"Portugal debaixo de água não é um acaso. É um sintoma"

  • 13/02/2026

 

 

"Voltamos a acordar com imagens que já conhecemos demasiado bem: ruas transformadas em rios, casas invadidas pela lama, famílias desalojadas, prejuízos avultados, estados de calamidade declarados à pressa. A narrativa repete-se com uma regularidade inquietante. O cenário muda pouco. O discurso oficial também não.

E, no entanto, há uma pergunta que continua a ficar por responder, ou pior a ser evitada: como é possível continuarmos a ser apanhados de surpresa por fenómenos que estavam anunciados?

Não falamos de eventos imprevisíveis. Não falamos de exceções estatísticas. Falamos de tempestades previstas, de padrões climáticos estudados, de alertas reiterados, de dados públicos e acessíveis. O que falhou não foi a previsão. Falhou a antecipação.

O problema não é o clima. É a cultura.

Em Portugal, desenvolvemos uma estranha competência: somos exímios a reagir, fracos a antecipar. Esperamos que a crise aconteça para então mobilizar recursos, comunicar com gravidade e improvisar soluções. Apagamos fogos, literalmente e metaforicamente, mas raramente redesenhamos o sistema para que eles deixem de acontecer com a mesma intensidade.

Criámos uma cultura do “depois logo se vê”. Uma cultura onde a prevenção é vista como custo e não como investimento. Onde antecipar exige coragem política e visão estratégica, duas qualidades que raramente sobrevivem ao curto prazo.

Antecipar implica decidir antes da tragédia, quando ainda não há imagens chocantes nem pressão mediática. E isso obriga a uma coisa que nos custa profundamente: pensar o futuro de forma séria e consequente.

E isto não é um problema de um governo. É um problema do país. Importa dizê-lo com clareza: este não é um falhanço de um governo específico. É um falhanço estrutural, acumulado, transversal a ciclos políticos, cores partidárias e legislaturas sucessivas.

O que verdadeiramente fragiliza o país não é quem governa num determinado momento, mas a incapacidade crónica de construir estratégias de médio e longo prazo que sobrevivam às mudanças de poder. Enquanto os fenómenos extremos aumentam em frequência e impacto, continuamos presos a uma lógica de curto prazo, onde a energia política se esgota em trocas de acusações, responsabilidades empurradas e debates estéreis.

A pergunta que devia ocupar o espaço público não é “quem falhou desta vez?”, mas sim:
 até quando vamos continuar incapazes de nos unir em torno de uma estratégia nacional para riscos que são evidentes, recorrentes e transversais?

Não apenas para o clima. Mas para a saúde, o território, a habitação, a energia, a educação, a demografia. 

Sem essa maturidade coletiva, continuaremos a gerir consequências, nunca causas. Porque antecipar não é adivinhar. É escolher ver. Há uma ideia errada profundamente instalada: a de que antecipar é tentar prever o imprevisível. Não é. Antecipar é trabalhar com probabilidades, dados, cenários e histórico. É aceitar que o risco deixou de ser exceção e passou a ser estrutural.

Quando sabemos que determinadas zonas são cronicamente vulneráveis a cheias, continuar a tratá-las como casos pontuais é irresponsabilidade estratégica. Quando os modelos climáticos apontam para fenómenos extremos mais frequentes e intensos, continuar a planear cidades como se estivéssemos nos anos 80 é negação.

Antecipar é aceitar uma verdade incómoda: o futuro já não pode ser pensado com as lógicas do passado. Não há antecipação sem inovação e vice-versa. 

Aqui chegamos ao ponto central que insistimos em ignorar: não existe cultura de antecipação sem cultura de inovação.

Inovação não é apenas tecnologia, sensores, plataformas ou inteligência artificial. Tudo isso é importante, mas secundário. A inovação verdadeiramente transformadora começa na mentalidade.

Inovar é saber redesenhar sistemas de drenagem pensando em cenários futuros, não em mínimos aceitáveis, saber usar dados climáticos para decisões urbanísticas reais, e não como nota de rodapé em relatórios, saber testar planos de emergência através de simulações sérias, e não deixá-los esquecidos em gavetas e criar ecossistemas de resposta que liguem municípios, proteção civil e comunidades, em vez de estruturas fragmentadas e burocráticas.

A inovação relevante faz uma pergunta diferente: “o que temos de mudar agora porque sabemos que isto vai acontecer?”

Sem essa pergunta, toda a inovação é cosmética. E toda a resposta será tardia.

Porque há um obviamente um custo invisível da não antecipação.

Cada euro não investido em prevenção transforma-se em múltiplos euros de prejuízo. Cada decisão adiada transforma-se em sofrimento humano. Cada plano não executado transforma-se em discursos solenes depois do desastre.

Mas há um custo ainda mais perigoso: a normalização do colapso. Quando aceitamos cheias, evacuações e perdas como parte inevitável do inverno, estamos a abdicar da nossa capacidade coletiva de fazer melhor.

Estamos a ensinar-nos, e às próximas gerações, que o desastre é destino. Não é.

E este não é apenas um problema meteorológico. É um problema cultural, político e estratégico. A falta de antecipação que vemos nas tempestades é a mesma que vemos na saúde, na educação, no território, na economia e na preparação para crises energéticas, tecnológicas ou sociais.

É um alerta que vai muito além do clima. Sabemos. Temos dados. Temos alertas. Mas não agimos.

E depois chamamos “fatalidade” àquilo que foi negligência estratégica.

Bem sabemos que antecipar não dá manchetes fáceis. Não, corta fitas. Não rende aplausos imediatos. Mas salva-vidas, património e futuro.

Talvez esteja na altura de percebermos que o verdadeiro estado de calamidade não é o que se decreta depois da tempestade. É o que se mantém quando, sabendo que ela vinha, escolhemos não inovar, não cooperar e, por isso, não antecipar."

FONTE: https://www.noticiasaominuto.com/pais/2939141/portugal-debaixo-de-agua-nao-e-um-acaso-e-um-sintoma#utm_source=rss-ultima-hora&utm_medium=rss&utm_campaign=rssfeed


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