Imigrante agredido por dois homens nos Olivais: "Volta para o teu país!"
- 18/02/2026
Shiva (nome fictício) estava a sair de um supermercado perto do metro da Encarnação, na zona dos Olivais Norte, em plena Lisboa. Era domingo. Tinha passado por lá a caminho de casa, para comprar alguns alimentos para o jantar, e já ia com o saco das compras na mão quando foi abordado por dois jovens.
"Saí do supermercado e estas duas pessoas começaram a seguir-me. Estava ao telemóvel com a minha companheira e, do nada, começaram a gritar: 'Isto não é o Bangladesh!', 'Volta para o teu país!', 'És um merdas!'", contou o imigrante ao Notícias ao Minuto.
"Olhei para trás" - e quando o fez, um dos jovens atirou-se a ele, tentando agarrar-lhe o telemóvel. "Mas não conseguiu".
Depois, "o outro veio e começou a empurrar-me". "As compras caíram. Os tomates, as cebolas - tudo. Estava a tentar agarrar nisso e quando me dobrei começaram a bater-me", recordou.
Shiva foi pontapeado e esmurrado pelos dois jovens, sem razão aparente, segundo contou. A zona, contudo, disse não ser a mais segura. Passa por lá de vez em quando e, naquela esquina, costuma ver pessoas a drogarem-se e a beberem, rodeados por paredes escritas com "1143", o grupo neonazi, e frases do género "Portugal é dos portugueses".
Perante as agressões de que estava a ser alvo, o imigrante, que já cá está há seis anos e é trabalhador com contrato efetivo, apontou o telemóvel aos dois agressores e começou a gravar.
"Comecei a gravar porque é importante nestas situações. E quando comecei, eles recuaram", recordou. "O mais alto começou a tentar parar o outro. Mas a situação não acalmou. Tentaram bater-me de novo", contou.
O vídeo, que Shiva cedeu ao Notícias ao Minuto e que pode ver na galeria acima, mostra o que aconteceu a partir desse momento.
Realçamos que tanto essas imagens como o relato que se segue podem impressionar os leitores mais sensíveis.
"Vou chamar a polícia! Deixem o homem em paz!", ouve-se, a dado momento, uma mulher a gritar. A senhora estava a estender a roupa, quando viu o que estava a acontecer da janela.
Shiva grita de volta: "Por favor! Chame a polícia!"
Um dos jovens responde à mulher, insultando-a também. Aqui e também em outros momentos do vídeo, é possível ver este homem com uma lata vermelha na mão. Não é percetível de que bebida se trata.
"Please, please", diz em tom de escárnio o mesmo homem, imitando Shiva que fala em inglês. "Anda atrás que vais levar mais", ameaça.
Enquanto isso, o homem mais alto começa a dizer "stop record" - para de gravar. Shiva recusa.
"Não vou parar de gravar! Trata-se da minha segurança!", argumenta.
Um entregador de comida que estava na rua escolhe esse momento para intervir e começa a afastar o homem mais alto, que começa a dizer que não está a ser agressivo, só está a pedir que Shiva pare de gravar.
"Ninguém te está a ameaçar", alega. "Ele", diz, referindo-se ao outro jovem, "está bêbado. Ele não vai fazer nada".
Logo de seguida ameaça: "Tens um minuto para apagar essa merda e depois disso eu não o vou parar [ao outro homem]". O jovem supostamente bêbado continua aos gritos a alguns passos de distância e a ser afastado pelo entregador.
Perante a recusa de Shiva em parar de gravar e apagar a gravação, o homem mais alto atira: "Ele está à solta. Não quero saber".
Num último grito, o outro diz apenas: "Aqui respeitas os locais!".
Nas imagens, é possível ainda ver os dois homens a irem-se embora, enquanto o estafeta agarra no telemóvel, pronto para ligar à polícia.
Shiva apresentou queixa numa esquadra da PSP
A chamada acabou por ser feita. Não pelo estafeta, mas pelo próprio Shiva e também pela mulher que, da janela, viu tudo o que aconteceu.
A senhora disse-lhe para esperar meia hora e que, se eles não aparecessem, ela própria contava o que tinha acontecido e fazia a descrição dos supostos agressores. Shiva esperou uma hora e ainda ligou uma segunda vez, mas ninguém apareceu.
Na chamada, "perguntaram-me se estava bem, se precisava de uma ambulância". Shiva ficou com algumas mazelas, especialmente na bochecha esquerda que ficou inchada, mas não precisou de cuidados médicos. A polícia não se deslocou ao local.
"Tive de ir a três esquadras", contou, notando que pelo caminho lhe disseram que "tinha cinco meses para fazer a queixa".
Shiva fez questão de salientar que não conseguiu fazer queixa nas duas primeiras esquadras, não por falta de vontade dos agentes, mas porque era domingo e não havia mãos para tudo.
"Não se comportaram como se não quisessem saber, falaram bem comigo, pediram-me desculpa pelo que tinha acontecido. São boas pessoas. O problema foi que estavam ocupados. Não tinham agentes suficientes", realçou.
Foi só na terceira esquadra da Polícia de Segurança Pública (PSP), no Oriente, que Shiva conseguiu efetuar a queixa. Numa primeira fase, a polícia não aceitou ficar com o vídeo. Contudo, após uma segunda deslocação de Shiva à esquadra para tentar fazer a identificação dos supostos agressores, a PSP acabou por ficar com as imagens.
O Notícias ao Minuto contactou a PSP para obter mais esclarecimentos, mas até ao momento ainda não teve resposta.
Shiva está há seis anos em Portugal e tem contrato efetivo
Shiva, nome fictício por razões de privacidade e de segurança, vive em Portugal há já seis anos. Trabalha há quatro para a Câmara Municipal de Lisboa. Está com um contrato efetivo no trabalho, no qual diz ter "orgulho".
"Estou orgulhoso de servir este projeto. Sinto que aqui posso dar algo de volta à sociedade. Estamos a ajudar a reduzir as taxas de carbono. Adoro trabalhar para esta empresa", realçou.
Questionado sobre se alguma vez tinha sido alvo de um episódio do género, Shiva foi perentório: "Toda a gente foi simpática até agora". Em seis anos, aqueles dois homens foram os primeiros - e únicos - a terem um comportamento agressivo para com o imigrante, que considerou que, quem se comporta desta forma, "não devia ter espaço numa sociedade".
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