Em plena guerra, Ucrânia financia criopreservação de sémen de soldados
- 17/02/2026
Clínicas privadas de fertilidade começaram a oferecer criopreservação para militares em 2022, no início da invasão em grande escala por parte da Rússia. No ano seguinte, o parlamento interveio para regulamentar a prática e fornecer financiamento estatal, mas os esforços iniciais causaram indignação pública quando foi estipulado que todas as amostras deveriam ser destruídas após a morte do doador.
A lei foi posteriormente alterada para que todas as amostras de soldados fossem preservadas gratuitamente até 3 anos em caso de morte e fossem disponibilizadas para uso por um parceiro, mediante consentimento escrito prévio.
O programa tem como objetivo também quebrar a crise demográfica que foi agravada pelo grande número de homens mortos em combate, muitos deles os mais jovens e aptos da Ucrânia.
O Centro de Medicina Reprodutiva de Kyiv começou a aceitar soldados no programa de "semén congelado" em janeiro deste ano. Até ao momento, ainda só cerca de uma dúzia é que se inscreveu, mas a clínica está confiante de que isso mudará em breve. "Temos grandes expectativas", confessou a diretora Oksana Holikova à BBC.
Um dos soldados que usufruiu do programa contou a experiência ao mesmo meio, por chamada telefónica desde a frente de batalha: "Os nossos homens estão a morrer. O património genético ucraniano está a morrer. Trata-se da sobrevivência da nossa nação".
Maxim tem 35 anos serve na Guarda Nacional da Ucrânia e, quando voltou de licença recentemente, a esposa convenceu-o a ir visitar uma clínica em Kyiv e deixar uma amostra de sémen.
"Quer se esteja na linha da frente ou a 30 ou até 80 quilómetros de distância, não há garantias", referiu ainda o soldado, recordando a ameaça constante e que "isso significa stress, o que pode ter um impacto na capacidade reprodutiva".
Mas a legislação destinada a ajudar as famílias de militares nem sempre funcionou sem problemas. Anteriormente, todas as amostras deveriam ser destruídas após a morte do doador. Isso tornou-se público quando uma viúva de guerra tentou ter um filho, o ano passado, com recurso ao esperma do marido, mas foi impedida.
Katerina Malyshko e o marido, Vitaly, estavam a tentar conceber há algum tempo. No inverno passado, tinham três embriões viáveis na clínica de fertilização e Katerina deveria transferi-los para o útero, mas nessa altura Vitaly foi morto. A clínica comunicou-lhe então que não tinha o direito de continuar o tratamento. Só depois de recorrer aos tribunais é que um juiz decidiu a seu favor, seis meses depois.
A votação sobre novas emendas à lei está prevista para a primavera.
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