Menos portugueses em Andorra: Fácil ter trabalho, mas difícil pagar casa

  • 14/02/2026

"O problema da comunidade portuguesa é a dificuldade em encontrar habitação. É escassa, é difícil de encontrar e os preços são elevados. A nível laboral, não há neste momento especiais problemas, penso que é relativamente fácil encontrar trabalho em Andorra. Mas se calhar já não é atrativo, pelo custo de vida", disse à agência Lusa a conselheira do Conselho das Comunidades Portuguesas (CCP) eleita pelo principado, Sílvia Prada.

 

Segundo estatísticas oficiais de Andorra, a comunidade portuguesa no país ascendia a 8.428 pessoas no final de 2025, o equivalente a 9,5% da população. As autoridades portuguesas estimam que, porém, incluindo os lusodescendentes, seja o dobro, num país que não admite a dupla nacionalidade.

"Os filhos e os netos, a segunda e terceira gerações, são muitas vezes, mais cedo ou mais tarde, andorranos. E isso significa que desaparecem das estatísticas oficiais", explicou à Lusa o cônsul-geral de Portugal em Andorra, Duarte Pinto da Rocha.

Os portugueses continuam a ser a segunda maior comunidade estrangeira residente em Andorra, a seguir à espanhola (21.013 pessoas), e a emigração nacional para este país nos Pirenéus, entre Espanha e França, tem uma origem antiga, já com várias décadas.

No entanto, a comunidade tem vindo a descer de forma lenta, mas contínua: nos últimos 15 anos passou de 10.832 pessoas (em 2010) para 8.428 (em 2025). No passado, chegou a alcançar as 18.000, num momento em que a população de Andorra rondava os 60.000 habitantes, muito menos dos que os atuais quase 90.000.

O aumento exponencial do custo de vida em Andorra e das casas tem tido destaque na imprensa internacional, como a espanhola. Devido à política fiscal, o país tornou-se um íman para empresários comprarem casa e fixarem residência e, nos anos mais recentes, um polo de atração de famosos 'influencers' ou 'youtubers', sobretudo espanhóis, acusados do outro lado da fronteira de estarem a fugir aos impostos.

Em Andorra há 18 anos e a trabalhar como chefe de obra numa empresa de construção civil, "setor com muitos portugueses", Sílvia Prada garante que "é bastante reduzido o número de portugueses que procura Andorra".

"O número de portugueses não tem aumentado. Às vezes acontece que as pessoas chegam aqui, encontram trabalho, mas não encontram casa. E têm de se ir embora por esse motivo", conta Sílvia Prada, que tem 45 anos e nasceu em Macedo de Cavaleiros.

Mesmo os portugueses que vivem há décadas em Andorra não são, na sua maioria, proprietários de casa e o aumento do preço do arrendamento "parece estar a ter um efeito secundário", o de, chegada a "idade da pré-reforma, começarem a considerar o regresso a Portugal", nas palavras de Duarte Pinto da Rocha.

Se com os dois salários de um casal com filhos é difícil pagar uma casa de família, com o valor de uma reforma é praticamente impossível, como bem sabe e explica à Lusa Emília Ribeiro, 65 anos, há 22 em Andorra e a poucos meses de deixar o trabalho como vendedora na grande cadeia de armazéns do país.

Está também, por isso, a poucos meses de regressar a Portugal, a Esposende, já reformada, embora acredite que, inicialmente, andará "entre os dois países", porque a filha, psicóloga clínica na cidade de Andorra-a-Velha, fica em Andorra.

"Por vários motivos, nunca construí uma casa em Andorra e agora tenho de deixar a casa onde vivo", conta à Lusa, explicando que os 750 euros de reforma (juntando valores de Portugal e Andorra) não lhe permitem continuar a pagar os 950 da renda que tem atualmente. Uma renda antiga e baixa porque já sabe que o dono da casa a vai agora alugar "a 1.500 ou 2.000 euros", num país onde o salário mínimo ronda os 1.450 euros.

"Não dá para viver aqui. Isto é um país para ricos. Há 40 anos, os portugueses ganhavam muito dinheiro, nas obras e outros trabalhos. Agora já não é assim e já não era quando vim. Gasta-se o dinheiro todo", resume.

Emília Ribeiro não é a única portuguesa que trabalha na secção de roupa feminina dos grandes armazéns de Andorra-a-Velha, pelo contrário, a maioria dos colegas no momento em que fala com a Lusa são oriundos de Portugal. E alguns dos que não são já arranham o português à força de tanto contacto com os companheiros de trabalho e à conversa somam-se clientes assim que ouvem falar o idioma.

Emília e os colegas de trabalho são de gerações diferentes, mas quase todos os que falaram com a Lusa têm o plano comum de deixar Andorra em breve.

É o caso de Sandra Silva, de 46 anos, e Pedro Páscoa, de 28, que estão a poucos meses de regressar a Braga e Santa Maria da Feira, respetivamente.

Sandra, em Andorra desde 2004, tem casa própria em Portugal e sabe que os filhos, de 13 e 10 anos, um dia teriam de deixar o principado para irem estudar na universidade, "em Barcelona ou França". Quando chegar a reforma, que prevê "muito baixa para o nível de vida e a habitação" em Andorra, quer tê-los por perto e, nesta idade, ainda irão para onde a mãe os levar ou quiser levar, neste caso, para Portugal.

Já Pedro Páscoa, que fez formação em Teatro na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, e é bailarino, tem passado os últimos anos entre Portugal - onde nos meses de primavera e verão percorre feiras medievais com um espetáculo - e Andorra - onde trabalha nos grandes armazéns durante o inverno.

Em abril volta a Portugal e diz que já não volta, não tanto pelo custo de vida, mas porque, apesar de "adorar as pessoas", em especial "as da comunidade", e de ali ter uma irmã, "o país em si" já não lhe "diz nada" e prefere outra qualidade e forma de vida ou procurar novos mundos, com "mais ofertas": "Não fecho as portas a voltar a emigrar, mas não para Andorra".

Leia Também: Portugal volta a ter representação diplomática permanente em Andorra

FONTE: https://www.noticiasaominuto.com/pais/2939527/menos-portugueses-em-andorra-facil-ter-trabalho-mas-dificil-pagar-casa#utm_source=rss-ultima-hora&utm_medium=rss&utm_campaign=rssfeed


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