EUA juram "firmeza", Irão promete atacar "se for atacado". Que se sabe?
- 14/01/2026
O braço de ferro entre os Estados Unidos e o Irão continua a intensificar-se. Se o presidente norte-americano, Donald Trump, garantiu que agirá "com muita firmeza" caso as autoridades iranianas comecem a executar as pessoas presas durante os protestos que têm abalado a República Islâmica, o ministro da Defesa iraniano, Aziz Nafizardeh, alertou esta quarta-feira que o seu país atacará as bases norte-americanas na região, caso Washington lance uma ofensiva contra a nação persa.
"Agiremos com muita firmeza se o fizerem", frisou o chefe de Estado norte-americano, na terça-feira, quando questionado por um repórter da CBS News sobre a possibilidade de execuções por enforcamento.
Antes, Trump anunciou o cancelamento de todos os encontros com as autoridades iranianas, até que "o assassinato sem sentido de manifestantes cesse". Além disso, incentivou os manifestantes a continuarem a protestar, garantindo, sem adiantar mais pormenores, que "a ajuda está a caminho".
"Patriotas iranianos, CONTINUEM EM PROTESTO - RETOMEM O CONTROLO DAS INSTITUIÇÕES!!! Guardem os nomes dos assassinos e dos abusadores, vão pagar um preço elevado", escreveu, na rede social Truth Social.
E rematou: "MIGA [Make Iran Great Again, uma adaptação ao slogan Make America Great Again]."
A equipa de segurança nacional da Casa Branca realizou uma reunião para discutir as opções de resposta aos protestos, na qual o presidente não participou. Contudo, segundo uma fonte consultada pelo Axios, as deliberações dentro do governo estão numa fase "relativamente inicial".
Teerão adverte que "a resposta iraniana será dolorosa para os inimigos"
O ministro da Defesa iraniano, por seu turno, assegurou que "o Irão atacará as bases americanas se for atacado", segundo noticiou a agência local Mehr, esta quarta-feira.
Aziz Nafizardeh acrescentou que "todas as bases americanas e as bases militares de outros países da região que auxiliem os EUA em ataques contra o território iraniano serão consideradas alvos legítimos", ao mesmo tempo que advertiu que "a resposta iraniana será dolorosa para os inimigos".
No dia anterior, o responsável avisou os Estados Unidos que o Irão responderá "com mais firmeza a qualquer novo ato de agressão" e que o país será defendido "até à última gota de sangue".
Após uma reunião com a Comissão de Segurança Nacional do parlamento, Aziz Nasirzadeh destacou que a República Islâmica está mais preparada do que em junho passado, quando os Estados Unidos se juntaram a Israel nos bombardeamentos contra instalações ligadas ao programa nuclear iraniano.
O brigadeiro-general indicou também que o Irão tem "surpresas reservadas" que se revelarão "muito eficazes" em caso de novos ataques, segundo declarações divulgadas pela estação estatal iraniana.
"Se estas ameaças se concretizarem, defenderemos o país com todas as nossas forças e até à última gota de sangue, e a nossa defesa será terrível para eles", declarou.
Ainda na terça-feira, o Irão acusou os Estados Unidos de procurarem um pretexto para intervir militarmente no país, na sequência das ameaças proferidas por Trump.
"As fantasias e a política dos Estados Unidos em relação ao Irão baseiam-se na mudança de regime, com sanções, ameaças, agitação orquestrada e caos a servirem de modus operandi para fabricar um pretexto para a intervenção militar", destacou a missão iraniana, numa mensagem acompanhada de uma carta de protesto dirigida aos líderes da Organização das Nações Unidas (ONU).
O Ministério Público de Teerão adiantou que um número não especificado de manifestantes será julgado por "moharebeh" (guerra contra Deus, em persa), uma das acusações mais graves no Irão, que prevê a pena de morte, segundo um comunicado divulgado pela televisão estatal.
Mas, afinal, como é que chegámos aqui?
Note-se que o Irão está a ser agitado por uma nova vaga de protestos desde 28 de dezembro, iniciada em Teerão por comerciantes e setores económicos afetados pelo colapso do rial, a moeda iraniana, e pela elevada inflação, alastrando-se depois a mais de 100 cidades do país.
A taxa de inflação anual é superior a 42% e, durante o ano passado, o rial perdeu 69% do seu valor face ao dólar, num contexto em que a economia foi fortemente atingida pelas sanções dos Estados Unidos e da ONU, devido ao programa nuclear de Teerão.
Inicialmente, as autoridades iranianas receberam os protestos com compreensão. Contudo, endureceram a sua posição e repressão contra os manifestantes, que passaram a ser tratados como terroristas associados aos Estados Unidos e Israel, a que se juntaram entretanto relatos de milhares de detenções e condenações à pena de morte.
O número de mortos nos protestos contra o regime do Irão subiu para pelo menos 2.571, segundo avançou uma organização não governamental (ONG) criada por exilados iranianos, na terça-feira.
De acordo com a Agência de Notícias dos Ativistas pelos Direitos Humanos (HDRANA, na sigla em inglês), com sede nos Estados Unidos, 2.403 dos mortos eram manifestantes e 147 estavam ligados ao Governo.
O grupo afirmou ainda que 12 crianças foram mortas, assim como nove civis que não participavam nos protestos. O número de detidos também aumentou para mais de 18.100.
Skylar Thompson, da HDRANA, disse à agência de notícias Associated Press que este balanço é chocante, sobretudo porque atingiu em apenas duas semanas quatro vezes o número de vítimas dos protestos após a morte de Mahsa Amini, em 2022, quando estava sob custódia da "polícia da moralidade".
"Estamos horrorizados, mas ainda achamos que o número é conservador", declarou.
A HRINGO admitiu, contudo, que o número real de vítimas causadas pela repressão dos protestos pode atingir 12 mil.
A organização Human Rights Watch (HRW) destacou também que as restrições à Internet dificultaram "a verificação de assassinatos ilegais e outras violações dos direitos humanos cometidas durante a repressão dos protestos".
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