"Dei voz a quem durante 50 anos foi empurrado para debaixo do tapete"
- 21/01/2026
Marta Martins Silva não planeou tornar-se na guardiã das memórias dos que viveram a guerra colonial de perto. Mas foi isso que acabou por acontecer. A paixão pelo tema surgiu "de mansinho", ao longo de 19 anos de jornalismo, onde viu "homens feitos chorar" ao partilharem, pela primeira vez, os traumas de uma juventude (e inocência) deixada em África.
Após o sucesso de "Madrinhas de Guerra", "Cartas de amor e de dor" e "Retornados", a autora regressa agora ao tema com "África (para sempre) minha", da Contraponto. Se as obras anteriores se focavam na dor da partida e do combate, este novo trabalho é um tributo ao "amor" por um país a que muitos portugueses ainda chamam de "chão", "casa" e "vida".
Entre o rigor da investigação jornalística e a sensibilidade literária de uma escritora de mão cheia, Marta Martins Silva resgata do silêncio centenas de "pequenos protagonistas" da História e dá-lhes o ombro, a voz e o palco que nunca ninguém lhes deu.
Em entrevista ao Notícias ao Minuto, a agora editora da Bertrand recorda os casos que a emocionaram e que lhe tiraram o sono, reflete sobre a nostalgia de um "passado que não chegou a ser futuro" e explica por que razão decidiu trocar as redações pelo mundo dos livros, mantendo sempre o foco no mesmo lugar: a escuta do outro.
É o quarto livro que escreve sobre África, o Império Português, o Ultramar. Como nasceu a paixão por esta temática?
É curioso que foi uma paixão que foi surgindo de mansinho e se foi instalando sem que eu percebesse logo que mais do que um tema de trabalho, jornalístico e literário, acabaria por se tornar uma missão. Mas vamos ao início: aproximei-me do tema da guerra colonial, primeiro, através do meu trabalho como jornalista, em que durante 15 anos e num ritmo muito regular ouvi e registei centenas de histórias de homens que foram enviados para a guerra em África entre 1961 e 1974. Foi a primeira vez que vi homens feitos chorar, com as memórias de tempos de muita saudade (de casa) e muita perda (da sua própria inocência em relação à guerra e da vida de muitos camaradas). Percebi nessas entrevistas que a maioria destes homens tinha passado uma vida sem falar a ninguém sobre a guerra, mas que estes fantasmas os mantinham cativos – que era preciso dar voz a estas memórias, não ignorando uma parte importante (e das mais traumáticas, a par da Descolonização) da nossa história contemporânea. Surgiu o convite para escrever o meu primeiro livro ("Madrinhas de Guerra", 2020), sobre a correspondência entre os militares em África e as mulheres com quem se correspondiam, depois o segundo ("Cartas de amor e de dor", 2021), sempre tendo como base os testemunhos dos protagonistas daquele tempo e como fio condutor a História do país.
Quando decidi avançar para o terceiro livro ("Retornados – e a vida nunca mais foi a mesma", 2023) percebi que ele já germinava há anos dentro de mim sem que eu me tivesse apercebido. A minha família materna viveu em África e regressou com a descolonização, uma história que sempre fez parte dos encontros em família, mas que infelizmente nunca registei. Através de dezenas de testemunhos de pessoas que, à semelhança do que aconteceu com 500 mil portugueses que foram obrigados a deixar uma terra que consideravam sua (muitos portugueses nasceram em África) e retornar a um sítio a que não sentiam pertencer, quis contar histórias de dor, perda, resiliência e superação. Simultaneamente sinto que homenageei os meus avós, pessoas de trabalho e dignidade, que apesar de tudo conseguiram recomeçar as vezes necessárias, mantendo sempre a família unida mesmo em condições adversas.
Os meus livros são uma homenagem a todos os pequenos protagonistas da História que foram esquecidos pelo caminho e a quem não devem ser imputados os erros de quem os governava
E como surgiu o mais recente livro "África (para sempre) minha"?
Depois de escrever o "Retornados – e a vida nunca mais foi a mesma" (Contraponto, 2023) recebi centenas de mensagens através das minhas redes sociais de pessoas que partilharam comigo o que sentiram ao ler o meu livro. Algumas foram tão emotivas que ainda me comovo quando me lembro. A maioria agradecia por ter dado voz a uma parte da população que durante 50 anos sentiu que foi 'empurrada para debaixo do tapete' e que nunca ninguém quis ouvir. E, com essas mensagens, percebi que ainda havia espaço – na minha vontade e na vontade dos meus leitores – para continuar a escrever sobre África. Depois de um livro tão duro e doloroso como o "Retornados", quis fazer uma obra mais abrangente: que além da dor focasse também o amor destas pessoas por África. Por uma África que foi casa, que foi chão, que foi vida. Por uma África que muitos não esqueceram a ponto de terem tido necessidade de regressar, de procurar nem que fosse por uma última vez a peça que faltava no puzzle das suas vidas.
