"Pensei que ia morrer": Li esteve 2h preso no prédio a arder em Hong Kong
- 29/11/2025
William Li estava de folga e, por isso, em casa quando recebeu uma chamada da sua esposa: "Há um incêndio. Precisas de sair daí", disse a mulher. Ela não parecia nervosa nem preocupada e não havia nada a indicar que a situação fosse séria: Li não sentia o cheiro de fumo e os alarmes não tinham soado.
O homem estava num dos edifícios do bairro de Hong Kong que arderam durante dois dias, num incêndio que se tornou o mais mortífero na história da região nos últimos 100 anos. Até ao momento, há 128 mortos confirmados.
"Eu ainda demorei alguns minutos a vestir-me e a preparar-me para sair do apartamento", contou Li ao New York Times. "Quando abri a porta, o fumo entrou de repente. A minha primeira reação foi fechar logo a porta."
Foi aí que retribuiu a chamada à mulher, dizendo-lhe que não conseguia sair da casa que ambos partilhavam. "Ela começou a chorar convulsivamente. Estava a pensar no pior cenário possível: eu ia morrer."
Li não entrou em desespero - em vez disso, pôs mãos à obra. Agarrou nas toalhas que tinha no apartamento e usou-as para tapar as brechas por baixo das portas para tentar impedir o fumo de entrar. Pouco depois, começou a ouvir vozes no corredor.
O homem de 40 anos colocou um pedaço de tecido molhado a tapar a boca e saiu do apartamento. O corredor estava escuro como o breu. Li ainda tentou ligar a lanterna do seu telemóvel, mas nem isso ajudou. Nem um minuto depois de ter saído do apartamento, a sua garganta começou a arder e os olhos a lacrimejar - o fumo não perdoava.
Li continuou em frente, mesmo assim, seguindo o som das vozes até encontrar um casal na casa dos 60.
"Eu conduzi-os através do fumo de volta ao meu apartamento, usando a parede para me guiar até lá", recordou. "Porque é que estavam lá fora? Estava lá mais alguém?", perguntou Li ao casal.
A janela do apartamento dos seus vizinhos tinha-se incendiado e o casal, com receio, fugiu para o corredor, pensando que essa era a sua melhor opção. Lá, ouviram uma cuidadora profissional a chamar pela idosa de quem tomava conta e tentaram seguir a voz, mas, de repente, o som cessou e o casal viu-se perdido sem saber o que fazer.
"Após viver aqui durante 40 anos, eu conheço o edifício bastante bem", continuou Li ao mesmo jornal norte-americano, detalhando todas as saídas do prédio. "Há dois lances de escadas em todos os pisos. Um vai dar à entrada e outro às traseiras. Os meus vizinhos disseram-me que a porta de trás costuma estar trancada, e a minha mulher, que agora estava à frente do prédio, disse-me que a entrada já estava em chamas", recordou.
Na prática, não havia forma de saírem do edifício - não sem ajuda.
Li ligou então para as autoridades, informando-os de onde estava e o que se passava. "Nós vamos enviar alguém para vos ir resgatar", terão dito do outro lado da linha. Enquanto isso, os três deveriam ficar perto do chão e preservar a sua energia.
"Da nossa janela conseguíamos ver as mangueiras de incêndio apontadas para os pisos acima de nós. Nós fizemos sinal aos bombeiros, mas eles não nos conseguiam ver", contou Li.
"Pensei mesmo que ia morrer"
Numa fase inicial, o grupo ficou calmo. Mas, pouco a pouco, o incêndio começou a alastrar e o apartamento, até então, o local mais seguro, começou a apresentar sinais de desgaste.
O cheiro a fumo e a algo queimado começou a impregnar-se na casa. Pouco depois, o casal, que estava a descansar no quarto, saiu alertando que a espuma de espuma de poliestireno à volta da janela tinha-se incendiado - o mesmo que lhes tinha acontecido no seu próprio apartamento.
"Naquele momento, eu pensei mesmo que ia morrer. Eu partilho o quarto com a minha mulher e com os meus dois filhos. Há três colchões lá e montes de cobertores. Eu sabia que se a janela explodisse, o fogo ia alastrar-se rapidamente."
Li começou a preparar-se para o pior. No WhatsApp, família e amigos do homem iam recebendo mensagens de adeus, onde lhes pedia para ajudar a sua mulher e filhos depois de ele partir.
Terminadas as despedidas, os três decidiram tentar, uma última vez, chamar a atenção dos bombeiros usando as lanternas dos telemóveis para sinalizar onde estavam. Desta vez, o esforço não foi em vão.
Os operacionais viram o grupo e Li apressou-se a apontar para a janela em chamas. Os bombeiros apontaram, de imediato, as mangueiras ao foco de incêndio, apagando o fogo e ganhando tempo ao grupo.
"No início, eles tiveram dificuldade para colocar a escada de incêndio na nossa unidade - o andaime estava no caminho e havia detritos a cair dos andares superiores. Pouco depois das 17h, eles finalmente chegaram à nossa janela", recordou Li.
A mulher do casal insistiu para que ele fosse primeiro, mas Li respondeu: "Não, vá você primeiro. Eu sou mais jovem".
Primeiro foi ela, depois o marido e Li ficou para último.
"Tudo o que eu tinha estava a virar pó"
"Durante uns minutos, Li ficou sozinho no apartamento. O ambiente era muito sombrio", recordou. "Olhei à minha volta para ver o que podia levar comigo. Queria levar tudo, mas não podia levar nada: a janela era muito estreita, com espaço suficiente apenas para uma pessoa sair na diagonal".
Li conseguiu sair do edifício em chamas com o relógio da mulher e algum dinheiro que tinha em casa.
"Quando subi a escada, senti como se o tempo tivesse desacelerado. Fiquei triste por deixar a minha casa para trás. Estava encharcado pelas mangueiras dos bombeiros e sentia muito frio", contou Li. "Parecia que o céu estava a cair. Tudo o que eu tinha estava a virar pó."
No chão, e de volta à segurança, os bombeiros levaram-nos para um local mais calmo e deram-lhes uma bebida desportiva para se hidratarem e recuperarem as forças. As estradas estavam bloqueadas devido ao incêndio e as ambulâncias não conseguiam chegar ao local.
"Os bombeiros disseram que podíamos sair por conta própria. O casal e eu trocámos números [de telemóvel] e seguimos caminhos diferentes." Li foi ter diretamente com a sua família.
Os filhos choravam desalmadamente: "tinham perdido os brinquedos todos".
Ao todo, William Li esteve duas horas no prédio a arder.
Autoridades detiveram 10 pessoas por negligência
O incêndio em Hong Kong deflagrou pelas 14h51 locais (6h51 em Lisboa) de quarta-feira, no distrito de Tai Po, no Wang Fuk Court, um bairro social construído nos anos 80, composto por oito torres com cerca de 30 andares e um total de 1.984 apartamentos. O fim das operações no terreno só foi declarada na manhã de sexta-feira.
Trata-se do fogo em edifícios mais mortífero a nível mundial desde 1980, excluindo incêndios ocorridos em discotecas, prisões ou centros comerciais, de acordo com pesquisas na base de dados de catástrofes da Universidade de Lovaina (Bélgica).
A causa do incêndio ainda não é conhecida, mas já há dez pessoas detidas por suspeitas de negligência nas obras de renovação, que estavam a ser levadas a cabo. Hong Kong começou este sábado o luto, que vai durar três dias.
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