Este futebol não é para velhos. Nem para novos. Nem para mulheres
- 09/02/2026
'Frankenstein' (o livro original, de Mary Shelley, ou uma das várias adaptações cinematográficas, como preferir) é encarado, por norma, como um clássico de terror, sobre um monstro descontrolado que mata quem lhe aparece pela frente, por genuína sede de sangue. No entanto, vai muito além disso.
A criatura nasce pura, única e exclusivamente desejosa de amor e empatia, aspetos que lhe são consecutivamente rejeitados, moldando-a naquilo que se torna horrendo aos olhos de todos. Afinal, o que é que isto tem a ver com futebol, pergunta o leitor? Mais do que pensa. Tal como a criatura, o futebol português não é mau por si. Foi, sim, abandonado à sua sorte, até se tornar nesta coisa bizarra que é, aos dias de hoje.
Comecemos pela alma do futebol, isto é, pelos adeptos, que, na verdade, somos todos nós. Ou, pelo menos, assim deveria ser. Isto, porque quem tão maltrata quem quer seguir a sua equipa ou, simplesmente, desfrutar de umas horas bem passadas não pode estar minimamente preocupado com o desenvolvimento do futebol português.
O exemplo mais ilustrativo é o horário dos jogos. Será humano agendar um FC Porto-Sporting para as 20h45 de uma segunda-feira? Na véspera de um dia de trabalho? Com as noites gélidas que se vão vivendo? Sabendo que até quem mora perto muito dificilmente chegará a casa antes da 00h00? Isto, para não falar quem segue de Lisboa para o Norte do país.
Levar uma criança a um jogo destes é quase impensável, tendo em conta as variantes sobejamente conhecidas. Seria bem mais prudente levá-la, talvez, a um Sporting-AVS, mas quem é que no seu puro juízo pegaria no filho e o levaria para Alvalade às 20h45 de uma quinta-feira, ainda por cima, sob o risco de o jogo ir a prolongamento, como se verificou?
Em Alvalade, estiveram pouco mais de 20.000 adeptos. Uma pobreza, para um jogo com a emoção que teve. No primeiro caso, a organização está ao cargo da Liga, e, no segundo, da Federação Portuguesa de Futebol, mas será que, ora Pedro Proença, ora Reinaldo Teixeira, estão minimamente preocupados com o cenário a que estes heróis se submetem?
"O futebol português vive hoje uma grande união", disse Pedro Proença, há menos de dois meses. E vive, é verdade, mas união no sentido de que dirigentes como estes não servem para evitar toda uma catadupa de episódios terceiro-mundistas que se vão agravando quanto mais abaixo formos na pirâmide portuguesa.
No passado fim de semana, duas jogadoras e o treinador da equipa de futebol do Nogueirense, foram transportados para o Hospital de São João, na sequência do autêntico temporal sob o qual foram obrigados a jogar, perante o São Romão, em São Mamede do Coronado. Mas isto cabe na cabeça de quem?
Em 2025, em entrevista concedida ao jornal A Bola, Mariana Cabral confessou que ter espírito crítico a colocou em "problemas", ora com o Sporting, ora com a Federação Portuguesa. Este futebol não é para velhos, nem para novos, e muito menos para mulheres, que nem são tidas em conta, portanto, só sobra uma pergunta: será que está a servir a agenda de quem o comanda?
"VICTOR", grita a criatura, do mais profundo do desespero por quem a ame. Um cientista responde com "união", outro com "carinho", mas palavras, leva-as o vento.














