DeLorean: Um carro de sucesso no cinema, mas nem por isso no mercado
- 17/01/2026
Um dos carros icónicos dos anos 1980 é o DeLorean DMC-12. Não pelo seu sucesso comercial (que não teve) ou pela sua qualidade (que foi questionável), mas sim pela sua presença na trilogia 'Regresso ao Futuro'. E é dele que vamos falar na rubrica Estrelas de Quatro Rodas.
No filme, o DeLorean DMC-12 era uma máquina do tempo… que esteve para ser muito diferente (e bem menos entusiasmante). Segundo a Far Out Magazine, o guião original era uma espécie de conversor de energia mantido dentro de um frigorífico. Sim, leu bem. No fundo, a máquina do tempo que os autores começaram por idealizar era um frigorífico.
O produtor, Steven Spielberg, estava preocupado com a possibilidade de as crianças que vissem o filme tentarem viajar no tempo a partir do interior dos frigoríficos - que, na altura, tinham uma tranca para evitar que os alimentos se estragassem. E, assim, a decisão foi escolher um DeLorean DMC-12 de 1982 como máquina do tempo.
Porquê? Bob Gale, guionista, explicou há alguns anos essa opção em entrevista à CNN nos Estados Unidos da América: "Para nós, havia algo perigoso, algo contra-cultura, algo tão deslumbrante só no quão bonito era esse carro. E adorávamos as portas asa de gaivota".
A escolha, diríamos, foi acertada: é um coupé de dois lugares muito particular, com as suas portas ao estilo asa de gaivota e perfil desportivo, que não passa despercebido nem indiferente só por si. Associá-lo a um conceito e uma estória cinematográfica de ficção científica foi reunir os ingredientes para criar um ícone da cultura popular. Ainda que, como modelo automóvel de produção, deixasse muito a desejar - já lá vamos mais tarde.
O carro do filme (na verdade, foram produzidos três e com variações visuais) é reconhecível como um DeLorean DMC-12, mas foi altamente modificado e mais parecido a uma nave espacial avançada. Um dos destaques inevitáveis é o reator nuclear 'Mr. Fusion Home Energy Reactor' na zona do motor.
Este usava gasolina, plutónio, raios e lixo doméstico para dar a energia necessária para viajar no tempo e espaço, diz o Petersen Automotive Museum - que exibe o carro na sua coleção. E, na verdade, não é tão veloz como se possa pensar: o conta-quilómetros exibido acabava nos 160 km/h.
No argumento, o veículo pode ser controlado remotamente com um comando - como se fosse um carro de brincar - e o interior tem toda uma panóplia de botões, tubos, circuitos e ecrãs (com as informações sobre as datas). Para além, claro, do capacitador de fluxo essencial para o funcionamento da máquina do tempo.
Outra curiosidade passa pelo som: o modelo recorreu a um motor V6 (do qual falaremos mais depois). No entanto, segundo o site da Siemens, a produção decidiu substituir os sons pelos gravados de um motor V8 da Porsche - mais agressivo. Já o Motor Trend conta que o veículo adaptado foi uma criação de Larry Paull e Michael Fink, que também trabalharam em projetos como 'A Guerra das Estrelas'.
Desde um tampão de um Dodge a peças de um helicóptero, o carro deixou de ser apenas um modelo de produção modificado para ser um conceito futurista e excêntrico - como também é a personagem do 'cientista louco' Emmett Brown (Christopher Lloyd) que o criou no filme.
De referir que a trilogia 'Regresso ao Futuro' tornou-se num franchise que se diversificou a outras plataformas - tal como o DeLorean retratado, que transitou por exemplo para a série animada ou jogos de vídeo.
Menos de 10 mil exemplares
O DeLorean DMC-12 teve uma curta história no mercado automóvel. O primeiro protótipo foi revelado em 1976, mas a produção decorreu apenas entre 1981 e 1982 e foi o único modelo da DeLorean Motor Co., com apenas 9.000 viaturas produzidas - sobretudo para o mercado americano. A CNN americana escreve que se estima que restem cerca de 6.000.
A fábrica estava na Irlanda do Norte. O automóvel tinha motor V6 de 2,849 centímetros cúbicos criado para modelos da Peugeot, Renault e Volvo montado na traseira como tantos carros desportivos. Era capaz de atingir os 130 cv de potência nos Estados Unidos da América e de 150 cv na Europa (a ideia original era de 203 cv). A caixa podia ser manual de cinco velocidades ou automática de três velocidades.
Com portas ao estilo asa de gaivota, painéis em aço inoxidável, postura baixa e design agressivo que não passava despercebido em estrada. De facto, o DMC-12 tinha todas as premissas visuais de um carro desportivo apelativo. Pelo menos, em teoria.
No papel, acabou por não durar muito. Também segundo a CNN americana, desde logo falhou o preço pretendido de 12 mil dólares - o preço viria a atingir quase 30 mil dólares em 1982, muito acima de concorrentes mais reputados.
Era um carro com excesso de peso e falta de potência para um desportivo. E o comportamento aerodinâmico deixava muito a desejar - um engenheiro aeroespacial que trabalha na Siemens descreve no site da tecnológica que os seus testes apontam para um coeficiente de arrasto de 0,54. O construtor teve até de alterar os seus planos para usar um chassis em compósito leve e forte. A solução veio da Lotus e de Colin Chapman, na forma de um chassis em aço adaptado do Esprit.
Apesar de ser um modelo com design desportivo, demorava mais de dez segundos a acelerar dos 0 aos 100 km/h, e a manobrabilidade também deixava muito a desejar.
E a situação da empresa não era a melhor. Escreve ou Museu do Automóvel South Ward, da Nova Zelândia, que existiam problemas financeiros graves. Para além disso, o seu fundador, John DeLorean enfrentou acusações de tráfico de droga em 1982 - acabando por ser ilibado em 1984.
Em suma, o DeLorean DMC-12 é o exemplo de um carro que falhou em tudo no mercado, mas o seu aproveitamento pela cultura popular - e pela indústria cinematográfica - acabou por o tornar num ícone automóvel.














