Promessas, atrasos e milhões. Estará o porto das Flores pronto em 2030?
- 02/02/2026
Dia 2 de outubro de 2019. O furacão Lorenzo passa pelos Açores e deixa um rasto de destruição pela região, com meia centena de desalojados e mais de 330 milhões de euros de prejuízos.
A ilha das Flores acaba por ser a mais afetada. Às primeiras horas da manhã, os habitantes têm um vislumbre das trevas que até hoje continuam a afetar o grupo mais ocidental do arquipélago.
O único porto comercial da ilha estava desfeito. Se os problemas de abastecimento de mercadorias já eram bem conhecidos dos florentinos, a partir daí amplificam-se.
Durante vários dias, o país esteve de olhos postos na angústia dos 3.429 habitantes (segundo os Censos de 2021) deste território insular. Sucederam-se as visitas: do Governo Regional, do Governo Central e até do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, que mostrou-se "impressionado" ao ver tal calamidade.
Mas as semanas passaram e a preocupação "dos que são de fora" começou a esbater-se. Numa primeira fase, o abastecimento de mercadoriais foi assegurado através de pequenas embarcações, que atracavam no cais-5, destinado a barcos de tráfego local que, ao contrário do cais comercial, conseguiu sobreviver ao furacão Lorenzo. Assim como da Força Aérea.
Entretanto, foi feita uma "nova ponte-cais" para atracar embarcações de maior porte, o que começou a acontecer a partir de fevereiro de 2023, com navio Margarethe, um porta-contentores com bandeira de Antígua, fretado para fazer 3 ou 4 meses no arquipélago - uma vez que leva menos carga do que os navios que antes faziam a rota- mas que acabou por ficar na região até hoje.
Depressa os habitantes perceberam que o plano B para dar às Flores alguma normalidade transformar-se-ia em A durante muito - "demasiado", para alguns - tempo.
Passaram-se também meses. E até (mais de cinco) anos. Depois de vários estudos e muitas promessas, de planos que andaram para a frente e para trás, de frequentes problemas (e queixas) no abastecimento de mercadorias, de mudança de governos, em maio do ano passado, os florentinos viam, finalmente, alguma luz ao fundo do túnel.
Bateram-se palmas e ouviram-se urras. Mas, quase nove meses depois desse acontecimento, muitos florentinos começam a duvidar de que o prazo da obra, que é suposto terminar em 2030, seja cumprido.
"Um depois que nunca mais chega"
Ao Notícias ao Minuto, foram vários os que notaram que os avanços no porto são poucos. "Demasiado poucos" para uma obra que arrancou no verão.
"Apesar de ser inverno agora e de as condições atmosféricas não serem as melhores, o que eles fizeram ali com meia dúzia de homens nós também tínhamos feito", denuncia um habitante, que prefere manter o anonimato.
Já outro faz eco do que se ouve nas ruas das Flores. "Já passou por lá? O que nota de diferente desde que as obras começaram? Nada! Ali, na Calheta [praia localizada junto ao porto] fizeram qualquer coisa, mas no porto, nada. Não é que me surpreenda. As ilhas 'de baixo', como eles nos chamam, são sempre deixadas para depois. Um depois que nunca mais chega", atira um florentino visilmente revoltado.
"Se mau tempo destrói a ponte-cais isto fica pior do que estava"
Sabe o Notícias ao Minuto que alguns trabalhadores estarão mesmo a sair da ilha porque "a obra se atrasou" e, para já, não conseguem fazer o trabalho para que estavam destinados.
Algo que a Câmara Municipal das Lajes das Flores espera que não esteja realmente a acontecer. Ao Notícias ao Minuto, o presidente da autarquia, Beto Vasconcelos, admite que "nas Flores, atualmente, não se vê mexer na obra do molhe propriamente dita". Porém, quer acreditar no que o Governo Regional lhe diz.
"O que eles nos dizem é que estão a fabricar muito equipamento fora para vir para cá, nomeadamente os caixotões para o molhe principal. Dizem que estão a fabricar isso e os blocos antifer no continente para depois trazer para cá. Se realmente estiverem, estão a adiantar serviço. Além disso, também já me asseguraram que enviaram mais máquinas para cá, mais homens e que na primavera/verão vão adiantar trabalho cá. Vamos esperar para ver", diz, lembrando que "obras de inverno no mar é difícil" e nas Flores "ainda se torna mais complicado".
Para já, o autarca está apreensivo é com a durabilidade da "ponte-cais" já construída. "A nossa maior preocupação é com a ponte-cais porque não foi feita para aguentar vários invernos, nem foi feita para resistir aos mares que apanhamos aqui", explica, garantindo que já falou sobre este problema com o Executivo açoriano.
"O que temos dito sempre ao Governo Regional é que esta é a nossa maior preocupação neste momento. Enquanto não fizerem a proteção do lado de fora da ponte-cais o mar pode levá-la. Então, a nossa preocupação é que façam isso o mais rapidamente possível, o que ainda não aconteceu. Se de um momento para o outro vem mau tempo e destrói a ponte-cais isto fica pior do que estava. E isso não é dito por mim. É dito pelos entendidos", afiança Beto Vasconcelos.
Governo regional nega "atraso efetivo"
Confrontando com as dúvidas da população, o Notícias ao Minuto pediu respostas à responsável pela pasta e, segundo Berta Cabral, secretária regional do Turismo, Mobilidade e Infraestruturas, "atualmente, não se verifica um atraso efetivo na obra".
De acordo com a governante, estão a decorrer "várias operações e tarefas que podem aparentemente dar uma imagem de baixa evolução, mas que são fundamentais para acautelar a boa execução de fases posteriores da obra".
