Cheias deixam Maputo isolada e estradas bloqueadas

  • 21/01/2026

"A mim basta abrir o caminho, tenho que ir levar a urna para continuar com a viagem", explica à Lusa Luís Chichava, 56 anos, motorista de 'chapa', viatura de transporte semipúblico.

 

Desde domingo que está parado junto ao bairro 03 de Fevereiro, distrito da Manhiça, norte da província de Maputo, observando o corte da estrada Nacional 1 (N1), a principal via do país, totalmente tomada pelas águas, enquanto para trás fica uma fila de todo o tipo de viaturas paradas, aguardando notícias há dias.

"Eu trazia uma urna da África do Sul, quando chego aqui encontro a estrada fechada. Então dormimos aqui. No dia seguinte tive que voltar para Manhiça [a 30 minutos] para ir pedir no hospital para guardar a urna e para eu ficar a esperar aqui. Até agora estou à espera", diz.

Saiu no sábado da Cidade do Cabo, na África do Sul, para uma viagem de 2.150 quilómetros até Xai-Xai, província moçambicana de Gaza. A urna, com o corpo de um moçambicano que morreu esfaqueado na cidade sul-africana no dia 25 de dezembro, que transporta para o funeral na sua terra, pediu para ser guardada na morgue mais próxima, enquanto a família, em Xai-Xai, desespera.

"Tentámos tudo o que nós podíamos fazer, pelo menos estávamos a lutar para ver se podíamos pôr no avião, no helicóptero, no barco, mas tudo isto não foi possível. A família está muito preocupada. Muitíssimo preocupada", diz Luís, enquanto centenas de outros, motoristas, passageiros e famílias ocupam a N1, algumas centenas de metros antes do corte completo da circulação, com o pequeno rio Chulavecane que agora transborda.

O cenário repete-se até à entrada da província de Gaza, desde sábado. Para sul de Maputo, a mesma realidade no distrito de Boane, com a N2 cortada há quase cinco dias, intransitável pela água que tomou a via e também com centenas de famílias a serem resgatadas, sitiadas em escolas e telhados de casas totalmente alagadas.

"Temos corte ali em Boane, mas as águas começaram a baixar", explicou à Lusa o governador da província de Maputo, Manuel Tule, admitindo a reabertura da N2 nos próximos dias.

"Aqui [N1] é que a situação está um pouco mais crítica, não temos a certeza quando vamos acabar", acrescentou o governador, no local, admitindo que ainda é preciso ver a integridade das pontes e vias afetadas pela força das águas nos últimos dias, antes da reabertura.

No bairro 03 de Fevereiro, centro das operações aéreas de resgate naquela área, Luís mantém-se firme, esperando sinal de abertura da estrada para completar as duas horas e meia de viagem que ainda faltam até Xai-Xai.

"Só para acompanhar o movimento, ver se abre ou não. O mais preocupante é que ninguém de direito se aproxima para vir dizer qualquer coisa (...) Nem que eles apareçam a dizer que isto vai abrir na próxima semana, no próximo mês. Termos uma palavra de segurança para nós. Ninguém. Ninguém diz nada", desabafa, preocupado.

Por ali "não há apoio" para quem ficou retido, sem soluções para seguir viagem, como comida ou até para necessidades básicas.

"Cada um é só desenrascar. Ninguém olha ninguém aqui. E também já conhecemos a nossa política moçambicana. Às vezes aparece apoio e pode não chegar para as pessoas necessitadas", lamenta ainda Luís, motorista desde 1999 e que confessa nunca ter visto um cenário assim.

"Eu só saio daqui, vou na bomba tomar banho e jantar e voltar aqui mesmo", diz, expectante pelos próximos dias.

Paulo André, 41 anos, trabalha em Pretória, na África do Sul, e regressava de 'chapa' a Gaza, com o filho e a mulher, quando ficou retido no 03 de Fevereiro. Foi logo dos primeiros a ficar. Era sábado de manhã e continua por lá, à espera: "Desde que estamos aqui não apanhámos nenhuma informação que vamos sair, quando vão organizar a estrada para a gente conseguir passar".

Explica que no 'chapa' em que viaja há quem vá para Inhambane, outros para a Beira. Outros ainda têm o Zimbabué como destino final.

"Estamos com fome, temos crianças, temos família aqui, mas não há transporte para a gente conseguir passar, até agora (...) Vendem comida ali, mas essa comida aqui está muito cara, não conseguimos coisa de pagar", diz.

Nas últimas horas, explica, uma Igreja ainda distribuiu algumas quantidades de feijão, que deu para ajudar, apesar de ser pouco para tanta gente que não sabe o que fazer.

Matateu Alberto, chapeiro de 62 anos, na profissão desde 1991, nunca viu algo assim. Conduzia desde a África do Sul até que parou no sábado às 06:00 e ali ficou, ainda longe da província de Inhambane, o destino final, para depois regressar.

"Estamos a morrer de fome, não temos dinheiro, não temos nada aqui", desabafa, criticando a falta de informação sobre o que está a acontecer.

"Eu estou preocupado. Porque eu devia, a essa hora, voltar na África do Sul, no serviço", diz, assumindo que todos por ali estão no "desenrasque". Para já vai aguentando com um prato de xima, à base de farinha de milho, cozinhado ali mesmo.

"É um desenrasque aqui, não há comida. E a comida que tem aqui é cara", afirma.

O total de mortos na época das chuvas em Moçambique subiu para 114, com seis pessoas desaparecidos, 99 feridas e quase 680 mil afetadas, segundo dados do Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD).

De acordo com a mesma fonte, de 01 de outubro até ao final do dia 19 de janeiro, abrangendo já o atual período de cheias generalizadas no país, foram afetadas 677.831 pessoas, equivalente a 141.818 famílias, com 11.367 casas parcialmente destruídas e 4.910 totalmente destruídas, agravando o balanço anterior.

O Governo decretou na sexta-feira o alerta vermelho nacional.

Leia Também: Moçambique reduz mais de 11% da dívida ao Brasil em três meses

FONTE: https://www.noticiasaominuto.com/mundo/2923393/cheias-deixam-maputo-isolada-e-estradas-bloqueadas#utm_source=rss-ultima-hora&utm_medium=rss&utm_campaign=rssfeed


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