Do vídeo apagado ao "ordenado": Resposta à Kristin põe Governo em xeque
- 03/02/2026
A crise gerada pela tempestade Kristin tem deixado vários ministros do Governo de Luís Montenegro debaixo de fogo pela comunicação que tem feito e pela forma como tem gerido toda a situação.
O atraso no socorro às populações afetadas - muitas continuam sem luz, água e comunicações -, a falta de meios no terreno e o 'desaparecimento' de alguns ministros neste momento gerou uma onda de contestação.
Esta terça-feira, o primeiro-ministro assegurou que o Governo está concentrado em "resolver problemas e não em responder a críticas", admitindo que é difícil resolver "os problemas todos e ao mesmo tempo".
Ainda assim, a tempestade, que fez pelo menos dez mortes, diretas e indiretas, ainda está a 'sacudir' o Executivo de Montenegro, e os percalços políticos parecem multiplicar-se dia após dia.
A mais recente polémica envolve o ministro da Economia e da Coesão Territorial.
"É suposto" vítimas "terem tido o ordenado do mês passado"
As declarações estão a ser alvo de críticas e surgiram na noite de ontem, durante uma entrevista à SIC, quando Manuel Castro Almeida anunciou que o Governo conta que o subsídio anunciado para as vítimas da tempestade Kristin chegue aos bolsos das mesmas no final do mês de fevereiro. Até lá, e face às necessidades imediatas, sugere que as pessoas utilizem o "ordenado do mês passado".
De acordo com o governante, "há uma norma que permite garantir a todas as pessoas mínimos de sobrevivência: 537 euros por pessoa ou 1.075 euros por agregado familiar". No entanto, confrontado com o facto de as populações precisarem dessa ajuda no imediato, Castro Almeida afirmou que as verbas de emergência devem chegar apenas no final de fevereiro.
"Agora é suposto terem tido o ordenado do mês passado (...) agora é que podem ficar sem condições de sobrevivência. Esse dinheiro [do apoio] vai ser disponibilizado muito brevemente", insistiu.
Depois da "aprendizagem coletiva", ministra "não sabe o que falhou"
A ministra da Administração Interna tem estado sob os holofotes pela forma como tem acompanhado e gerido a crise. Primeiro, foi criticada pela sua ausência no terreno, que veio a justificar afirmando que tem estado a trabalhar "em contexto de invisibilidade, no gabinete".
Com as críticas a subir de tom, Maria Lúcia Amaral saiu do gabinete e foi repetindo, em diferentes dias e contextos, a mesma expressão para se referir à depressão Kristin: "Aprendizagem coletiva".
Ontem, de visita a Alvaiázere, a ministra assumiu não saber o que falhou no atraso ao apoio às populações.
"Não sei o que é que falhou, não lhe posso dizer exatamente o que é que falhou porque o sistema é complexo e as entidades coordenadoras do sistema de Proteção Civil têm tido todo o cuidado de garantir a colaboração entre todos", respondeu aos jornalistas, quando confrontada com o facto de já terem passado vários dias desde a depressão Kristin e ainda não haver meios suficientes nos locais afetados.
Uma resposta, aliás, que foi reforçada mais tarde pelo ministro da Economia: "Será fácil dizer que nem tudo foi perfeito, é bonito dizer. Mas se me perguntar assim: ‘O que é que falhou?’. Eu também não lhe sei dizer", admitiu Castro Almeida.
O vídeo que foi entendido "de uma forma que não era pretendida" - e acabou apagado
O ministro da Presidência foi alvo de várias críticas depois de ter partilhado nas suas redes sociais um vídeo da gestão das operações de socorro às regiões afetadas pela depressão Kristin.
Nas imagens, capturadas com recursos do Governo e partilhadas enquanto o país está em estado de calamidade, tinha inclusive uma marca de água profissional com o nome de António Leitão Amaro.
Nelas, via-se o governante em vários ângulos e situações, aparentemente a gerir os efeitos devastadores do mau tempo que atingiu Portugal e que já ceifou várias vidas.
Algumas horas (e muitas críticas) depois, Leitão Amaro explicou que decidiu apagar o vídeo das suas redes sociais porque a publicação foi "entendida de uma forma que não era pretendida".
"Tinha como objetivo clarificar e responder a uma pergunta que tinha sido colocada várias vezes pelos jornalistas. Dada a interpretação gerada, foi retirada porque a última coisa que é preciso fazer é criar ruído e más interpretações, sentimentos de incompreensão…", explicou o governante.
Primeiro-ministro refere-se àqueles "que não evitaram a trágica consequência de perderem a vida"
O próprio primeiro-ministro tem sido alvo de duras críticas pela forma como, ao expressar as condolências às famílias das vítimas da tempestade, afirmando que estas "não evitaram a trágica consequência de perderem a vida".
"Quero reiterar o nosso sentimento e as nossas condolências para com as famílias daqueles que não evitaram a trágica consequência de perderem a vida em função destes episódios adversos", disse na sua intervenção no domingo, que mereceu críticas, por exemplo, do candidato presidencial e líder do Chega.
Hoje, confrontado com estas palavras, e questionado se, com esta frase, estava a culpar as pessoas que caíram dos telhados na tentativa de reparar os danos da tempestade, respondeu apenas: "Nem por sombras".
Muitos têm comparado a forma como o Governo tem gerido esta crise com a maneira como reagiu aos incêndios, em agosto. Recorde-se que, nessa altura, o primeiro-ministro e líder do PSD foi muito criticado por ter mantido a festa do Pontal, onde apareceu a celebrar com vários ministros enquanto o país ardia.
Foi também nessa altura que a ministra da Administração Interna, Maria Lúcia Amaral, enfrentou a primeira grande crise do seu mandato.
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