Duas organizações pedem à ONU e UE medidas contra autoridades iranianas
- 09/01/2026
"Os Estados-membros da ONU e órgãos regionais, como a União Europeia, devem emitir condenações públicas inequívocas e tomar medidas diplomáticas urgentes para pressionar as autoridades iranianas a parar o derramamento de sangue", afirmaram, num comunicado conjunto as ONG de defesa dos direitos humanos Amnistia Internacional (AI) e Human Rights Watch (HRW).
As ONG "apelam às autoridades judiciais de outros países para que iniciem investigações criminais ao abrigo do princípio da jurisdição universal, com vista a emitir mandados de detenção para os suspeitos de responsabilidade", de acordo com a mesma nota.
A AI e a HRW criticaram o "clima prevalecente de impunidade sistémica" que consideram ter permitido às autoridades iranianas "cometer crimes ao abrigo do direito internacional", incluindo "homicídios, tortura, violação e desaparecimentos forçados para eliminar e punir a dissidência".
A repressão dos protestos no Irão causou a morte, indicaram as ONG, de 28 manifestantes, entre os quais várias crianças, entre 31 de dezembro e 03 de janeiro.
"As forças de segurança, incluindo a Guarda Revolucionária Islâmica e a polícia iraniana utilizaram ilegalmente espingardas, caçadeiras carregadas com balas de metal, canhões de água, gás lacrimogéneo e espancamentos para dispersar, intimidar e punir manifestantes maioritariamente pacíficos", apontaram.
Um balanço avançado na quinta-feira pela ONG Iran Human Rights indicou que pelo menos 45 manifestantes, incluindo oito menores, foram já mortos, sendo que centenas de pessoas ficaram feridas e mais de duas mil foram detidas.
Os meios de comunicação social e as autoridades iranianas, por sua vez, registaram pelo menos 21 mortos desde o início dos protestos, incluindo membros das forças de segurança.
"As pessoas no Irão que ousam expressar raiva por décadas de repressão e exigir mudanças fundamentais estão, mais uma vez, a ser confrontadas com um padrão mortal de forças de segurança que disparam ilegalmente, perseguem, prendem e espancam manifestantes", criticaram a AI e a HRW.
Face à situação, "o órgão máximo de segurança do Irão - o Conselho Supremo de Segurança Nacional -- deve emitir imediatamente ordens para que as forças de segurança cessem o uso ilegal da força e de armas de fogo", defendeu a diretora-adjunta da AI para o Médio Oriente e Norte de África, Diana Eltahawy.
"A frequência e persistência com que as forças de segurança iranianas têm usado ilegalmente a força, incluindo força letal, contra manifestantes, combinada com a impunidade sistemática de membros das forças de segurança que cometem violações graves, indicam que o uso dessas armas para reprimir protestos continua enraizado como política de Estado", sublinhou, por seu lado, o diretor-adjunto para a região da HRW, Michael Page.
Os protestos no Irão começaram a 28 de dezembro, inicialmente devido ao custo de vida decorrente de uma forte desvalorização da moeda e inflação galopante, mas espalharam-se rapidamente por todo o país, passando a exigir a queda do sistema da República Islâmica.
"As autoridades responderam com dispersões violentas e detenções em massa, com centenas de pessoas já detidas arbitrariamente e em risco de tortura e outros maus tratos", referiram as ONG, explicando que estas denúncias têm por base entrevistas a 26 pessoas, incluindo manifestantes, testemunhas oculares, defensores dos direitos humanos, jornalistas e um profissional médico, além de declarações oficiais e dezenas de vídeos 'online' verificados.
Essas "28 vítimas foram todas baleadas pelas forças de segurança, inclusive com balas de metal disparadas de espingardas", avançaram a AI e a HRW, adiantando que as autoridades negaram qualquer responsabilidade.
De acordo com as ONG, as autoridades forçaram algumas famílias das vítimas a aparecer na comunicação social estatal para dizer que as mortes tinham decorrido de acidentes ou foram responsabilidade de manifestantes e enviaram agentes para hospitais, impedindo manifestantes feridos de procurar cuidados.
"As autoridades iranianas devem libertar imediata e incondicionalmente qualquer pessoa detida apenas por participar pacificamente ou expressar apoio a manifestações", exigiram as ONG de defesa dos direitos humanos.
"Todos os detidos devem ser protegidos contra tortura e outros maus-tratos e ter acesso imediato às famílias, advogados e qualquer assistência médica de que necessitem", concluíram.
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