Emigrantes na Califórnia pagam deslocações para poderem votar na segunda volta
- 06/02/2026
É o caso de Nelson Gama e Sandra Garcês, que residem em Los Angeles e vão deslocar-se de carro até ao consulado. A viagem de ida e volta ronda os 1.200 quilómetros.
"Votar é muito mais do que um direito", disse à Lusa Nelson Gama, salientando que se trata de um dever cívico essencial. "Para quem vive no estrangeiro, exercer este dever implica gastar dinheiro do próprio bolso e normalmente perder horas, ou dias, de trabalho e de lazer", salientou, considerando que "é difícil aceitar que para tantos portugueses votar seja um sacrifício quase absurdo".
Gama sublinhou que "cada voto assume uma maior relevância" numa altura em que a democracia dá sinais de fragilidade e discursos populistas são normalizados.
"Com uma diáspora tão grande e tão ligada a Portugal, está mais do que na altura de criar condições que garantam a sua participação", apelou.
A Califórnia é o estado que tem a maior comunidade de origem portuguesa, mais de 350 mil pessoas, e o consulado de São Francisco serve toda a Costa Oeste. Isso significa que os emigrantes recenseados na região têm de ir votar presencialmente a São Francisco, cuja jurisdição abrange 13 estados.
"Muitos portugueses fora do país acompanham a política nacional com uma atenção e uma preocupação que, infelizmente, nem sempre se vê entre quem vive no país", disse Nelson Gama, lamentando: "Continuar a dificultar o voto dessa comunidade é desperdiçar uma voz ativa, informada e profundamente comprometida com o futuro do país".
Também Filipe Nogueira e Ana Rocha irão deslocar-se a São Francisco para votar, mas vão de avião. "Dado os dois candidatos, queremos mostrar a nossa perspetiva de oposição ao Ventura", disse à Lusa Filipe Nogueira, que até aqui só tinha votado por correspondência.
Mas essa opção não está disponível para os emigrantes nas eleições presidenciais, o que tem resultado em níveis de abstenção muito elevados. Foi de 95,91% na primeira volta, a 18 de janeiro.
André Ventura, candidato do Chega, foi o mais votado pelos emigrantes (40,93%), enquanto António José Seguro, candidato apoiado pelo Partido Socialista, recolheu 23,69% dos votos.
"Seria ideal termos uma contagem mais representativa do que efetivamente é a população portuguesa aqui e uma solução de votação em pessoa, mas entendo a complicação em termos financeiros", salientou Filipe Nogueira, afirmando entender que seja "impossível" ter votação presencial em todo o lado onde haja portugueses.
"Alternativamente, acho que haveria opções digitais seguras que poderiam ser disponibilizadas", considerou.
Já na perspetiva de Ana Rocha, "voto por correio seria a única solução".
No caso de Nelson Abreu, o emigrante vai apanhar um voo de manhã para São Francisco, votar e regressar a casa ao final do dia. Considerou "ridículo" que os emigrantes tenham de custear a deslocação, cujo preço ascende a centenas de euros.
"Não há boa justificação. É simplesmente inadmissível", disse Abreu, que assinou uma petição pública para dar aos emigrantes mais opções de voto nas presidenciais.
"Não há motivação forte porque não sofrem prejuízo ao tratarem-nos desta forma", considerou. "Somos muitos, mas no grande panorama não temos tanta força".
A final da Super Bowl, que acontece em São Francisco no domingo, encareceu os bilhetes, com as viagens de ida e volta a rondarem os 500 dólares (423 euros). Nelson Abreu vai usar créditos que tem com uma companhia aérea, mas terá de desembolsar o custo dos transportes de e para o aeroporto, além de refeições.
"Apesar das barreiras e custos, é importante dar a nossa voz pela moderação, porque estamos a ver aqui nos EUA o que acontece quando se cede poder ao extremismo", justificou.
A votação presencial no consulado pode ser feita a 07 e 08 de fevereiro.
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