Dois sismos de 4,1? "Interessante a nível geológico, mas não alarmante"
- 19/02/2026
O abalo não provocou danos materiais nem pessoais, mas fez soar (novamente) o alerta. O risco para um evento semelhante ao terramoto de 1755 é real, como defendem especialistas e peritos em sismologia.
O Notícias ao Minuto foi tentar perceber melhor o fenómeno junto do professor Filipe Rosas, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e do Instituto Dom Luiz.
O investigador começou por realçar que, para já, "os dados que temos ainda são muito preliminares". Mas a primeira coisa a registar "é a circunstância da zona [onde ocorreu o sismo, a quatro quilómetros de Alenquer] ser uma zona com alguma sismicidade histórica".
"É a chamada Zona do Vale Inferior do Tejo. Tem sismos conhecidos com magnitudes estimadas entre 6 e 7. Portanto, são falhas que mexem muito devagar e têm períodos de recorrência longos. Para terem uma ideia, há registos históricos de um sismo em 1344 nesta zona, outro em 1531 e, já no século XX, em 1909", lembrou.
Isto é, "são falhas que, do ponto de vista geológico, parecem enraizadas nas rochas mais antigas”, não se formaram agora, são “reativações de estruturas mais antigas, do período alpino".
"A maior parte das falhas que nós temos no nosso território, com sismicidade ativa, respondem à aproximação de duas grandes placas tectónicas. Uma mais a norte, que é a placa euro-asiática, e outra mais a sul, que é a placa africana. Por isso, é o mesmo movimento entre as placas que deu origem, por exemplo, à cadeia alpina, à cadeia de montanhas dos Alpes. O que acontece é que o material mais da superfície da terra, mais frio, mais crocante e estaladiço, está a ser comprimido entre estas duas placas e, quando atinge o seu limite de resistência, as placas estalam, digamos assim, rompem e formam as falhas tectónicas", explicou o docente universitário, reiterando que as falhas do Vale do Tejo são "falhas que se mexem com uma periodicidade bastante grande e mexem a uma taxa relativamente baixa, de alguns milímetros por ano e dão origem a estes sismos historicamente conhecidos".
Dois sismos seguidos de 4,1? "Interessante a nível geológico, mas não anormal"
O que aconteceu hoje, de dois sismos seguidos – com dois minutos de diferença – de magnitude 4,1 é que é mais intrigante. Apesar de não ser caso único.
"O segundo sismo não é uma réplica porque tem uma magnitude ligeiramente superior à do primeiro. Pode ser um reajuste na dissipação das tensões tectónicas, ou seja, a primeira falha mexe e carrega uma outra que está na proximidade e suscita o triggering dessa outra, o espoletar da movimentação dessa outra. Por isso, quando uma falha mexe, a distribuição da tensão das forças vai se modificar, porque há uma libertação de energia de uma das falhas, e essa libertação é comunicada a uma falha nas proximidades que mexe também. E se a segunda falha, neste processo de dissipação se formam sismos à posteriori de um sismo inicial com magnitude superior, em sentido estrito, não são considerados réplicas, são considerados um novo sismo", esclareceu o especialista, sublinhando que este "fenómeno pode ser interessante do ponto de vista técnico, geológico, tectónico, mas não tem nada de anormal, nem nada de alarmante".
Comum é também o facto de haver réplicas após estes sismos. "As réplicas são sempre a consequência da dissipação da energia sísmica. Imagine que está a apertar uma bola de plástico na sua mão. Se fizer muita força, a partir de um certo limite, que é o limite de elasticidade da bola, ela vai-se partir mas, depois, a maior parte da energia que estava a fazer com a mão é dissipada e a sua mão relaxa. No entanto, pode haver alguns reajustes, alguns fragmentos que ficam fora do sítio, algumas partes que vão partir na sequência disso, que vão mexer", comparou, adiantando que "é uma espécie de último extrator da dissipação da energia, uns reajustes finais” e que estes são, “por definição, sempre de magnitude inferior".
Lisboa e Vale do Tejo têm um "risco sísmico associado"
Já sobre a frequência dos sismos, Filipe Rosas salienta que o que é importante recordar é que estes "mais uma vez mostram que nós temos uma área, que é a de Lisboa e Vale do Tejo, densamente povoada, que tem um risco sísmico associado". Desta forma, "todos os processos da decisão do ordenamento do território, decisão política relacionada com a legislação, a construção anti-sísmica" deviam ser revistos.
