Guiné-Bissau lamenta que CPLP ainda não tenha enviado uma missão ao país
- 03/02/2026
Bissau, 03 fev 2026 (Lusa) -- O Governo da Guiné-Bissau lamentou hoje que a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) ainda não tenha enviado uma missão de bons ofícios ao país desde o golpe militar de 26 de novembro de 2025.
A Guiné-Bissau está suspensa da organização e foi afastada da presidência da mesma e substituída por Timor-Leste, com a condição da libertação de todos os presos políticos e do regresso à normalidade constitucional, para o levantamento das medidas.
Numa conferência de imprensa em que fez o balanço dos 65 dias de diplomacia do Governo de transição nomeado pelos militares, o ministro dos Negócios Estrangeiros, João Bernardo Vieira, afirmou que o país está a respeitar as recomendações feitas por organizações das quais faz parte, e das quais está também suspenso, nomeadamente a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO).
"A nível da CEDEAO houve avanços, ao contrário da CPLP, que nunca veio à Guiné-Bissau para se inteirar da situação existente, nunca a CPLP enviou uma missão de bons ofícios à Guiné-Bissau, a CEDEAO já enviou várias missões", declarou.
Para a diplomacia guineense, a CPLP parece ter dois pesos e duas medidas e deu como exemplo a posição da Comunidade relativamente ao golpe militar na Guiné-Bissau e à recente destituição da presidente do parlamento de São Tomé e Príncipe, país também membro da CPLP.
"Estamos a aguardar a posição da CPLP relativamente ao que aconteceu em São Tomé, que para nós é vergonhoso, escandaloso quando o próprio Presidente (de São Tomé e Príncipe) Carlos Vila Nova é um instigador deste golpe palaciano em São Tomé Príncipe", disse o ministro guineense.
João Bernardo Vieira afirmou que Bissau espera "vivamente que, à semelhança do que foi feito com a Guiné-Bissau, possam ser tomadas medidas corretivas para que de facto não haja aqui interpretações relativamente ao posicionamento sobre o que é a democracia para essa organização".
"É importante realçar que o Presidente de São Tomé e Príncipe foi uma das vozes mais críticas da situação da Guiné-Bissau e acontece que houve um golpe de Estado parlamentar, constitucional em São Tomé e Príncipe na medida em que 29 deputados, em 55 deputados, destituiram a presidente da Assembleia Nacional Popular, sem qualquer legalidade", enfatizou.
João Bernardo Vieira reiterou que foi a Guiné-Bissau que se auto-suspendeu da CPLP "por entender que o espírito que norteou a criação da organização não se estava a verificar" e que o respeito pela soberania nacional "estava em causa".
"A Guiné-Bissau estava a passar um momento difícil e esta solidariedade que nós esperávamos da CPLP não a encontramos, ao contrário do aconteceu com a CEDEAO, (que) veio à Guiné-Bissau, inteirou-se dos problemas da Guiné-Bissau, sentiu o povo guineense. A CPLP baseou-se em informações (...) muitas das vezes em informações não fidedignas, baseadas nas redes sociais, na comunicação social", apontou.
Ao contrário da CPLP, segundo o ministro guineense, "há uma atitude muito positiva, um compromisso da CEDEAO relativamente à Guiné-Bissau" e salientou que o Alto-Comando Militar que dirige o país "cumpriu com as recomendações que foram exigidas sem ambiguidades, sem manobras dilatórias".
O chefe da diplomacia guineense concretizou que "os detidos foram colocados em liberdade", que a retirada das tropas da CEDEAO não se irá verificar e que o Alto-Comando Militar mostrou abertura para que "individualidades integrassem" um Governo inclusivo, estando a aguardar a resposta das mesmas.
"As recomendações feitas pela CEDEAO estão todas respeitadas", vincou.
O ministro disse ainda que as autoridades da Guiné-Bissau continuam "abertas ao diálogo" com outras instituições como a União Africana e as Nações Unidas, mantendo-se "firme no respeito pelo multilateralismo".
"Nós entendemos que as organizações internacionais não são tribunais de fazer justiça, são espaços de responsabilidades partilhadas entre os estados", acrescentou.
O ministro dos Negócios Estrangeiros guineense falou ainda das relações com a União Europeia e Portugal, em resposta a perguntas da agência Lusa, que foi admitida pela primeira vez numa iniciativa, desde a expulsão da imprensa portuguesa, em agosto de 2025, da Guiné-Bissau.
João Bernardo Vieira disse que "as relações com a União Europeia continuam" que estão a analisar "a possibilidade de avançar com os projetos já existentes" e que "o importante é este diálogo que não cessou, continua".
"Portugal faz parte da União Europeia, temos boas relações com Portugal, não vejo em que medida é que isso poderia estar afetado", assegurou.
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