"O medo do cancro e a associação à morte afastam pessoas dos rastreios"
- 04/02/2026
A cada dia são diagnosticadas 191 pessoas com cancro em Portugal e 92 perdem a vida devido à doença. Apesar dos avanços na saúde, muitas vezes o diagnóstico tardio acaba por atrasar os tratamentos e levar à progressão do cancro. Mas há muita coisa que ainda pode ser feita no país o que levou oito organizações da sociedade civil a juntarem-se para enviar uma carta conjunta ao Governo e a figuras do Estado no passado mês de dezembro.
Com o título "Compromisso Público com a Oncologia: é tempo de tratar o cancro a sério", esta carta teve o objetivo de alertar para a situação que se vive em Portugal e delinear um plano de ação. Foi escrita em conjunto pelas associações AC RIM, Careca Power, Europacolon Portugal, EVITA Cancro, Liga Portuguesa Contra o Cancro, Plataforma Saúde em Diálogo, Pulmonale e Sociedade Portuguesa de Literacia em Saúde.
Neste Dia Mundial do Cancro, que se assinala esta quarta-feira, 4 de fevereiro, o Lifestyle ao Minuto falou com Cristina Vaz de Almeida, presidente da Sociedade Portuguesa de Literacia em Saúde, para perceber mais sobre esta iniciativa e o que pode ser feito para mudar a situação atual no país.
“Quando persistem listas de espera acima dos prazos legais, desigualdades regionais e subutilização da prevenção, é legítimo questionar se o cancro está a ser tratado como verdadeira prioridade nacional”, sublinhou na entrevista Cristina Vaz de Almeida.
A presidente da Sociedade Portuguesa de Literacia em Saúde falou ainda sobre alguns dos mitos que levam muitas pessoas a não procurar a ajuda necessária.
“O medo, o estigma e a associação automática à morte ainda afastam muitas pessoas dos rastreios e da procura precoce por cuidados. Este tabu contribui para diagnósticos tardios e maior sofrimento psicológico.”
Que importância tem uma ação como esta carta "Compromisso Público com a Oncologia: é tempo de tratar o cancro a sério"?
Esta carta é fundamental, porque transforma preocupações dispersas em prioridades políticas estruturadas e sustentadas por evidência científica. Portugal dispõe de uma Estratégia Nacional de Luta contra o Cancro alinhada com o Plano Europeu, mas a sua eficácia depende de implementação concreta, monitorização e responsabilização pública. A ação conjunta das associações reforça a urgência de reduzir atrasos, ampliar rastreios, atualizar o Registo Oncológico Nacional (RON) e integrar a perspetiva dos doentes nas decisões. A nível europeu, está demonstrado que sistemas que investem fortemente em prevenção e deteção precoce reduzem mortalidade e custos futuros, aumentando sustentabilidade do sistema de saúde.
A força desta iniciativa reside, desde logo, na união inédita de oito organizações da sociedade civil com elevada representatividade, experiência no terreno, conhecimento técnico e legitimidade social: AC RIM, Careca Power, Europacolon Portugal, EVITA Cancro, Liga Portuguesa Contra o Cancro, Plataforma Saúde em Diálogo, Pulmonale e Sociedade Portuguesa de Literacia em Saúde. Trata-se de um grupo coeso, complementar nas suas competências clínicas, sociais, educativas e de advocacy, que passa a falar a uma só voz, aumentando o peso político das suas propostas e alinhando-se com as melhores práticas europeias de governação colaborativa em oncologia. A Sociedade Portuguesa de Literacia em Saúde assume um papel central neste ecossistema ao liderar a capacitação da população, promover comunicação clara em saúde, apoiar a adesão à prevenção e aos rastreios e contribuir para a humanização dos cuidados, sendo reconhecida como parceira estratégica na Estratégia Nacional de Luta contra o Cancro.Assim, esta carta não é apenas simbólica: é um mecanismo de pressão legítima para acelerar reformas estruturais.
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Como surgiu a ideia de criar esta ação?
A iniciativa emerge da experiência acumulada das associações no acompanhamento de milhares de doentes e da força de intervenção da Sociedade Portuguesa de Literacia em Saúde neste domínio das competências do cidadão, que continua a enfrentar listas de espera prolongadas, desigualdades regionais e percursos pouco coordenados, para uma melhor saúde. Apesar da existência de planos estratégicos, persistem falhas na articulação entre prevenção, diagnóstico, tratamento e seguimento.
A Estratégia Nacional reconhece explicitamente que a participação das associações de doentes é essencial na governação do cancro em Portugal, o que estimulou estas entidades a assumirem um papel mais ativo e concertado. A inspiração vem também de modelos europeus, onde a colaboração estruturada entre governo, sociedades científicas e doentes é um pilar da política oncológica, como em França e no Reino Unido.
Que impacto esperam vir a conseguir?
Espera-se um impacto mensurável na redução dos tempos de espera, aumento da cobertura dos rastreios, melhoria da qualidade dos dados oncológicos e maior equidade no acesso aos cuidados. A médio e longo prazo, estas mudanças traduzem-se em mais diagnósticos em estadios iniciais, maior sobrevivência e menos custos associados a doença avançada. A OCDE demonstra que investir em prevenção e deteção precoce é uma das estratégias mais custo-efetivas no controlo do cancro, reduzindo internamentos, tratamentos complexos e perda de produtividade.
O impacto social inclui também maior confiança dos cidadãos no SNS e melhor experiência do doente, com redução do sofrimento psicológico associado à incerteza e às esperas prolongadas.
