Morre um panda de cada vez que Roberto Martínez fala de talento nacional
- 02/02/2026
Roberto Martínez aproveitou a presença no 1.º Congresso do Futebol Português para dar voz à preocupação pela falta de espaço que há na I Liga para os jovens talentos nacionais, avisando que "temos uma das percentagens mais baixas das maiores 50 Ligas", o que poderá representar um risco a médio e longo prazo.
É, sem dúvida, um problema a ter em conta, particularmente, quando, de alto a baixo, não faltam exemplos do recrutamento desnecessário no estrangeiro, o que resulta num total desaproveito da prata da casa. No entanto, acaba por perder toda a qualquer credibilidade vindo de quem vem, de um selecionador que tem feito troça, quer de quem projeta estas promessas, quer das próprias, que acabam, invariavelmente, esquecidas.
Vamos a factos. Desde que foi apresentado como selecionador nacional, a 9 de janeiro de 2021, Roberto Martínez promoveu 14 estreias na equipa das quinas. Foram elas Carlos Forbs, Tomás Araújo, Tiago Djaló, Fábio Silva, Nuno Tavares, Samuel Costa, Renato Veiga, Francisco Conceição, Jota Silva, José Sá, Toti Gomes, João Mário, João Neves e Gonçalo Inácio.
Não entremos em mesquinhices de questionar a qualidade de um ou outro elemento, até porque não é para isso que aqui estamos. Debrucemo-nos, sim, sobre o critério (ou falta dele) que Roberto Martínez tem vindo a aplicar na hora de escolher que jogadores merecem representar Portugal ao mais alto nível.
Aos 18 anos de idade, Geovany Quenda (já vendido pelo Sporting ao Chelsea) leva 47 jogos na I Liga e 0 internacionalizações. Aos 18 anos de idade, Rodrigo Mora (do FC Porto) leva 39 jogos na I Liga e 0 internacionalizações. Aos 23 anos de idade, Miguel Maga (do Vitória SC) leva 94 jogos na I Liga e 0 internacionalizações.
Aos 21 anos de idade, Diogo Travassos (emprestado pelo Sporting ao Moreirense) leva 40 jogos na I Liga e 0 internacionalizações. E, porventura, o caso mais gritante de todos: aos 21 anos de idade, Gustavo Sá (capitão do Famalicão) leva 95 jogos na I Liga e 0 internacionalizações. Ainda assim, há mais.
Antes de ser vendido pelo Sporting de Braga ao Al-Ittihad Jeddah, com 19 anos de idade, Roger Fernandes levava 53 jogos na I Liga e 0 internacionalizações. O próprio Pablo Felipe deixou o Gil Vicente pelo West Ham, aos 21 anos idade, com 61 jogos na I Liga e 0 internacionalizações. Em ambos os casos, continuam por ser chamados.
O próprio Tomás Araújo (do Benfica), aos 23 anos de idade, leva 54 jogos na I Liga e uma única internacionalização, a 18 de novembro de 2024, quando foi aposta a titular no empate a uma bola com a Croácia, na fase de grupos da Liga das Nações, e, daí em diante, nunca mais mereceu a honra de representar o seu país.
Urge, então, perguntar. Afinal, para que é que Roberto Martínez quer mais jovens a jogar na I Liga? Para melhor os ignorar? Ou para os levar a passear por essa Europa fora e, como chegou a ter a distinta lata de dizer sobre Geovany Quenda, poderem "desfrutar da festa e aprender com jogadores com 100 internacionalizações"?
Roberto Martínez tem o dom da palavra, e sabe bem disso. A cada ocasião que tem, faz questão de enaltecer as condições que lhe são oferecidas pela Federação Portuguesa de Futebol e a qualidade dos jogadores que tem ao dispor. No entanto, de cada vez que elabora sobre o talento nacional, morre um panda.














