Não há memória do "desastre e destruição" que atingiu a freguesia de Meirinhas
- 31/01/2026
As estradas da freguesia estão ainda coberta com restos de vegetação, barro das telhas e pequenos ramos: "Não é nada comparado com o que estava. Às três da manhã [de quarta-feira] não havia uma estrada transitável. Já estávamos destruídos, sozinhos e sem telhados", disse à Lusa o responsável pela Unidade de Proteção Civil Local daquela freguesia no distrito de Leiria, Rui Portela.
Hoje, sábado, três dias depois da depressão Kristin ter "varrido" a freguesia, a noite confunde-se com o dia e os trabalhos noturnos acabam com o início dos diurnos. Num salão da freguesia funciona o "posto de comando" das operações de limpeza, higiene, alimentação, conversas e de abraços. Respira-se comunidade e solidariedade.
"Temos tudo concentrado aqui. Organizámo-nos sozinhos porque durante mais de 36 horas era assim que estávamos: sozinhos. Não temos luz, nem água, nem comunicações. Mas temos juventude, força de trabalho e resiliência", explicou Rui Portela.
No salão, a mesa para aquele que será o almoço está posta. Comprida, mais de 15 pratos, talhares, copos e guardanapos. Ao fundo, o barulho da máquina de café é abafado pelo barulho do gerador. À porta, uma banca de frutas e legumes é um ponto de normalidade em dias nada normais.
"Temos aqui geradores com arcas ligadas a ver se salvamos o que for possível. A população consegue vir aqui carregar os telemóveis para quando a rede estiver restabelecida e agora a nossa preocupação é conseguir criar um ponto de banhos. Desde quarta-feira que não há água e a higiene começa a ser uma preocupação", disse à Lusa a tesoureira da Junta de Freguesia, Judite Silva.
Pela estrada nacional, constatou a Lusa, poucos são os sinais de trânsito em pé. Os postes de eletricidade perderam a impunidade e estão inclinados com os fios soltos, as árvores tombaram, às dezenas, e invadiram a estrada: "Coma chuva dos próximos dias, isto pode ser uma desgraça", agoira-se.
"Com a chuva e vento os troncos vão mexer-se e ainda matam mais gente", receia António Cruz, sentado numa cadeira de plástico, à porta de casa.
A casa de António ficou sem grande parte das telhas: "Não foi só a minha. Não deve haver aqui casa que tenha as telhas todas. Não há memória disto, nem os mais antigos viram uma coisa assim", explicou.
Meirinhas, "terra de boa gente, boa comida e muitas empresas", está a cuidar das feridas: "Estamos preocupados. Temos um tecido empresarial forte, mas há muitas empresas destruídas. Preocupam-nos os postos de trabalho. Muitas sem ajuda não vão conseguir recuperar e isso pode ser outra tragédia", alertou a secretária do executivo da Junta, Tânia Mota.
Aliás, salientaram as duas responsáveis, as empresas instaladas na terra "estão a ser fora de série".
"Disponibilizaram maquinaria, operadores, serviços. Toda a gente ajuda. Aqui a solidariedade é quem está a comandar. Quem pode ajuda quem não pode, mas todos podem alguma coisa e fazem", apontou Rui Portela.
Os dias têm sido "difíceis, longos e solitários" na freguesia. À porta da igreja um pequeno grupo, com idades de memória longa, vai contando como têm sido os dias: "Não há memoria disto. Nem nós que já vivemos muitos nos lembramos de algo assim", confessou Mário, que não quis dizer a idade, apenas disse que os netos já são "crescidos e lançados à vida".
Na quarta-feira, em declarações à Lusa, o presidente da Junta de Freguesia das Meirinhas, antecipou prejuízos na ordem dos 500 milhões de euros.
A passagem da depressão Kristin pelo território português deixou um rasto de destruição, causando pelo menos seis mortos, vários feridos e desalojados.
Os distritos mais afetados foram Leiria (por onde a depressão entrou no território continental), Coimbra, Santarém e Lisboa.
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