordar temas que, apesar de tão comuns, continuam a ser tabu na sociedade – nomeadamente a morte, a solidão e a fragilidade humana?

Assim como toda a gente passa por momentos difíceis, procurei uma forma de digerir alguns sentimentos que tive quando passei por coisas difíceis, nomeadamente a morte do meu avô. Comecei a escrever para pôr tudo no papel e para, de alguma forma, dar um sentido às coisas.

Senti que expresso-me muito melhor a escrever do que a falar. Mas foi mesmo de um lugar de tentar dar um sentido a algo que não compreendia, um sentimento que me arrebatava, que me punha muito para baixo, e de tentar sair desse lugar. Além disso, também sinto que o facto de ter filhos puxa-me muito para esse lugar de vulnerabilidade. Acredito que, para escrevermos, - pelo menos o estilo da minha escrita, que é muito sobre sentimentos e sobre as personagens, - é preciso estar nesse lugar de vulnerabilidade.

Acho que o leitor que se vai sentir mais ligado a esta história também vai ter de a ler com uma certa disponibilidade, para conseguir empatizar com estas duas personagens. Sinto que os meus filhos estão sempre a colocar-me nesse lugar de vulnerabilidade; tenho de compreender porque é que estão a fazer esta birra, tenho de compreender o que é que estão a perguntar-me. Estão sempre a fazer perguntas; como é que respondo? Qual é que é a melhor forma? Acho que isso também me tem dado muitas ferramentas para pensar nestas questões mais humanas, da nossa forma de reagir às coisas, de lidar com coisas pesadas. Acho que é uma grande fonte de inspiração para mim.

Mencionou a morte do seu avô; vi precisamente uma publicação na qual deu conta do lançamento deste seu primeiro romance, em que escreveu, e passo a citar: "'Morte Aparente' fala de várias coisas que não me cabiam na cabeça, e a mais difícil, que me fez escrever a primeira palavra, foi a morte do meu avô." De que forma é que o livro engloba a morte do seu avô?

Na verdade, a primeira coisa que escrevi neste livro foi precisamente o funeral a ser transmitido em direto, em streaming. Os meus avós são brasileiros e, quando isso aconteceu, o meu avô estava no Brasil. O funeral foi transmitido assim, para quem não podia estar lá, e foi uma experiência surreal para mim: ver aquilo à distância, conseguir ver o caixão, conseguir ver as pessoas que estavam lá… Foi mesmo muito, muito estranho. Fiquei a pensar naquilo durante muito tempo e tive de pô-lo no papel.

Mas foi estranho num bom sentido ou num mau sentido? Ou os dois? 

Foi macabro. Foi mesmo macabro para mim ter essa experiência. O funeral é uma despedida daquela pessoa. O quão desligados temos de estar para podermos achar que assistir a um funeral em streaming vai ter esse papel? Não tem de todo. Se calhar até nos deixa no limbo, porque vemos o sofrimento das pessoas que estão lá, vemos que, realmente, aquilo está a acontecer, que há um caixão, há essa cerimónia, mas é estranho; parece que é uma despedida que fica em suspenso.

Notícias ao Minuto Capa do livro "Morte Aparente"© Reprodução/Penguin Random House Portugal  

Na apresentação das novidades da Penguin Random House, foi dito que nasceu em morte aparente, tal como o protagonista. Há aqui alguma nota de autoficção? 

Sim, o meu nascimento foi um bocadinho complicado. Nasci nessa condição, em morte aparente, que é um termo médico. No fundo, é entrar no mundo sem vida. Esta foi uma ideia que sempre me acompanhou, durante toda a minha vida. Os médicos lá tentaram reanimar-me várias vezes e, graças a Deus, não desistiram. Das frases que mais ouço a minha mãe dizer, desde criança, é: "Tu nasceste morta." É outra das coisas a que tento dar sentido. No fundo, o que é que isso significa? Será que uma pessoa que começa assim a vida, que já esteve do lado de lá e volta, vem mais vulnerável ao estado de espírito das outras pessoas? Será que vem mais espiritual? Será que vem com esta predisposição de tentar procurar o sentido da vida? O que é que será que havia do outro lado? Eu já não me lembro, mas sempre tive muita curiosidade em relação a este assunto, porque parece-me um tanto macabro, ainda que com um final feliz.

