Maioria dos europeus já não vê os Estados Unidos como aliado fiável
- 10/02/2026
O inquérito do grupo de reflexão Conselho Europeu para as Relações Externas (ECFR, na sigla em inglês), divulgado hoje, mostra que a opinião dominante é a de que os EUA são apenas um parceiro necessário e que a perceção se deteriorou ainda mais em comparação com novembro de 2024, quando Donald Trump foi eleito para um segundo mandato presidencial na Casa Branca.
Segundo o estudo, feito em parceria com a Fundação Calouste Gulbenkian, mais de metade (58%) dos portugueses veem os EUA como um parceiro necessário, 14% consideram que são aliados da União Europeia (UE), 11% um rival e 5% um adversário.
Por outro lado, a maioria dos cidadãos europeus apoia um aumento nos gastos com a Defesa - 57% dos portugueses são a favor e 31% contra.
Muitos europeus também apoiam a reintrodução do serviço militar, refere a sondagem.
O estudo evidencia uma opinião pública dividida, pelo que os autores -- a diretora do escritório do ECFR em Paris, Célia Belin, e o investigador sénior Pawel Zerka -, identificam "possíveis coligações que os líderes poderiam formar".
Uma delas poderia ser formada por eleitores que apoiam aumento dos gastos com a Defesa, independentemente da sua posição em relação aos EUA e à UE (a 'coligação baioneta').
Outra reúne pró-europeus sem ilusões em relação aos Estados Unidos, independentemente da sua opinião sobre os gastos com a Defesa (a 'coligação dos valores').
Uma terceira reuniria os opositores da integração europeia (a 'coligação eurocética').
"A mera possibilidade de [esta terceira opção] se concretizar deve servir como motivação adicional para os líderes pró-europeus considerarem seriamente a disponibilidade das duas primeiras opções", argumentam os autores, citados num comunicado do ECFR.
Célia Belin e Pawel Zerka sugerem que a Europa deve optar pela 'coligação dos valores', que exigirá "compromissos em todo o continente": maiores gastos com defesa em países mais euro-pacifistas (como Itália e Espanha); maior realismo em relação às pressões dos EUA onde a nostalgia atlantista é forte (como Polónia e Estónia); e uma coordenação mais estreita com os seus pares europeus por parte dos países onde predomina a visão de que os EUA já não são um aliado e que é necessário aumentar a despesa com a Defesa (como França e Alemanha).
"Uma narrativa clara sobre a Europa e a relação transatlântica poderia restaurar a confiança do público, conter a fuga dos eleitores para os extremos e substituir a fragmentação por um sentido de propósito comum", sustentam os autores.
Célia Belin adverte contra uma postura fraca da Europa face aos Estados Unidos.
"Os líderes europeus continuam a fazer concessões a Washington para evitar uma rutura, mas a nossa sondagem mostra que os custos desta posição estão a aumentar. A sua resposta moderada às provocações dos EUA corre o risco de minar a confiança não só na liderança, mas na própria Europa --- na sua unidade, no seu poder e no seu futuro", afirma.
Por sua parte, o investigador sénior Pawel Zerka sublinha que o inquérito "transmite uma mensagem clara: uma maioria europeia mobilizada pode ser composta pelo público disperso do continente".
Mas, frisa, tal exige que "os líderes deem um passo em frente e construam pontes entre os cidadãos".
"Em vez de aceitar o pessimismo, devem desafiá-lo, convencendo o público de que os europeus podem superar os desafios atuais se permanecerem unidos", salienta.
O inquérito foi realizado online em novembro de 2025 junto da população adulta (com 18 anos ou mais) em 13 países europeus (Bulgária, Dinamarca, Estónia, França, Alemanha, Hungria, Itália, Polónia, Portugal, Rússia, Espanha, Suíça e Reino Unido).
O ECFR teve como parceiros, além da Fundação Calouste Gulbenkian, o Departamento Federal dos Negócios Estrangeiros da Suíça, o Centro Internacional para a Defesa e Segurança e o Think Tank Europa.
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