Pelo menos seis mortos em quinto dia de protestos no Irão
- 01/01/2026
Entre as vítimas estava um membro de uma milícia afiliada à Guarda Revolucionária Islâmica, o exército ideológico do Irão.
As manifestações começaram no domingo em Teerão, onde os comerciantes fecharam os seus negócios em protesto contra a hiperinflação, a desvalorização da moeda e a estagnação económica e, de seguida, espalhou-se para as universidades e para o resto do país.
Hoje foram registados vários confrontos em cidades de média dimensão com dezenas de milhares de habitantes.
Em Lordegan, no sudoeste do Irão, foram mortas duas pessoas, presumivelmente civis, informou a agência de notícias Fars.
Segundo a Fars, "os manifestantes começaram a atirar pedras contra edifícios administrativos, incluindo o do governo estadual, a mesquita, a câmara municipal e bancos", e a polícia usou gás lacrimogéneo.
A agência noticiosa relatou "danos significativos" e a detenção de várias pessoas descritas como "líderes".
Mais tarde, foi anunciado que em Azna, no oeste do país, três pessoas foram mortas e outras 17 ficaram feridas durante outro episódio de confrontos.
Segundo a agência Fars, "um grupo de manifestantes aproveitou-se de uma manifestação (...) para atacar uma esquadra de polícia".
Estes protestos, contudo, não são ainda comparáveis ao movimento que abalou o Irão no final de 2022, após a morte de Mahsa Amini, uma jovem iraniana presa por alegadamente usar um véu islâmico de forma incorreta.
Hoje de manhã, um membro das forças de segurança foi morto durante confrontos em Kuhdasht, também no oeste do Irão, informou a televisão estatal, citando o governador local.
O jovem de 21 anos, membro da milícia Basij, "estava a defender a ordem pública", segundo o governador, que relatou ainda lançamentos de pedras que deixaram 13 polícias feridos.
As forças Basij são milícias voluntárias islâmicas afiliadas na Guarda Revolucionária.
O Presidente iraniano, Massoud Pezeshkian, que convocou o Governo, defendeu que, "numa perspetiva islâmica, se não resolvermos o problema do sustento das pessoas, acabaremos no inferno".
Na quarta-feira, um edifício governamental foi atacado em Fassa, no sul do Irão, enquanto quase todo o país entrou em feriado decretado pelas autoridades, que justificaram a medida com o frio e poupança de energia.
Oficialmente, não houve qualquer ligação com os protestos e esta pausa prolongada de atividades, que apenas terminará no domingo.
Desde o início dos protestos, o Governo tem tentado apaziguar a situação, reconhecendo "exigências legítimas" relacionadas com dificuldades económicas.
O poder judicial advertiu, no entanto, que irá agir contra ações que desestabilizem o país.
"Qualquer tentativa" de transformar este movimento "numa ferramenta de insegurança, destruição de propriedade pública ou implementação de cenários concebidos no estrangeiro será inevitavelmente recebida com uma resposta firme", avisou o procurador-geral, Mohammad Movahedi-Azad.
Entretanto, a agência de notícias Tasnim, próxima da Guarda Revolucionária, informou hoje que 30 pessoas suspeitas de "perturbar a ordem pública" foram detidas em Teerão.
"Após uma operação coordenada pelos serviços de segurança e de informações, 30 pessoas que perturbavam a ordem pública no distrito de Malard, a oeste de Teerão, foram identificadas e detidas na noite passada", referiu a agência noticiosa, acrescentando que os suspeitos "tentaram incitar a insegurança".
Durante os protestos, sete outras pessoas foram hoje detidas na cidade de Kermanshah, no oeste do país, por supostas ligações com "grupos hostis e membros da oposição exilados".
A Tasnim relatou que os sete detidos estavam a tentar incitar tumultos durante as manifestações e que um deles estava armado.
A agência pediu à população que permanecesse vigilante para possíveis manipulações de elementos hostis que poderiam colocar em risco a segurança pública.
De acordo com imagens publicadas por ativistas nas redes sociais, 'slogans' a favor do retorno da monarquia, como "Esta é a batalha final, Pahlavi regressará", foram ouvidos em vários protestos, em referência à dinastia Pahlavi, derrubada pela Revolução Islâmica em 1979.
Como pano de fundo desta crise, a moeda nacional, o rial, perdeu mais de um terço do seu valor face ao dólar no último ano, enquanto a hiperinflação de dois dígitos tem vindo a corroer o poder de compra dos iranianos há anos, num país sufocado pelas sanções internacionais relacionadas com o programa nuclear de Teerão.
A taxa de inflação em dezembro foi de 52% em comparação como ano anterior, segundo o Centro Estatístico Iraniano, um organismo oficial.
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