Atrasos [no diagnóstico] estão associados à progressão da doença, tratamentos mais agressivos e piores prognósticos
Quais são os principais problemas que se verificam no tratamento e diagnóstico do cancro e que poderiam ser essenciais para salvar vidas?
Os principais problemas são os atrasos no acesso a exames, consultas especializadas e cirurgias, bem como a fragmentação dos percursos clínicos. Em março de 2025, mais de 1.400 doentes oncológicos ultrapassavam o tempo máximo legal de espera para cirurgia no SNS, havendo ainda doentes sem qualquer data agendada. Estes atrasos estão associados a progressão da doença, tratamentos mais agressivos e piores prognósticos. Acresce a necessidade de ampliar e modernizar rastreios organizados segundo as recomendações europeias, uma vez que muitos cancros são curáveis quando detetados precocemente. Finalmente, a falta de dados atualizados no Registo Oncológico Nacional limita a capacidade de planeamento e avaliação de políticas públicas.
O que pode ser feito, que medidas concretas poderiam avançar para conseguir corrigir algumas lacunas no tratamento do cancro?
É essencial reforçar a capacidade de diagnóstico e cirúrgica nas áreas com maiores estrangulamentos, implementar vias clínicas padronizadas com monitorização pública dos tempos de resposta e expandir rastreios baseados em evidência científica e garantia de qualidade, conforme as orientações europeias.
Deve ainda ser priorizada a atualização contínua do Registo Oncológico Nacional, criado por lei para monitorizar a efetividade de rastreios e tratamentos. Paralelamente, o investimento em literacia em saúde, vacinação, cessação tabágica e estilos de vida saudáveis reduz a incidência futura e representa uma poupança estrutural para o SNS. A colaboração formal entre associações e sociedades científicas numa plataforma permanente permitiria co-produzir guidelines, materiais educativos e indicadores de qualidade.
Acreditam que o cancro não é visto por parte das entidades competentes da forma séria que deveria?
Quando persistem listas de espera acima dos prazos legais, desigualdades regionais e subutilização da prevenção, é legítimo questionar se o cancro está a ser tratado como verdadeira prioridade nacional. A avaliação europeia continua a identificar desafios nos tempos de espera e na eficiência dos cuidados oncológicos em Portugal. Levar o cancro a sério implica financiamento adequado, planeamento de longo prazo, dados transparentes e envolvimento efetivo dos doentes e especialistas na decisão.
Como estas mudanças podem alterar a situação do país e melhorar os procedimentos nas gerações futuras?
Estas mudanças criam um sistema mais preventivo, eficiente e equitativo. Ao reduzir a incidência evitável e diagnosticar mais cedo, diminuem-se custos elevados associados a doença avançada, aumentando a sustentabilidade do SNS. As gerações futuras beneficiam de estruturas organizadas, dados robustos e políticas baseadas em resultados reais. A aposta europeia em rastreios de qualidade e prevenção estruturada visa precisamente reduzir desigualdades e maximizar o impacto populacional.
Que medidas aprovadas recentemente trouxeram melhorias?
Programas focados na redução de atrasos cirúrgicos permitiram alguma diminuição do número de doentes fora do tempo máximo de resposta garantido, embora ainda persistam situações críticas. A nível europeu, a nova recomendação sobre rastreios impulsionou a modernização e expansão de programas nacionais, reforçando a deteção precoce como pilar central de poupança de custos e ganhos em saúde.
Como tem evoluído o estudo sobre o cancro em Portugal? Acreditam que é algo que pode ainda avançar mais e ajudar a encontrar novas formas de tratamento?
O conhecimento científico tem crescido, mas continua limitado por atrasos na consolidação e divulgação dos dados nacionais. O Registo Oncológico Nacional foi criado precisamente para centralizar informação e apoiar a vigilância epidemiológica, investigação e decisão política. Iniciativas como o National Cancer Hub Portugal propõem modelos colaborativos entre o Estado, academia, associações e clínicos para acelerar a investigação e implementação de inovação, aproximando Portugal dos modelos mais avançados da Europa.
O cancro ainda é visto por muitas pessoas como um tema tabu?
Sim, o medo, o estigma e a associação automática à morte ainda afastam muitas pessoas dos rastreios e da procura precoce por cuidados. Este tabu contribui para diagnósticos tardios e maior sofrimento psicológico. Estratégias contínuas de literacia em saúde, como as promovidas pela Sociedade Portuguesa de Literacia em Saúde, são essenciais para normalizar a conversa sobre prevenção, sintomas e apoio, aumentando a adesão a comportamentos protetores e reduzindo custos futuros.
O diagnóstico de cancro é visto muitas vezes como algo fatal. É sempre assim? Pode e deve haver esperança?
Não é sempre fatal. Muitos cancros são curáveis ou controláveis quando diagnosticados precocemente, e mesmo em fases avançadas existem ganhos significativos em sobrevivência e qualidade de vida. A esperança deve ser sustentada por acesso rápido, tratamentos baseados em guidelines e apoio psicossocial. A deteção precoce é uma das intervenções com maior impacto clínico e económico.
Quais são os principais mitos sobre cancro em que muitas pessoas ainda acreditam e que não fazem qualquer sentido?
Um mito frequente é que nada pode ser feito para prevenir, quando, na realidade, uma parte significativa dos cancros está associada a fatores modificáveis e preveníveis, como tabaco, infeções e estilos de vida. Outro mito é o de que esperar não faz diferença, quando os dados mostram que atrasos aumentam a mortalidade e complexidade terapêutica, como ilustrado pelas listas de espera cirúrgicas em Portugal. Há ainda a ideia de que dados não são essenciais, quando o próprio RON foi concebido para orientar políticas eficazes e sustentáveis.














