Em Ourém, cortam-se árvores caídas e arremedam-se telhados com lonas
- 31/01/2026
Com cedros centenários arrancados pela raiz e caídos no chão, a Quinta da Alcaidaria-Mór, um espaço de turismo rural em Ourém, ficou com o caminho de entrada completamente vedado e intransitável. "Estão aqui mais de, se calhar, 200 árvores no chão", relatou Nuno Vasconcelos, um dos proprietários desta quinta, onde vive e recebe hóspedes, referindo que esta é "uma casa que está na família há 400 anos".
Com a ajuda da vizinhança e de familiares, Nuno Vasconcelos está hoje, quatro dias após a tempestade, a cortar os troncos das árvores que caíram, com motosserras e um trator para transportar a madeira, para conseguir aceder à quinta pela entrada principal.
A tempestade também deixou estragos nos telhados da casa principal e de alguns anexos, que se tentaram minimizar. "Já tentámos pôr algumas lonas, já tentámos pôr algumas telhas só pousadas para não chover. Há um buraquinho aqui, um buraquinho ali. [...] Dizem que vem muita chuva. Estamos curiosos em ver o que é que vai acontecer", expressou, em declarações à Lusa.
"Andámos lá todo o dia da parte da manhã a arranjar. O pedreiro já cá veio dar um toque, mas assim como veio aqui, vai a não sei quantos sítios. Anda a tentar ajudar toda a gente, portanto tentámos dar um toque provisório", indicou.
Nas ruas de Ourém, várias são as casas com escadotes ou andaimes no exterior, evidenciando que os moradores estiveram a tentar arranjar os telhados após a tempestade.
Com 14 hectares, a Quinta da Alcaidaria-Mór tem capacidade para acolher 30 hóspedes, mas é também casa de Nuno Vasconcelos, que tem uma horta de mirtilos e vários animais. Considerando que o mau tempo provocou "danos irreparáveis", o morador perspetivou que "até ao final de fevereiro" a quinta estará fechada para acolher hóspedes, porque "está aqui trabalho para meses".
"Não é fácil, aqui temos uma grande dificuldade de mão de obra, está toda a gente ocupada, os poucos que existem, porque este concelho é dos concelhos com mais emigração e está tudo para o estrangeiro", expôs, enquanto aguarda que se resolva a falta de energia elétrica, água e comunicações.
Sobre a madruga de quarta-feira, quando se sentiram os principais efeitos da tempestade, Nuno Vasconcelos disse que foi "muito assustador", inclusive com o barulho que os plátanos centenários faziam com o vento muito forte: "É inexplicável".
Em declarações à agência Lusa, o presidente da Câmara de Ourém, Luís Miguel Albuquerque (PSD), disse que os danos no concelho "ainda são muito grandes", nomeadamente a nível de falta de fornecimento de energia elétrica e de comunicações, referindo que o abastecimento de água também regista "muitas dificuldades", mas prevê-se que, até ao final do dia de hoje, se possa chegar a 80% da população.
Sobre as estradas, o autarca referiu que Ourém ficou "com cerca de 80% das vias intransitáveis", o que corresponde a "800 quilómetros de vias intransitáveis", mas hoje já se encontram desobstruídas todas as vias principais e a maioria das vias secundárias.
Há no concelho "centenas e centenas de casas sem telhas", disse Luís Miguel Albuquerque.
"Precisamos muito de lonas para precaver a chuva que aí vem nos próximos dias", apelou o autarca, adiantando que a Câmara de Ourém está a dispensar lonas a quem precisa, podendo ser recolhidas no estaleiro municipal, que fica no posto da Proteção Civil.
Sobre a declaração de situação de calamidade, que vigora até domingo, o autarca de Ourém defendeu que deve ser prolongada "por mais alguns dias", porque a autarquia vai continuar a necessitar de fazer despesa imediata e urgente para acudir às necessidades primárias das pessoas.
Essas despesas incluem também as 34 escolas do concelho, "que foram todas afetadas", em que se está a fazer "um esforço enorme" para ver se é possível reabri-las em segurança na segunda-feira, recorrendo a geradores para o fornecimento de energia elétrica: "Se não a totalidade, 90% dessas escolas na segunda-feira".
Luís Miguel Albuquerque referiu que, neste momento, não há nenhuma aldeia isolada, mas "pode haver ainda pessoas isoladas", porque moram em sítios mais isolados, realçando que a ação social está no terreno, inclusive para apoiar idosos.
"Tivemos cerca de 40 pessoas desalojadas", informou, referindo que a maior parte foi recolocada em locais disponibilizados pelas famílias e "apenas duas pessoas" foram realojadas num apartamento municipal.
A passagem da depressão Kristin por Portugal continental, na quarta-feira, deixou um rasto de destruição, causando pelo menos cinco mortos, segundo a Proteção Civil, vários feridos e desalojados. A Câmara da Marinha Grande contabiliza ainda uma outra vítima mortal no concelho. No concelho da Batalha, distrito de Leiria, um outro homem de 73 anos morreu este sábado ao cair de um telhado quando estava a reparar as telhas.
Quedas de árvores e de estruturas, corte ou o condicionamento de estradas e serviços de transporte, em especial linhas ferroviárias, fecho de escolas e cortes de energia, água e comunicações foram as principais consequências materiais do temporal.
Leiria, por onde a depressão entrou no território, Coimbra e Santarém são os distritos que registam mais estragos.
O Governo decretou situação de calamidade entre as 00:00 de quarta-feira até às 23:59 de dia 01 de fevereiro para cerca de 60 municípios, número que pode aumentar.
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