Esta história passou por criar uma teoria à volta disto e tentar dar-lhe um sentido, com ficção. Diverti-me muito a fazê-lo e é quase como o fechar de um ciclo na minha cabeça, porque dei-lhe um sentido e está fechado. Agora, vamos para outra coisa, para outras inquietações.

É interessante que a sua mãe lhe diga desde criança que nasceu morta, já que, normalmente, tentamos esconder isso dos mais pequenos, o que também coloca em evidência o desconforto que a sociedade sente face ao luto e à morte. Isto fê-la encarar as coisas de forma diferente? Como é que a influenciou?

A minha mãe não é uma mãe fofinha, é muito pragmática. Acho que, na verdade, essa forma de lidar com aquilo que aconteceu talvez seja uma defesa. A minha mãe era muito nova quando me teve; tinha 22 anos. Portanto, havia aí uma certa inconsciência de achar que nada vai acontecer, vai ficar tudo bem. Não sei até que ponto é que a gravidade da situação foi, na altura, totalmente compreendida por ela. A minha mãe até brinca: "Olha, tiveste muitas complicações no teu nascimento mas, depois, nunca mais ficaste doente. Durante a infância, nunca ficaste doente. Nunca, nunca, nunca. Tiveste tudo o que tinhas de ter naquela altura, naquele momento." Acho que este pragmatismo tem sido ótimo, pelo menos para mim, que sou muito mais introspetiva. Às vezes, preciso de alguém que me diga que não é preciso estar aqui a escarafunchar no significado das coisas, mas é algo de que gosto, e são formas diferentes de lidar.

Como não tinha esse contacto com outras pessoas, não chegava a essa interação mais profunda para perceber que todos nós temos as nossas tristezas, e encontrou nos funerais uma via para tentar perceber se outros também se sentiam infelizes. Acho que procurava, na humanidade dos outros, a sua própria

Voltando à questão da Covid-19. Achei curioso que tenha deixado explícito que a história decorre após a pandemia da Covid-19, uma vez que a grande maioria dos livros salta esse período; talvez para ignorar que alguma vez aconteceu, como habitualmente se faz com tudo o que é desagradável. Foi propositado?

Na verdade, quando comecei a escrever não tinha pensado em nenhum período específico. Mas, para fazer sentido para a história, acho que teria sempre de ser depois da pandemia, por causa dos funerais em streaming. Depois do que aconteceu, acho que as pessoas deixaram de ter algum pudor em lidar com certas coisas. Aliás, é só vermos os influencers que, muitas vezes, são super extrovertidos na câmara, mas depois, ao vivo, até podem ter alguma dificuldade em lidar com a interação social. Atrás de uma câmara, todos estamos muito protegidos. Acho que a Covid-19 veio trazer isso para o nosso dia a dia… A quantidade de reuniões que fazemos online, por exemplo. E até bateu certo, porque a história desenrola-se em dois tempos. Portanto, teria sempre de haver uma parte da história que é agora, para voltarmos atrás o tempo suficiente para ter conhecimento da altura em que a outra parte da história se desenrola.

Assistir a funerais alheios é, para o protagonista, uma forma de colmatar a sua solidão e de constatar que, na verdade, todas as pessoas passeiam os seus cacos por aí, estejam eles reparados com pó de ouro ou não. Porque não continuar a assistir a casamentos, como inicialmente descrito pelo próprio?

Como se sentia triste, sentia-se mais próximo das pessoas que estavam a assistir a funerais. Acho que procurou algum consolo nos casamentos, mas acabou por perceber que há muito mais alegria. Ele estava constantemente à procura daquele momento em que, na cara da outra pessoa, via alguma tristeza; particularmente no pai da noiva ou na mãe do noivo.

Queria alimentar-se da tristeza dos outros, digamos assim?