Ainda assim, este livro não evita a História e quer a Guerra Colonial quer a Descolonização são abordadas – e além de testemunhos de refugiados (pessoas que nasceram em África e a tiveram de abandonar na altura do retorno) e retornados (pessoas que nasceram em Portugal mas viveram em África tantos anos que sentiam o continente como a sua terra), juntei testemunhos de antigos combatentes (também eles, à sua maneira, se apaixonaram por África durante os anos em que duraram as suas comissões militares – tanto que em muitos casos alguns acabaram por regressar).
É um livro tributo a esta África que os portugueses viveram e amaram, sem qualquer julgamento político nem conotação partidária, que é tudo aquilo que não pretendo com os meus livros. Aquilo que faço é ajudar a dar voz a quem durante muito tempo não a teve, ou sentiu que não podia ou devia falar sobre o passado sob pena de lhe ser apontado o dedo. Os meus livros são uma homenagem a todos os pequenos protagonistas da História que foram esquecidos pelo caminho e a quem não devem ser imputados os erros de quem os governava.
Já falou com dezenas (quiçá, centenas?) de portugueses que se viram obrigados a sair de África no fim da guerra colonial. Há um sentimento em comum a esta comunidade? Ou polvilham por ela diferentes emoções?
Sim, acho que já podemos falar em centenas [risos]. Na altura em que comecei a procurar testemunhos para o "Retornados – e a vida nunca mais foi a mesma" houve pessoas que me disseram 'Marta, mas para que é que quer ouvir a minha história se ela é comum à de tantos milhares de portugueses?'. E eu dizia que era precisamente por isso, por haver tantas pessoas com um passado comum era muito importante contar estas histórias, mas que por outro lado cada história é única, é como uma impressão digital.
Diria que há um sentimento comum a esta comunidade, que é um grande sentimento de nostalgia de um passado que não chegou a ser futuro; de um grande sentimento de perda (as pessoas foram 'arrancadas' à única terra que conheciam, em muitos casos, onde tinham não só os bens mas também as memórias); de um grande sentimento de desconforto em relação ao rótulo do retornado com que uma parte da sociedade portuguesa os recebeu. Por outro lado, se há quem sinta e ainda lide com uma revolta difícil de digerir (até porque estas pessoas sentem que houve um silêncio muito grande sobre as suas histórias) e uma tristeza grande (uma entrevistada disse-me que nunca mais foi feliz como em África… e saiu de lá com 15 anos, para que se perceba a intensidade desta frase); outras pessoas conseguiram sobreviver ao que aconteceu, seguir em frente – sem esquecer, obviamente, o passado, e até lembrar com um sorriso aquela África onde foram tão felizes apesar da dor provocada pela perda e pelo abandono. Penso que um psicólogo diria que cada pessoa tem a sua própria forma de viver o trauma e de o ressignificar. Aquilo que sinto é que independentemente da forma como vivem o que lhes aconteceu, falar sobre isso – e sentir que há quem as queira ouvir a falar sobre isso – é fundamental.
Ao fim de quase duas décadas como jornalista decidiu abraçar outra carreira. Foi a paixão pelos livros que a moveu?
Senti que o meu tempo no jornalismo tinha terminado (embora me pareça que o jornalismo e a forma de ver a vida que o jornalismo nos ensina fica sempre connosco), depois de 19 anos muito felizes. À Bertrand trouxe-me o desafio lançado pelo Rui Couceiro, que acreditou que eu poderia fazer sentido neste lugar, a minha paixão pelos livros que nasceu ainda antes de eu saber ler e se intensificou quando comecei eu própria a escrever. Trouxe-me ainda uma grande vontade de sair da zona de conforto e perceber quem era a Marta fora de uma redação, que foi o meu habitat durante quase vinte anos. Tem sido um ano intenso, mas muito feliz, porque descobri que o meu lugar é, seja como jornalista seja como editora, definitivamente o lugar da escuta do outro.
Um livro tem tantos mundos dentro, que contribuir para o ajudar a 'nascer' é possibilitar que transforme vidas, que deixe marcas, que ajude pessoas. Nem todos os livros mudam a vida dos leitores, mas raramente um livro deixa alguém indiferente
Como é abraçar também as histórias contadas por outras pessoas?
