Guterres: "Problemas globais não serão resolvidos por uma única potência"

  • 29/01/2026

Na primeira conferência de imprensa do ano em Nova Iorque, Guterres refletiu sobre o estado do mundo e criticou o facto do direito internacional estar a ser "espezinhado", da "lei do poder prevalecer sobre o poder da lei" e das divisões geopolíticas estarem a ser amplificadas por uma "epidemia de impunidade".

 

"As nossas estruturas e instituições devem refletir a complexidade - e a oportunidade - destes novos tempos e realidades. Os problemas globais não serão resolvidos por uma única potência a ditar as regras. Nem serão resolvidos por duas potências a dividir o mundo em esferas de influência rivais", afirmou.

Perante uma sala cheia de jornalistas de várias nacionalidades, incluindo da agência Lusa, António Guterres, que deixará o cargo de secretário-geral no final do ano, confessou tratar-se de um "momento especialmente significativo" para si, uma vez que é a sua "última oportunidade" para ter a "conversa habitual de início do ano" com a imprensa.

"Ainda estamos no começo, mas 2026 já se anuncia como um ano de caos e constantes surpresas. Antes de entrar para a vida pública, formei-me em física. E em tempos de profunda mudança, retorno a alguns dos princípios fixos que explicam como as forças atuam sobre o mundo", disse, destacando a Terceira Lei de Newton, em que "para toda a ação há uma reação igual e oposta".

"Na física, essa lei é um princípio estabilizador. Na geopolítica atual, ela é um fator desestabilizador. Vivemos num mundo onde ações -- especialmente as imprudentes -- provocam reações perigosas. E, diferentemente da física, essas reações não são simétricas nem previsíveis", observou, fazendo um paralelo com o estado do mundo.

O líder das Nações Unidas considerou que a impunidade está a impulsionar os conflitos atuais, alimentando a escalada e a desconfiança e abrindo caminho para que "poderosos sabotadores entrem por todos os lados".

Guterres, que encarou a crise climática como uma das prioridades de mandato, afirmou que as alterações climáticas são a ilustração mais literal e devastadora do princípio de Newton.

"Toda a ação que aquece o planeta desencadeia uma reação feroz: tempestades, incêndios florestais, furacões, secas, subida do nível do mar", apontou.

Referiu igualmente a tecnologia, setor onde "testemunhamos talvez a maior transferência de poder dos nossos tempos -- não dos Governos para as pessoas, mas dos Governos para empresas privadas de tecnologia", disse.

Face a este cenário, o antigo primeiro-ministro português apelou à mudança, defendendo que as estruturas e instituições atuais devem refletir a complexidade e a realidades dos novos tempos.

"É importante acelerar, de forma deliberada e determinada, a multipolaridade -- uma multipolaridade interconectada, inclusiva por natureza e capaz de criar equilíbrio através de parcerias. Parcerias no comércio, na tecnologia e na cooperação internacional", defendeu.

Mas para que a multipolaridade gere equilíbrio, prosperidade e paz, Guterres insistiu na necessidade de instituições multilaterais fortes, cuja legitimidade esteja enraizada na responsabilidade e em valores compartilhados. 

Nestas declarações iniciais, António Guterres saiu em defesa das Nações Unidas, frisando que a organização trabalha diariamente para dar vida aos valores partilhados.

"Os valores importam e as pessoas estão a arriscar tudo para os tornar reais. Isto está em plena evidência em todo o mundo -- seja um manifestante a enfrentar a repressão, um jornalista a defender a liberdade de imprensa ou um cidadão comum a defender o seu vizinho", disse.

"Não vamos desistir", garantiu.

Apesar dos esforços de Guterres para tentar convencer o mundo de que a ONU é hoje mais vital do que nunca, a organização fundada após a Segunda Guerra Mundial tem na atualidade a sua influência desacreditada e o seu pleno funcionamento em risco devido aos cortes de financiamento de nações como os Estados Unidos, país que acolhe a sede da instituição, em Nova Iorque, e o seu maior doador.

No início do mês, o Presidente norte-americano, Donald Trump, anunciou a retirada dos Estados Unidos de 31 agências ligadas à ONU, medida que foi seguida por Israel, que também rompeu as relações com sete entidades da organização.

António Guterres assumiu a liderança da ONU em janeiro de 2017, tendo sido reconduzido para um segundo mandato, que termina no final de 2026.

Leia Também: Guterres acolhe "com satisfação" retorno do corpo de último refém em Gaza

FONTE: https://www.noticiasaominuto.com/mundo/2928807/guterres-problemas-globais-nao-serao-resolvidos-por-uma-unica-potencia#utm_source=rss-ultima-hora&utm_medium=rss&utm_campaign=rssfeed


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