Cremação deliberada mais antiga de África tem 9.500 anos
- 03/01/2026
Uma cremação deste tipo é "altamente incomum" no registo arqueológico africano e contribui para "a crescente evidência de visões sociais complexas do mundo entre os caçadores-recoletores da África tropical", de acordo com um estudo liderado pela Universidade de Oklahoma (EUA) e publicado na revista Science Advances.
Vestígios de cremações deliberadas são raros entre os caçadores-recoletores anteriores ao Holocénico Médio, e o mais antigo, confirmado pela presença de uma pira, juntamente com outros indicadores, data de há cerca de 3.300 anos, do Neolítico Pastoral.
O estudo, agora publicado, analisa os vestígios da "cremação mais antiga de África e da pira funerária adulta mais antiga do mundo", referiu à agência Efe Jessica Cerezo-Román, autora principal do artigo.
Tratou-se de um evento meticulosamente planeado, cujos vestígios foram encontrados num sítio arqueológico na base do Monte Hora (Malawi).
O grupo que o realizou regressou posteriormente ao local para acender outra grande pira.
A investigação revelou um complexo ritual funerário, nunca antes documentado desta forma entre caçadores-recoletores, que "reflete ligações ancestrais com a terra e com ideias de memória e comemoração", acrescentou a investigadora.
A equipa utilizou métodos arqueológicos, geoespaciais, forenses e bioarqueológicos para reconstruir a sequência de eventos com grande detalhe.
A cremação, de acordo com o estudo, começou com a recolha de pelo menos 30 quilos de madeira morta e erva para criar uma grande pira, "o que exigiu um esforço comunitário considerável", escreveram os autores.
Os participantes alimentaram ativamente o fogo durante a cremação e adicionaram combustível continuamente para manter as altas temperaturas, que podem ter ultrapassado os 500 graus Celsius, como sugere a análise das cinzas e fragmentos ósseos.
A descoberta de ferramentas de pedra na pira funerária sugere que foram adicionadas ou incorporadas nos restos mortais em combustão, talvez como objetos funerários.
A análise dos 170 fragmentos ósseos humanos escavados na pira indica que a pessoa cremada era uma mulher adulta entre os 18 e os 60 anos de idade e com pouco menos de 1,5 metros de altura.
O corpo foi cremado antes da decomposição, provavelmente poucos dias após a morte, e marcas de corte em vários ossos dos membros sugerem que partes do corpo foram removidas.
Embora a fragmentação dos restos mortais dificulte a reconstrução da posição do corpo, "a distribuição dos elementos, que são quase inteiramente ossos longos, sugere que os braços e as pernas estavam fletidos ou em posição de boxe", referiram os autores do artigo.
O ritual é "muito diferente" dos outros sepultamentos do sítio arqueológico, não se sabendo "porque é que esta mulher foi queimada numa pira tão grande e espetacular", observou Cerezo-Román.
No entanto, parece que, em vida ou na morte, "ela desempenhou um papel significativo na sociedade que a tratou desta forma na altura da sua morte", acrescentou.
Além disso, o crânio não foi encontrado, o que poderá ter ocorrido antes da cremação, "possivelmente como parte de um ritual funerário em que os fragmentos ósseos eram retirados como 'recordações', associadas a práticas comemorativas e memoriais", indicou ainda.
Reconstruções espaciais do local revelaram que o grupo regressou ao mesmo local, onde acendeu uma outra fogueira de grandes proporções, embora não tenha sido encontrado qualquer vestígio humano associado a esta nova fogueira.
Esta sociedade de caçadores-recolectores possuía "um padrão funerário e comemorativo mais complexo do que pensávamos", salientou Cerezo-Román.
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