"O facto de existirem estes sismos não significa necessariamente – atenção, não quer dizer que não possa acontecer – que vem aí um muito grande. Isso não existe. O que se sabe é que existe sismicidade numa zona onde as falhas são conhecidas, onde já houve sismos históricos, até de magnitude mais elevada, de 6, 7, como já disse", reiterou.
No entanto, "a maior parte dos grandes sismos destrutivos ocorre nas zonas de fronteira de placas" e "estas falhas [como a de Lisboa e Vale do Tejo] não estão em zonas de fronteira de placas".
"Nós estamos próximo de uma zona de fronteira de placas, que é a zona sul do Algarve, que vem desde o ponto triplo dos Açores até a Gibraltar. Aí é onde podem existir sismos de grande magnitude, o sismo de 1755 teve uma magnitude de 8.8 estimada. É um sismo dessa ordem de grandeza. Enorme e difícil de explicar", esclareceu, garantindo que os que ocorreram hoje são "completamente diferentes".
Impacto do mau tempo das últimas semanas
Questionado sobre a possibilidade dos sismos terem sido mais sentidos devido ao facto dos solos estarem mais instáveis, devido ao mau tempo das últimas semanas, o perito utilizou uma analogia com um martelo.
"Quando se tem um grande martelo, daqueles das obras, e dá-se com ele numa parede. Esta fica a vibrar. É o que chamamos ondas sísmicas. As ondas sísmicas podem ser mecânicas e elásticas. Propagam-se à custa da vibração das partículas materiais, que constituem o meio. Quer seja constituído por água, por substrato rochoso, ou por ar. As ondas sonoras produzem as vibrações das partículas dos átomos e das moléculas que constituem o ar e isso permite que nós comuniquemos. E as ondas sísmicas são ondas sonoras, só que se propagam no substrato rochoso em vez de se propagarem no ar", começou por explicar, revelando que "essas ondas, como todas as outras ondas de qualquer tipo, podem entrar em ressonância", ou seja, "viajam a uma velocidade maior se o meio for mais denso " e , "se o meio for mais polvorento, se estiver cheio de água e cheio de sedimentos, as ondas podem variar a sua velocidade e podem entrar em ressonância".
Isto é, as ondas têm cristas e têm cavas. Quando as cristas coincidem e as cavas coincidem, o sinal, a amplitude da onda aumenta. Maximiza. E, portanto, a amplitude do abalo também aumenta".
Portanto, segundo Filipe Rosas, "o que acontece nas zonas como Vale do Tejo, zonas cheias de sedimentos, polvorentas, zonas tipicamente de rocha mole, é que esses sítios são mais propensos a essa ressonância, a essa maximização do sinal da onda que aumenta, faz com que a sua amplitude aumente e, portanto, aumenta o abalo".
"Para mesma quantidade de energia que está a ser dissipada, o efeito de abalo é maior. E, portanto, o que acontece é que na zona da Expo, nas zonas do Vale do Tejo, muitas vezes ocorrem esses fenómenos de ressonância sísmica. Essas zonas abanam mais e têm uma maior perigosidade sísmica", disse.
Resumindo, "não é só a energia que se liberta, são também as características do meio rochoso onde a onda se propaga que podem ter influência na magnitude e que pode ter importância do ponto de vista do risco", o que pode explicar que uma pessoa que está nos Olivais sinta menos o sismo do que uma pessoa que está na Expo" mas "não explica que uma pessoa sintam o sismo no Alentejo, nem tem nada a ver com o clima, a não ser pelas circunstâncias do facto dos solos estarem saturados em água e, potencialmente, o fenómeno da ressonância poder aumentar".
Já sobre o facto dos sismos de hoje terem ocorrido precisamente dois dias depois de há um ano a Grande Lisboa ter sido abalada por um tremor de terra de magnitude 4,7, o especialista realça que não passa de uma curiosidade.
"Trata-se de uma coincidência. Os sismos de hoje não têm nenhuma ligação com o sismo do ano passado. São ambos sismos relacionados com aquilo que nós chamamos de ciclo alpino, que estão relacionados com o movimento das placas que já se formaram há muitos anos mas, de resto, não têm nenhuma ligação, não há razão para os associar", assegurou.
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