Luz voltou ao Juncal, onde gerador tornou Café Central no ponto de encontro
- 03/02/2026
"Foi voltar aos tempos antigos", resumiu à Lusa João Pires, de 24 anos e funcionário do Café Central, recordando com um sorriso a semana em que o estabelecimento se transformou no espaço onde muitos procuraram carregar o telemóvel ou saber informações sobre o que se passava fora do Juncal.
Localizada no distrito de Leiria, o Juncal foi uma das localidades que ficou, na madrugada de 28 de janeiro, sem eletricidade e comunicações devido à passagem da depressão Kristin, restabelecidas com falhas desde segunda-feira.
O regresso da luz permitiu ao proprietário do Talho Gigas, Carlos Valinho, reabrir hoje de manhã o estabelecimento, ainda que com bastante menos carne do que a que tinha.
A maioria estragou-se por ter deixado de estar refrigerada e, com as comunicações ainda intermitentes, não conseguiu encomendar nova, contou à Lusa pelas 11:45, pouco depois de vender meia dúzia de costeletas a um morador na povoação.
No total, estimou, os prejuízos atingiram os 10 mil euros, depois de um mês que já tinha começado com uma arca estragada.
A confiança de que fevereiro será melhor é, contudo, ensombrada pela preocupação com o facto de muitas fábricas estarem fechadas, o que, acredita, poderá originar atrasos nos ordenados dos trabalhadores da região.
"O consumo vai ressentir-se", defendeu o talhante de 46 anos, numa opinião que não é consensual.
Umas horas mais tarde, num cabeleireiro próximo, Ana Paula Branco, de 56 anos, atendeu já várias clientes no regresso após a passagem da depressão Kristin e crê que estas não deixarão de voltar em breve.
Pelas 17h00, foi, porém, obrigada a fazer mais uma pausa, depois de a eletricidade ter voltado a falhar.
Na Retrosaria Irene, a proprietária, Irene Martins, não deixa de trabalhar mesmo às escuras, ainda que, na última semana, o negócio tenha estado parado.
"As pessoas não podem levantar dinheiro", justificou a lojista de 62 anos, a poucos metros de uma caixa multibanco desligada, sem saber ainda o que esperar quando a normalidade for retomada.
Por agora, o que preocupa mesmo Irene Martins é a passagem da depressão Leonardo, entre hoje e quinta-feira.
"Tenho um 'bocadico' de receio", desabafou.
Dez pessoas morreram desde a semana passada na sequência do mau tempo. A Proteção Civil contabilizou cinco mortes diretamente associadas à passagem da depressão Kristin e a Câmara da Marinha Grande anunciou uma outra vítima mortal, a que se somaram depois quatro óbitos registados por quedas de telhados (durante reparações) ou intoxicação com origem num gerador.
A destruição total ou parcial de casas, empresas e equipamentos, quedas de árvores e de estruturas, cortes ou condicionamentos de estradas e serviços de transporte, em especial linhas ferroviárias, o fecho de escolas e cortes de energia, água e comunicações são as principais consequências materiais do temporal, que provocou algumas centenas de feridos e desalojados.
Leiria, Coimbra e Santarém são os distritos com mais estragos.
O Governo decretou situação de calamidade até ao próximo domingo para 68 concelhos e anunciou um pacote de medidas de apoio até 2,5 mil milhões de euros.
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