Com sede, às escuras e em silêncio, Leiria tenta despertar de um pesadelo
- 07/02/2026
"Foi um pesadelo isto. Só quem cá esteve é que imagina o que foi e o que ainda é", afirma Joana Félix, passeando com o filho, recém-nascido, nas ruas de Monte Real, Leiria.
Joana Félix trocou Queluz por uma casa no concelho de Leiria - para "fugir à confusão", diz sorrindo - e poder criar em paz os dois filhos, o mais velho com três anos, que está no jardim infantil do Outeiro da Fonte, Leiria.
O equipamento no Outeiro da Fonte já funciona, mas o de Monte Real não. Junto ao jardim de Monte Real, homens trabalham para cortar um sobreiro que caiu sobre o edifício, levantando passeio. À porta, num papel impresso, molhado pela chuva, lia-se o seguinte texto desbotado: "Encerrado até voltar água, eletricidade, comunicações".
"Fui a Lisboa passar a semana, voltei e isto continua assim. Não é possível estar aqui sem rede e sem eletricidade e hoje já não há água outra vez", desabafa a educadora, moradora do Outeiro da Fonte.
A alguns quilómetros, na zona industrial da Cova das Faias, técnicos de uma empresa contratada da Rede Elétrica Nacional estão a reparar postes de muito alta tensão, desde as primeiras horas do dia seguinte à tempestade.
"Quarta-feira foi o dia dos mortos e de abrir as estradas. Só na quinta, começámos a trabalhar, mas temos trabalho para um mês só na linha de muito alta tensão. As outras vão demorar ainda mais tempo", refere um funcionário da empresa, que está há mais de uma semana em Leiria, vindo de Penafiel.
Leiria e a Marinha Grande são o centro nevrálgico português da indústria dos moldes e dos plásticos e, entre as duas cidades, a TJ Moldes de João Faustino é um dos retratos da catástrofe, com dois pavilhões arrasados e equipamentos ao relento.
"Foi a primeira fábrica que construí aqui, depois de virmos de um pequeno barracão", recorda o empresário, enquanto mostra a destruição a um cliente estrangeiro.
Ao lado, o funcionário administrativo Pedro Rato empurrava uma máquina de corte de ferro, com a ajuda de outros operários da empresa, procurando transportar o equipamento, com uma empilhadora, para uma zona protegida.
Pedro Rato trabalha na TJ Moldes há 18 anos e, após a tempestade, a prioridade foi "tapar os buracos de casa", mas desde segunda-feira está na fábrica.
"Eu fazia planeamento e acompanhamento da produção, hoje faço o que for preciso", afirma Pedro Rato, que teme o impacto desta tempestade no setor dos moldes.
"Nós já tínhamos muitos problemas por causa da falta de trabalho", porque os "carros elétricos precisam de menos peças e isso tem sido um problema para a Marinha Grande", explica.
Ao lado, uma máquina de "injeção de plásticos para testar moldes" está no armazém destruído, protegido pela chuva com uma lona publicitária de um festival gastronómico de Gondomar.
"Estou aqui desde quarta-feira às 8 da manhã, ainda havia vento", diz à Lusa Mário Gomes, enquanto acarta entulho da parede derrubada. E apontando para a máquina, acrescenta: "Não sei de onde vieram as lonas, mas agradecemos muito, porque sem isso as máquinas não iriam aguentar".
"Se isto fosse em Lisboa, o país parava, mas como é aqui, ninguém liga, até porque o nosso primeiro-ministro (PSD) acha que não se passou nada", insiste, em Monte Real, Joana Félix, que também critica a autarquia (PS).
"Estivemos cinco dias sozinhos, até a junta nos aparecer. Até lá ninguém apareceu", recorda.
"Sei que Lisboa é Lisboa e o resto é paisagem. Mas aqui Leiria é a cidade e o resto é paisagem. O resto somos nós", lamenta a recém-eleitora de Leiria, principalmente num momento em que "ter eleições tão importantes" para o país.
O presidente da Câmara de Leiria, Gonçalo Lopes, aceita a crítica e reconhece que ainda há muito a fazer no concelho.
"Compreendo e aceito, porque as pessoas têm direito a estar indignadas", mas "tivemos de definir prioridades de resposta", diz.
"Esta tempestade atingiu todos, pobres e ricos, meios urbanos e rurais. Tudo de uma rajada", afirma, destacando o "ímpeto grotesco e demolidor" da depressão.
A "prioridade tem sido repor a eletricidade onde é possível ou nos meios mais populosos", justifica, embora admitindo que a "comunicação pós-catástrofe tem de ser transparente e isso nem sempre tem acontecido".
Gonçalo Lopes recusa o "discurso do coitadinho ou do desgraçado", porque "Leiria é uma cidade dinâmica e a região é um modelo de desenvolvimento" que "vai, de certeza, recuperar graças às pessoas" e à "ajuda de tanta gente solidária", destacando o apoio de "voluntários de todos os lados, incluindo do estrangeiro", de "dezenas de autarquias" e "centenas de pessoas anónimas".
Hoje, o programa eleitoral com que foi eleito em outubro para um segundo mandato acabou. Gonçalo Lopes diz que a prioridade é outra: "reerguer Leiria", com "intervenção rápida e decidida" em "setores fundamentais" para o tecido económico e social do território.
"Para uma coisa destas ninguém está preparado", mas "temos de estar preparados para reagir e foi isso que tentámos fazer, mostrar que é possível reagir", acrescenta.
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