Em Monte Real e Carvide, choram-se os mortos e contam-se as telhas
- 07/02/2026
"O funeral do rapaz de Carvide foi há dois dias. Coitado, teve azar. Mas, agora temos de seguir em frente, que não há tempo a perder", porque a "chuva está a vir", afirma Vítor Coelho, 49 anos.
"Tive um filho queimado nos incêndios de 2017, mas nunca tive tantos problemas como agora. Todos sofremos", diz.
A poucos quilómetros, na sede da junta de Monte Real e Carvide, Joana Santos atende os fregueses como se fosse funcionária da autarquia, despachando um a um os pedidos, anotando recados e fazendo chamadas.
"Vamos lá a ver: tem telhas partidas, não tem telhas, tem lonas ou não tem nada? É que, conforme a resposta que me der, vai para um monte diferente", porque a "prioridade é tratar quem ainda lhe chove na casa", explica.
"Ah, isso não. O meu problema é falta de luz. Toda a gente tem luz na rua menos eu e mais dois vizinhos, o que é que se passa? Está o gerador ali à frente e nós não temos", lamenta Adelino Coelho, 66 anos.
"Eles só ligam as redes que são estáveis, se há algum problema nos cabos eles não ligam. Sabe se tem algum problema?", responde Joana.
"Isso não sei. Não percebo nada disso". "Então eu mando lá a alguém", diz a voluntária, de 33 anos.
Este tem sido o seu dia-a-dia, à porta do edifício, acudindo às pessoas que procuram uma das juntas mais atingidas pela depressão Kristin, onde morreram duas pessoas na madrugada do dia 28 de janeiro.
Começou por ajudar vizinhos, um deles ligado a uma máquina de oxigénio, e acabou a trabalhar na autarquia local.
"Eu sou boa em organização e orientação, por isso vim para aqui. Cada um faz o que pode", explica à Lusa Joana Santos, que critica o abandono a que o território tem sido votado pela capital.
"Nem precisava de ter a minha profissão, que é ser terapeuta da fala, para perceber que o país e o Governo não têm capacidade de comunicação de tragédia", acrescenta a voluntária que lamenta "os discursos confusos" e a "falta de orientações claras", em matérias de proteção civil.
"Sabíamos que iria ser uma noite complicada, com ventos de 140 quilómetros por hora. Mas, nem sabia o que é que isso significava ao certo. E aqui passaram ventos a 200 quilómetros por hora", recorda, lamentando que as autoridades não tenham "prevenido devidamente as pessoas".
"Recebemos tantos SMS, alguma vez iríamos imaginar esta tragédia", questiona.
Desde então, o trabalho não tem faltado, "pelas piores razões", mas Joana Santos elogia a solidariedade "de tanta gente" que, "de modo desinteressado, vem ajudar com tudo o que tem e sabe".
Esse é o caso de João Paulo Reis, empreiteiro da Covilhã, que aguarda pela vez de ser atendido por Joana Santos, no umbral da porta da Junta, procurando proteger-se da chuva, a espaços intensa.
"Cheguei hoje com um funcionário para ajudar. Fui ao estádio e disseram para vir para cá, o que for preciso ajudo. Tenho a carrinha cheia de materiais e estou à espera de ordens", conta.
João Paulo Reis não sabe onde irá dormir ou o que irá sequer comer. "Primeiro, quero fazer alguma coisa, depois confio que nos vão dar algum apoio", afirma.
No café junto à autarquia, que abriu hoje pela primeira vez desde a tempestade, os vizinhos procuram novidades.
"Já há eletricidade e telemóvel, o que é bom. A água é que hoje parece não ajudar", diz António Reis, morador.
Toda a zona é fronteira da Base Aérea de Monte Real, a mais importante infraestrutura NATO do continente e onde estão guardados os F-16.
Vítor Coelho é funcionário da base e elogia os militares da Força Aérea, que construíram uma relação forte com a comunidade local.
"Aquilo lá está muito mal, mas eles têm sido espetaculares. Não é por lá trabalhar, mas eles têm sido incríveis, têm dado materiais para reparar as casas, autorizaram os banhos, até dão homens para coisas mais complicados", afirmou o operador de máquinas que anda com o trator a tentar ajudar vizinhos.
Desde a semana passada, Vítor Coelho tornou-se especialista em telhas. "Nunca tinha assentado telhas e hoje já sei distinguir umas de outras e como posso resolver alguns pontos de entrada de água", relata.
A "vida é assim, temos que nos adaptar e ajudar-nos. Só assim vamos sobreviver no futuro, até porque coisas como estas vão continuar a acontecer", acrescenta.
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