"Israel não devia estar na Eurovisão. Talvez alinhássemos no boicote"
- 16/01/2026
Se há pouco menos de um ano o caminho dos NAPA era feito "a pensar em regressar", este primeiro mês de 2026 indica as direções até ao Porto e Lisboa, onde vão pisar os coliseus nos próximos dias 24 e 30, respetivamente. Não deixaram de pensar na "casa, ilha, paz, Madeira", e prova disso é o novo álbum que estão a preparar e que deverá sair ainda antes do verão.
Em entrevista ao Notícias ao Minuto, Guilherme Gomes, voz e guitarra da banda madeirense, fez um prognóstico do novo ano, assim como refletiu sobre a música que colocou a banda madeirense 'na mira'.
Além dos conselhos deixados a quem suceder ao grupo - formado também por Francisco Sousa (guitarra), João Rodrigues (bateria), Diogo Góis (baixo) e João Lourenço (piano) -, Guilherme Gomes afasta "Deslocado" dos holofotes 'apenas' da Eurovisão, dando conta de que o alcance orgânico foi além dos palcos suíços. O vocalista sugere ainda que, dado o panorama internacional, a banda faria parte do "boicote" que está a acontecer devido à participação de Israel e conta também como o caminho que o grupo faz agora não é só construído de pensamentos de regresso a casa, mas sim com o "entusiasmo do caminho a seguir."
Só tínhamos a certeza de que tínhamos feito uma canção que nos representava bem, que nos orgulhava e da qual gostávamos bastante
Quase um ano depois da Eurovisão, "Deslocado" conta com quase 111 milhões de reproduções no Spotify. Na altura do festival houve, entre covers e uma notável aceitação, uma grande repercussão da música pelo mundo. Contavam com isso?
Não, não. Foi completamente uma surpresa para nós. Acho que isto era impossível de prever. A própria vitória no Festival da Canção também foi uma surpresa. Não estávamos à espera. Só tínhamos a certeza de que tínhamos feito uma canção que nos representava bem, que nos orgulhava e da qual gostávamos bastante. Mas, depois, essa receção do público foi-nos surpreendendo ao longo do ano e foi evoluindo - passou de Portugal para a Europa, depois para o Brasil - um bocadinho por todo o mundo. Uma banda como a nossa, que era relativamente pequena há um ano... foi uma surpresa.
Há músicas que muitas vezes associamos a momentos, a festivais. Olhavam para "Deslocado" como uma música apenas da Eurovisão... ou para além dela?
Não fizemos a música a pensar propriamente no Festival da Canção. Era uma música que já existia e quando recebemos o convite achámos que seria a canção indicada. Não tivemos essa associação desde o início.
E para nós também é importante que não fique associada ao festival e à Eurovisão para sempre - e que fique como uma música por si só. Isso também quer dizer que se conseguiu transcender esse universo do Festival da Canção e da Eurovisão - o que para nós é uma vitória, das maiores vitórias: se calhar, há muita gente que ouviu não propriamente por causa da Eurovisão, mas por outras razões. Porque teve realmente um alcance orgânico muito grande além do festival.
A última edição teve alguns momentos marcados por manifestações de apoio ao povo palestiniano, em reação à guerra no Médio Oriente. Qual é a opinião dos NAPA quanto ao posicionamento que Portugal deveria ter ou qual é o vosso posicionamento?
Na nossa opinião, Israel não deveria participar na Eurovisão. Pelo simples facto de que um país como a Rússia foi retirado. Mal invadiram a Ucrânia, foi decidido que a Rússia não ia participar mais no Festival da Eurovisão. Seria lógico que um país como Israel, que cometeu as atrocidades todas que cometeu nos últimos anos, também não participasse. Para nós é bastante lógico. Porque, apesar de ser um festival de música, quando envolve tantos países europeus e com um passado histórico tão grande; quando há um país que está em conflito, o foco às vezes desvia-se da música e passa a ser um pouco político. E isso só prejudica Portugal.
Acho que, este ano, intensificou-se devido a tudo o que aconteceu ao longo do ano passado em Gaza. Se fosse este ano, a nossa participação seria diferente. Talvez também alinhássemos no boicote.
Defendem que cada país devia competir com a sua língua materna, como vocês fizeram, ou para vocês essa é uma questão mais secundária?