Não diria alimentar-se; acho que queria rever-se. Ou seja, ele estava sozinho na sua tristeza, não se sentia à vontade com pessoas e era bastante solitário. Como não tinha esse contacto com outras pessoas, não chegava a essa interação mais profunda para perceber que todos nós temos as nossas tristezas, e encontrou nos funerais uma via para tentar perceber se outros também se sentiam infelizes. Acho que procurava, na humanidade dos outros, a sua própria.

No fundo, o que acontece é que ela tem um desgosto amoroso tão grande, fica tão desolada e entra numa depressão tão grande, que a única forma que encontra para continuar a viver é imaginar que ele não continua a viver sem ela. Ela não consegue conceber que ele tem uma vida depois dela e, então, imagina que ele morreu

Os sonhos também têm um papel importante na narrativa. Procurou com eles dar conta de que o personagem desejava sair da sua pele, por a dar como inadequada?

Sim. Foi uma forma que arranjei de dar a conhecer os pensamentos deste personagem. Ou seja, ele assistia aos funerais e, depois, sonhava com a forma como aquela pessoa morreu, mas era a imaginação dele. Ele é que estava a dar um sentido àquilo, o que transmite a forma como ele pensa. Por exemplo, há um sonho em que ele imagina uma bactéria hospitalar a fazer o seu caminho pelo sistema de ventilação, até que encontra uma pessoa que trata mal as enfermeiras, que é péssima, daquelas a que chamamos de ruins, que não morrem por nada. E a bactéria vai, então, alojar-se naquela pessoa. É mesmo assim que os sonhos funcionam; são as metáforas que encontramos para dar sentido àquilo que vemos no dia a dia. Até há uma parte do livro em que ele está a explicar à psicóloga que é como se o cérebro não soubesse que ele está a dormir, e continua a tentar perceber o que é que aconteceu, seja nos funerais, seja quando vai a uma consulta, e dar um sentido àquilo. O cérebro assume controlo para dar uma explicação; é quase como o realizador de um filme, que tenta fazer uma história à volta daquilo. Acho que os sonhos têm muito esse papel e ajudam-nos a digerir o dia a dia.

E, no caso dele, também indicam que vive muito na sua cabeça e na sua solidão.

Sim, sim, sem dúvida.

Então, quando confrontado com a presença da intrusa, o protagonista questiona-se, ironicamente, quanto ao tipo de pessoa que assiste a funerais alheios. Atiro-lhe a pergunta: "Mas que tipo de pessoa é que assiste a funerais de quem não conhece?" 

Não sei se existe esse tipo de pessoa. Assim como há os wedding crashers, será que há funeral crashers? Não sei. Acho que é preciso ser-se uma pessoa com passatempos bastante macabros para o fazer.

Bom, no caso dele, é aquilo que falámos: procurar a tristeza nos outros. Mas, no caso dela, talvez não seja assim tão difícil relacionarmos-nos e empatizarmos com a situação. No fundo, o que acontece é que ela tem um desgosto amoroso tão grande, fica tão desolada e entra numa depressão tão grande, que a única forma que encontra para continuar a viver é imaginar que ele não continua a viver sem ela. Ela não consegue conceber que ele tem uma vida depois dela e, então, imagina que ele morreu. Para alimentar essa ideia, de vez em quando assiste a um funeral, para tentar imaginar que é ele o defunto.

O romance também deixa evidente o impacto que os nossos estados de espírito podem ter no outro, consoante o seu nível de vulnerabilidade. Ainda que nos possamos destruir uns aos outros, também podemos salvar-nos?

Neste caso, a minha ideia era mesmo dar uma réstia de esperança. Sim, podemos achar que o outro tem todo esse poder sobre nós, de nos mandar abaixo, de nos fazer sentir que não somos nada. Mas, por outro lado, será que também não conseguimos reconhecer que muitas das pequenas alegrias que temos no dia a dia se prendem com nos abrirmos para a possibilidade de que a outra pessoa nos pode fazer felizes? Nesta história, inventei uma teoria que tem a ver com os laços que criamos com uma criança, especificamente com um recém-nascido, em que a neuroplasticidade é tão grande, tão grande, tão grande, que o nosso próprio estado de espírito vai ter algum impacto nos caminhos que se vão formar na cabeça daquela pessoa, que ainda é só um recém-nascido. Mas isto é uma teoria minha, com base no facto em que acredito mesmo que os laços que criamos com as crianças são importantíssimos, e que tudo o que fazemos vai ter impacto. É aquela história de a mãe tem sempre culpa, há sempre traumas.

