Museu do Neo-Realismo traça percurso por décadas do teatro português
- 29/11/2025
A partir de material do acervo do museu, a mostra - patente até abril - tem curadoria de Miguel Falcão, apresenta textos conhecidos e alguns inéditos de dramaturgos neorrealistas e divide-se em seis núcleos, disse o curador à Lusa.
Com um título que põe no plural a definição de teatro defendida por Alves Redol - "Um espelho de ver por dentro", no sentido em que o teatro, além de divertir e entreter, também serve para o espectador se "rever, a si e à sociedade" -, a exposição pretende mostrar que cada autor representado, e são algumas dezenas tal como cada obra, funciona como "espelhos".
"Espelhos muito diversificados, quer tematicamente quer formalmente", que vão proporcionar aos visitantes a possibilidade de "refletirem sobre os tempos", enfatizou.
Não só das décadas de 1940 à de 1970, durante a ditadura salazarista e o período antes do 25 de Abril, mas também sobre a atualidade.
Por serem textos que "têm muitos pontos de contacto com os tempos conturbados que vamos vivendo", frisou o catedrático e curador da exposição, que leciona na Escola Superior de Educação de Lisboa.
O primeiro núcleo expositivo "mostra que o neorrealismo teve mais teatro do que aquilo que durante alguns anos foi dito", pois só eram mencionados autores como Alves Redol, Romeu Correia e Avelino Cunhal, que também assinava com o pseudónimo de Pedro Serôdio", disse.
Romancistas, contistas e poetas, que também escreveram peças de teatro e dramaturgos que estiveram muito próximo do movimento, como o caso de "Vergílio Ferreira, que no final dos anos 1940 ainda passou pelo neorrealismo, mas cedo se distanciou", são também mostrados naquele núcleo.
Uma secção dedicada às peças publicadas em livro, com "largas dezenas desses dramaturgos", com a respetiva biografia, e um conjunto de obras, quer ideológicas quer teatrais consideradas "de referência para os escritores neorrealistas, tanto de autores portugueses como, sobretudo, de autores estrangeiros" constam também desse núcleo.
Com um design gráfico "muito contemporâneo", a mostra "encastra" também algumas zonas "cenografadas" concebidas pelo diretor de arte Artur Pinheiro, com trabalho em teatro, televisão e cinema, referiu Miguel Falcão.
Entre as áreas cenografadas conta-se um "pequeno escritório de um escritor neorrealista onde podem ser vistas lombadas cenografadas de dezenas dessas obras de referência para os autores", observou.
"A censura no teatro" é o tema do segundo núcleo, onde existe "uma pequena secção para lembrar que, embora o teatro, "tanto na vertente textual quanto na performativa tenha sido muito perseguido, muito vigiado pelo regime, o certo é que este também o utilizou bastante para divulgar a sua ideologia e os seus valores".
A vertente da "autocensura, que teve uma dimensão importante para o neorrealismo" está também patente na mostra, já que, em Portugal, muitas companhias se "coibiram" de pôr espetáculos em cena, depois de sucessivos pedidos de autorização recusados pela censura.
A ilustrar estes casos, a exposição contém uma zona com gavetas, com textos completos, incompletos ou até esquissos cenográficos sobre peças que acabaram por não ser postas em cena de escritores como Joaquim Namorado ou Sidónio Muralha.
A renovação teatral ocupa o terceiro núcleo da mostra, com um período temporal depois dos anos 1940 e no pós-guerra, quando se "pensou que novos ventos pudessem surgir", quando "a censura abrandou" e "surgiram novos grupos "amadores ou mistos", explicou o curador.
Entre estes grupos constam o Teatro Estúdio do Salitre, dinamizado por um grupo em torno de Gino Saviotti, então adido cultural da embaixada de Itália em Portugal, homem de teatro e tradutor de Pirandello, de que faziam parte alguns escritores ligados ao neorrealismo, como Alves Redol, Arquimedes de Silva Santos, e Luiz Francisco Rebello. Ou o Círculo de Cultura Teatral - Teatro Experimental do Porto, no final dos anos 1940.
"Palcos autorizados" é o nome do quarto núcleo, que mostra que, "apesar de muito vigiada e censurada", a dramaturgia neorrealista foi representada por "algumas das mais relevantes companhias dos anos 1950, 60 e inícios dos 70", como a companhia Amélia Rey-Colaço/Robles Monteiro, concessionária do Teatro Nacional D. Maria II ou o Teatro Moderno de Lisboa, considerada "uma das primeiras companhias independentes" com atores societários da companhia como Cármen Dolores, Ruy de Carvalho e Rogério Paulo.
A exposição inclui ainda peças adaptadas para teatro radiofónico e televisivo, com destaque para a que é considerada "a peça neorrealista ou a pedra de toque do neorrealismo": "Forja", de Alves Redol, com duas atrizes amadoras a interpretarem a primeira cena da peça, escrita em 1949 e posta em palco, pela primeira vez, em 1969, no Teatro Laura Alves. Anos antes fora representada em Moçambique, já que "nas então chamadas ex-colónias a censura era menos rígida".
"A Traição do Padre Martinho", de Bernardo Santareno, estreada em Portugal no verão de 1974, quatro anos depois de encenada em Cuba, e "O dia seguinte", escrita em 1948/49 por Luiz Francisco Rebello e representada em Portugal apenas em 1963, depois de já ter sido encenada em França, no Brasil e em Itália", são também mostradas.
Depois segue-se o núcleo "mais esplendoroso", os "Palcos clandestinos", onde os visitantes mergulham num ambiente "mais escuro, mais calmo, mais reflexivo", onde são evocadas as sessões de leituras em voz alta para operários, camponeses e analfabetos ou teatro de marionetas, que "tinham uma dimensão muito forte de crítica social e política".
"Depois do Neorrealismo" é o sexto e último núcleo da mostra, onde constarão "algumas dezenas de espetáculos" postos em palco após o 25 de Abril, contrariando "o que dizem alguns críticos que consideram a dramaturgia neorrealista muito datada e sem suscitar interesse dos criadores teatrais, o que não é verdade", sublinhou Miguel Falcão, exemplificando com as peças "Português, escritor, 45 anos de idade" e "A Traição do Padre Martinho", ambas de Bernardo Santareno, encenadas logo no verão de 1974.
Visitas guiadas por Miguel Falcão e pequenas peças levadas à cena pelo Cegada, um dos grupos de teatro do concelho, constam das atividades paralelas da mostra, que, após a inauguração hoje, contará com recital de poesia pelas atrizes Maria João Luís e Natália Luiza.
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