A escolha de cada artista deve ser individual, mas a minha visão é que, se cada um levar uma música na sua língua materna, o festival fica mais rico. Acho que as pessoas se conseguem expressar melhor na sua língua materna e não no inglês - a não ser que sejam países como a Irlanda ou o Reino Unido.
Apesar de tudo, acho que as músicas conseguem ter uma repercussão grande, mesmo sendo numa outra língua [que não o inglês]. Essa diversidade artística era o que, durante muitos anos, dava uma riqueza e uma profundidade ao festival - o que talvez se tenha perdido um bocadinho quando as músicas começaram a ser maioritariamente em inglês.
Perde-se a oportunidade de mostrar a cultura de cada país, substituindo a língua materna pelo inglês.
Um novo ano está aí: O que esperam os NAPA dele?
Agora vamos fazer os nossos coliseus. Estamos muito focados em preparar esse espetáculo e estamos muito entusiasmados para também pisar esses palcos tão icónicos. Há uns tempos parecia um sonho muito difícil de concretizar e hoje, graças a tudo o que aconteceu, cá estamos.
Logo a seguir aos coliseus, vamos acabar de gravar o nosso terceiro álbum, que à partida sairá antes do verão. Temos muita música nova para mostrar e estamos mesmo entusiasmados com o caminho que estamos a seguir. Acho que o público também vai gostar desta nova fase.
Durante muitos anos não tínhamos a noção dessa nossa riqueza cultural e do que é possível fazer inspirado nas nossas raízes
Há algo sobre o novo álbum que queira destacar?
Estamos a trabalhar com um produtor novo com quem tínhamos o sonho de trabalhar já há algum tempo. Chama-se Lucas Nunes. É um produtor jovem, tem uma banda, Bala Desejo, e é produtor do último álbum do Caetano Veloso ["Meu Coco"]. Ele é uma máquina, super gente boa, e tem sido uma grande contratação, por assim dizer. Tem sido mesmo muito incrível trabalhar com ele e acho que estamos num bom caminho. E além dele estamos a trabalhar com o André Santos, que é um guitarrista e também produtor, amigo nosso madeirense.
E essa dupla tem sido assim quase uma Liga dos Campeões de produção. Estamos mesmo a dar-nos super bem - quer pessoal, quer musicalmente.
Queremos imprimir uma sonoridade única e diferente, também trazendo um bocadinho o sítio onde nascemos, a Madeira, ficando a olhar para esse sítio de uma forma fresca e trazendo uma sonoridade. Ou pelo menos a tentar trazer uma sonoridade nova e criada na Madeira e nas nossas origens.
Hoje em dia ouvem-se mais mais sonoridades locais do que acontecia, por exemplo, há cinco anos. É algo que tem tido sucesso e muito público.
Sim. Acho que Portugal está a começar a valorizar-se cada vez mais. Acho que durante muitos anos não tínhamos a noção dessa nossa riqueza cultural e do que é possível fazer inspirado nas nossas raízes. Não é preciso dançar o malhão [Minho e Douro Litoral] e o bailinho [da Madeira] para fazer uma coisa tradicional. Vamos inspirar-nos nisso e pegar nisso como ponto de partida e fazer o que quisermos.
Acho que é um bom caminho a seguir. O nosso álbum não pretende ser um álbum tradicional, de todo. É mais a forma como olhamos para a nossa música e termos essa consciência de imprimir uma identidade insular na música que estamos a fazer.
Ainda não se sabe quem vai suceder aos NAPA na Eurovisão, mas qual é o conselho ou aviso que poderia ser deixado?
O meu conselho seria o de levar uma música que realmente esse artista acredite a 100% e com a qual se identifique mesmo porque nesses meses de Festival da Canção e Eurovisão não se fala de outra coisa sem ser nessa música em específico.
Pensem numa música que consigam defender de todos os ângulos e de que se sintam orgulhosos, para que, no fundo, não seja um processo muito penoso.
E é isso: levar a melhor música possível, muitas vezes é essa a oportunidade que têm para participar no Festival. Portugal não gosta muito de repetir artistas, portanto, há essa tendência para a renovação com artistas novos. Essa janela de oportunidade é uma grande montra e quem participa devia tentar dar o seu melhor e contar bem a história da canção.