"A obra do porto das Lajes das Flores tem caraterísticas muito especiais, quer pela sua grande dimensão, quer por ser uma obra marítima. Uma obra marítima nos Açores – em pleno Oceano Atlântico e com uma exposição enorme às condições meteorológicas e às evoluções climáticas extremas, como tem sido bem visível este ano – exige um planeamento criterioso e uma execução que desafia o convencional. Na prática, há muito trabalho preparatório que é necessário realizar, dada a envergadura da obra, e há trabalho que é impossível de realizar fora dos meses de verão, quando o mar está em melhores condições", esclarece Berta Cabral.
Por estes motivos, tal como o presidente da Câmara das Lajes já tinha dito, "a natureza técnica das fases iniciais da obra está focada na pré-fabricação de elementos e na articulação logística, o que ocorre, na grande maioria das vezes, fora do local principal da obra ou de forma menos visível para a generalidade das pessoas".
Neste momento, segundo a secretária regional, "estão a decorrer trabalhos de produção externa, em Leixões, de blocos de proteção (antifer), que serão posteriormente transportados para a ilha das Flores".
"Já estão concluídas 1.110 unidades de um total de 8.222. No local, decorrem vários trabalhos de apoio, como a montagem do estaleiro, do dormitório (para trabalhadores deslocados) e a execução de infraestruturas críticas, incluindo o armazém do setor norte e as caleiras de combustível. Este trabalho é crítico para a boa execução de fases posteriores da obra", realça.
"A meta de conclusão em 2030 mantém-se inalterada"
Berta Cabral garante que, por isso, "a meta de conclusão em 2030 [do porto das Lajes] mantém-se inalterada".
"O cronograma atual prevê que no final do primeiro quadrimestre do ano cheguem os equipamentos pesados para a frente marítima e que, com isso, em abril, seja possível iniciar os trabalhos na frente de mar, se as condições de ondulação marítima o permitirem. Não existe, portanto, à data, qualquer desvio que comprometa os prazos contratuais estabelecidos", assevera.
Questionada sobre a saída de trabalhadores da ilha devido a um eventual atraso na obra, Berta Cabral disse que essa informação "não reflete a realidade do planeamento".
"A mobilização de mão de obra neste tipo de obra é faseada, de acordo com as necessidades dos trabalhos. Nesta fase, a necessidade de pessoal foca-se na logística e infraestruturas de apoio, conforme descrito anteriormente. O pico de contratação e a presença de pessoal técnico ocorrerá, como é natural e expectável, com o início dos trabalhos na frente marítima no fim do primeiro quadrimestre deste ano", explica, acrescentando que "qualquer movimentação de pessoal que está a ocorrer neste momento faz parte da gestão normal de recursos de uma empreitada e, neste caso, é uma empreitada grande, que durará vários anos, tem diferentes fases muito bem definidas, com diferentes exigências de pessoal ao longo do tempo e com momentos em que há menos trabalhos na frente de mar".
Apesar da explicação de Berta Cabral, o Notícias ao Minuto sabe que, pelo menos um dos trabalhadores previa estar nas Flores cinco anos mas vai embora no próximo mês de fevereiro, quatro anos antes do previsto.
Questionada sobre isso, a secretária regional reitera que "a situação real da obra é de plena atividade dentro do que foi contratualizado e há, como é obrigatório por lei, fiscalização para avaliar a respetiva evolução".
"Neste momento, existe um cumprimento rigoroso de várias etapas, que, à data, não requerem medidas de contingência. Aliás, numa obra tão complexa, com tantos circunstancialismos e de tão longa duração, é prematuro estar a considerar atrasos estruturais na sua execução. A Portos dos Açores mantém um acompanhamento permanente e vigilante, com comunicação recorrente com o consórcio empreiteiro e com a fiscalização, para garantir a boa execução da obra", conclui Berta Cabral.
Do material que enche 60 campos às 150 viagens de barco
Em junho de 2025, Luíz Gonzaga, diretor geral da Tecnovia Açores, responsável pela construção, revelou, à Antena 1 Açores, "que esta é a obra marítimo-portuária mais complexa feita nos Açores".
O material que é preciso tirar debaixo de água – do anterior porto, arrastado durante a tempestade Lorenzo - pode encher 25 campos de futebol.
Por sua vez, o material necessário para a obra enche, "perto de 60 campos de futebol até um metro de altura". Só em betão, são 23 campos de futebol.
Já o diretor técnico da obra, Carlos Silva, elucidou, na mesma altura, que para a obra ser concluída nos próximos cinco anos vai ser preciso que o estado do tempo e o mar colaborem, assim como a logística. O material para construir a obra vem de outras ilhas, como a Terceira, e até mesmo de Leixões, em Portugal Continental.
Para chegar às Flores serão necessárias, segundo o responsável, "entre 150 e 160 viagens de barco" e "cada navio vai levar, no máximo, entre 40 a 50 peças".
Marcelo prometeu estar na inauguração
Em outubro de 2025, Marcelo Rebelo de Sousa fez a sua última visita oficial como Presidente da República à ilha das Flores. Nessa altura, visitou o porto das Lajes e prometeu que, "se tiver saúde", tenciona ir à inauguração do mesmo, em 2030.
"Os portos são necessários sempre, portanto, eu fico feliz por o meu sucessor cá vir e inaugurar a obra. Espero é ser vivo ainda para ter notícia disso. E, se tiver saúde para me poder deslocar, cá virei", declarou.
Os florentinos esperam, realmente, que isso aconteça. Seria bom sinal.
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