Acho mesmo que vai haver muita gente que vai rever-se nisto, porque idealizamos as pessoas, seja em relações amorosas ou não. E, de repente, estamos apaixonadas. E, de repente, começamos a ver as pequenas falhas, que podem tanto ser o que seguram a pessoa e a tornam tão única, como também podem ser aquilo que faz desmoronar o que tínhamos idealizado

E é a questão de "nature versus nurture".

Exatamente. Mas acho que sim, que as nossas sinapses foram, de alguma forma, influenciadas pelos laços que foram criados connosco em criança. Tento explorar isso nesta história e dar uma razão para ele se sentir como se sente, já em adulto.

Também há o facto de que o trauma é, segundo estudos, transmitido de geração em geração, pelo que até se pode ir mais longe nessa teoria.

E que o trauma fica no corpo. Investiguei isso no livro "O Corpo não Esquece", de Bessel Van Der Kolk, e, realmente, está tudo lá. Ainda para mais tendo nascido em morte aparente... Se calhar foi por isso que ele estava muito mais vulnerável ao estado de espírito dela. Este livro é mais para nos questionarmos do que propriamente para dar uma explicação às coisas.

Acho que o facto de ele ter nascido morto é uma questão muito crucial nesta história, assim como o é o facto de ela ter ficado tão deprimida, depois de uma relação tão tóxica. Quando ela está a contar como é que se conheceram, é ela a pensar. Parece que é real, que está tudo a acontecer e, de repente, ela começa a vê-lo a desfazer-se. Ou seja, ela idealizou-o. Acho mesmo que vai haver muita gente que vai rever-se nisto, porque idealizamos as pessoas, seja em relações amorosas ou não. E, de repente, estamos apaixonadas. E, de repente, começamos a ver as pequenas falhas, que podem tanto ser o que seguram a pessoa e a tornam tão única, como também podem ser aquilo que faz desmoronar o que tínhamos idealizado. É o desmoronar daquela ideia que ela tinha dele mas, mesmo assim, ela continua embevecida a olhar para ele; não consegue perceber que aquilo estava a fazer-lhe mal.

É um pouco a sina dos românticos, se pensarmos nisso.

É, completamente. E ela já estava muito triste, por causa de tudo o que aconteceu. Portanto, ele apanhou-a numa altura mais vulnerável.

Tendo em conta que é licenciada em Economia, de onde veio o interesse pela escrita?

Escrevo desde sempre. Era uma das coisas que adorava fazer na escola, desde que me lembro. Ficava horas a fazer as composições nos testes... Os testes tinham a composição no fim e eu só queria despachar o resto para inventar uma história qualquer. Sempre adorei isso e leio imenso desde sempre; foi uma coisa que os meus pais me incutiram desde pequena. Comecei a perceber que eu também podia contar as minhas histórias. E, ainda por cima, podia pensar nas minhas questões, teorias ou pensamentos através de uma história. Admiro imenso os escritores e estou muito grata por ter tido esta oportunidade. A literatura é uma das coisas que mais feliz me faz.

E tem planos para continuar a escrever?

Sim, a minha ideia é continuar a escrever.

"A forma como tratamos os nossos mortos e os dos outros é muito distinta"

Rafaela Ferraz é a convidada desta segunda-feira do Vozes ao Minuto. Em "Portugal de Morte a Sul", a escritora e investigadora independente cartografa o que separa a cidade dos vivos da cidade dos mortos, que atuam como um espelho, apesar das barreiras físicas e sociais erguidas.

Daniela Filipe | 09:20 - 17/11/2025

FONTE: https://www.noticiasaominuto.com/cultura/2926658/quao-desligados-temos-de-estar-para-ver-funeral-streaming-como-adeus#utm_source=rss-ultima-hora&utm_medium=rss&utm_campaign=rssfeed


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