Nunca pensei emocionar-me tanto com livros que não fui eu a escrever, mas a verdade é que isso acontece. Acompanhar o processo de um livro, desde a primeira frase até à última, e depois acompanhar o sonho do autor (a apresentação ao público, ver o livro nas livrarias, ler os primeiros comentários sobre o que foi escrito) é verdadeiramente precioso. Porque envolve uma equipa enorme que ajuda a fazer acontecer (além do autor e do editor, toda a equipa de produção, revisão, design, comercial, comunicação) e porque um livro é sempre uma viagem que vai acrescentar alguma coisa à vida de quem o ler. Um livro tem tantos mundos dentro, que contribuir para o ajudar a 'nascer' é possibilitar que transforme vidas, que deixe marcas, que ajude pessoas. Nem todos os livros mudam a vida dos leitores, mas raramente um livro deixa alguém indiferente.
Nos seus livros nota-se esta dualidade. A precisão do jornalismo embalada pela sensibilidade literária. Acha que os seus livros vão ter sempre esta amplitude?
Esta dualidade tem sido natural durante o processo de escrita – não é de todo uma coisa pensada. Acredito que nunca me conseguirei desligar da precisão dos testemunhos (pelo respeito que tenho pela confiança e generosidade dos meus entrevistados) e da precisão em relação ao período/momento/época histórica de que falo, porque sinto que os meus livros também têm essa missão: contextualizar aquilo que as pessoas viveram - e o rigor é fundamental num livro de não ficção como aqueles que escrevo.
Há algum caso que retrate neste livro que gostasse de destacar?
Este é um exercício que me custa sempre muito, porque todas as pessoas que entraram no livro fazem dele aquilo que é. Mas destacar o Carlos Santos, que contactei pela primeira vez através das redes sociais depois de ver um post dele sobre Angola – e perceber que à medida que o Carlos me ia relatando a sua vida em África ia (re)construindo a sua própria história familiar – e a felicidade que esse processo lhe trouxe; a família Vicente que se juntou na casa da irmã mais velha para me receber e partilhar comigo tantas e tantas histórias; a Paula Ferreira da Silva que me fez arrepiar quando me relatou a sensação de regressar a África décadas depois; a Paula Frias, que só depois de dois anos em Portugal ganhou coragem de perguntar à mãe quando voltariam a Angola (e nunca voltou); a Olga Albuquerque, que criou na localidade onde a fazenda do seu pai foi arrasada pela guerra a Fundação Cuerama, com luz elétrica, escola para as crianças, ensino profissional para os adultos e que acaba por simbolizar o verdadeiro transformar a dor em amor, a perda em esperança no futuro. Mas todos, todos foram importantes para mim, de outra forma não estavam no livro.
Ao longo destes anos de pesquisa, houve algum caso que a deixasse sem dormir?
Há um caso que relato no "Retornados – e a vida nunca mais foi a mesma" que me impressionou bastante. O António, que foi mobilizado para a guerra colonial em Angola, onde vivia desde a infância, ficou mutilado na guerra (cego e sem as duas mãos) e anos mais tarde, na altura da guerra civil em Luanda, foi obrigado a entregar a filha bebé a um desconhecido no aeroporto de Luanda para que a levasse aos avós, no Lobito, numa altura em que a capital angolana estava a ferro e fogo e temia pela sua sobrevivência. Só voltaria a ver a filha em Portugal. Este caso mistura os horrores da guerra colonial com os horrores do retorno, mas também o escolho por um motivo: o António é uma pessoa extraordinária, e a sua história o verdadeiro significado de resiliência e dignidade.
E não vai parar por aqui com certeza [risos]. Já tem um novo livro na manga?
Há uns anos, numa sessão de apresentação de um livro do Dan Brown em Portugal, a que fui como jornalista, alguém lhe perguntou para quando seria o próximo livro. Com graça, o escritor respondeu que isso era a mesma coisa do que perguntar a uma mulher que acabou de dar à luz quando teria o próximo bebé [risos]. A verdade é que tenho de trabalhar no meu Doutoramento em História Moderna e Contemporânea, é uma das prioridades para este ano, mas também é um facto que as mensagens continuam a chegar às minhas caixas de correio das redes sociais, os meus leitores (a quem tenho de agradecer do fundo do coração!) estão sempre a incentivar-me para escrever o próximo [livro] e as ideias são como as conversas, que por sua vez são como as cerejas: depois de uma vem outra e outra e outra… Prometo anunciar, mas preciso de uma gestação com tempo.
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