Comboio de tempestades trouxe "incerteza". Qual o impacto económico?
- 07/02/2026
Ainda é cedo para fazer contas ao impacto económico do comboio de tempestades que passou pelo território nacional, apesar de o primeiro-ministro, Luís Montenegro, estimar que já ultrapassa os quatro mil milhões de euros. Carlos Brito, presidente da Direção Regional Norte da Ordem dos Economistas, destaca, em declarações ao Notícias ao Minuto, a "elevada incerteza".
"Neste momento, é possível fazer uma estimativa preliminar do impacto das recentes intempéries (em particular, da tempestade Kristin) no PIB português, embora ainda com elevada incerteza", disse o economista, apontando que as "estimativas mais pessimistas apontam para uma perda que poderá chegar a 1% do PIB, o que me parece ser, neste momento, um pouco exagerado, até porque ainda estamos no início do ano".
Por isso, sublinha, "quaisquer estimativas devem ser interpretadas com cautela pois parte da destruição de capital não se traduz automaticamente numa redução da atividade de exploração, enquanto a despesa associada à reconstrução tenderá a gerar, nos trimestres seguintes, um efeito de compensação sobre a atividade económica".
"Admitindo que não haverá danos significativos nas próximas semanas, em termos anuais é plausível que o crescimento económico sofra um abrandamento moderado, sendo parcialmente recuperado à medida que forem avançando os processos de reposição de infraestruturas e de capital produtivo", explicou Carlos Brito.
Seja como for, o primeiro-ministro estimou, na sexta-feira, que os prejuízos causados pelo mau tempo já ultrapassam os 4.000 milhões de euros, assegurando que o Governo vai recorrer a "todos os instrumentos financeiros" possíveis.
"Nós estamos a usar todos os instrumentos e usaremos todos os instrumentos financeiros para poder fazer face a um nível de prejuízos que nós estimamos, neste momento, já ultrapassou os quatro mil milhões de euros", afirmou.
Os setores mais afetados
Carlos Brito explicou ainda que os "dados disponíveis indicam que o impacto económico das recentes intempéries não foi homogéneo, concentrando-se em setores particularmente expostos a fenómenos climáticos extremos".
"Em primeiro lugar, destaca-se o agroalimentar, com perdas significativas de produção, destruição de infraestruturas agrícolas e redução acentuada da capacidade produtiva em algumas explorações. Associado a este domínio surge também a aquacultura, onde foram reportados danos severos nas unidades produtivas e nas zonas costeiras mais afetadas", referiu.
Além disso, "a tempestade atingiu de forma relevante a indústria transformadora, sobretudo em polos industriais como Leiria e Marinha Grande, onde casas, fábricas, estradas e linhas ferroviárias sofreram danos significativos, com prejuízos regionais estimados entre 1,5 e 2 mil milhões de euros".
"Um terceiro grupo crítico é constituído pelo turismo, hotelaria e restauração, setores muito sensíveis a interrupções de mobilidade, danos em infraestruturas e cancelamentos de procura. Por fim, os setores das infraestruturas e energia foram fortemente perturbados, com centenas de milhares de consumidores sem eletricidade, danos extensos nas redes de alta, média e baixa tensão e fortes condicionamentos de transportes e telecomunicações", explicou ainda o economista.
Carlos Brito avisa ainda que, "para além dos custos estritamente económicos, as recentes intempéries implicam perdas de natureza social, ambiental e institucional que dificilmente são captadas pelas contas nacionais" e também alerta que a "crescente frequência e intensidade de fenómenos climáticos extremos traduz-se em custos recorrentes de adaptação, o que vai exigir um investimento continuado e certamente crescente em resiliência territorial, ordenamento do território, proteção de infraestruturas críticas e mecanismos de cobertura de risco, públicos e privados".
Por isso, conclui, "a questão central deixa de ser apenas quanto custa cada evento extremo, passando a ser quanto estamos dispostos a investir hoje para reduzir perdas futuras", porque "a resiliência climática deixa, assim, de ser um tema ambiental para se afirmar como uma prioridade económica".
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