Central fotovoltaica ameaça projetos de quem escolheu Beira Baixa para viver

  • 11/01/2026

Numa manhã fria e com o nevoeiro a limitar a paisagem, Tiago Lourenço, que há uma década trocou Lisboa pela Beira Baixa, falou à agência Lusa sobre o projeto que pode condicionar o seu futuro e a sua vida: o projeto da central solar fotovoltaica Sophia, que abrange os municípios do Fundão, Idanha-a-Nova e Penamacor, no distrito de Castelo Branco.

 

"Nunca fui contactado. Fui surpreendido como todos os outros quando isto nos caiu no colo. Sentimos uma necessidade de reagir e de combater. Aqui está o resultado dos poderes políticos. Tem de haver uma mobilização da sociedade civil".

O proprietário e sócio de uma quinta com 180 hectares, perto da aldeia histórica de Idanha-a-Velha (concelho de Idanha-a-Nova), dedica-se maioritariamente à produção de azeite de olival tradicional de sequeiro, com as variedades endémicas do território.

Para Tiago Lourenço, parte do projeto prende-se precisamente como a preservação destas variedades e da paisagem tradicional mediterrânica.

"Obviamente que o impacto na paisagem com estas megas centrais fotovoltaicas vai comprometer as temperaturas e as dificuldades que já temos em termos de alterações climáticas. Vai acelerá-las e vai inevitavelmente criar alterações que não podemos prever agora e que mais tarde podemos não ter soluções para elas".

O empreendedor contou à Lusa que saiu de Lisboa precisamente pelo valor da paisagem da Beira Baixa.

"Foi a paisagem que me atraiu para aqui. Há 10 anos que aqui trabalho, um trabalho longo de recuperação do olival de sequeiro tradicional que estava ao abandono, até transformá-lo num projeto de referência nacional. Tudo isso fica comprometido e desvirtua todo este esforço de largar uma vida urbana e vir povoar o interior que está com problemas demográficos gravíssimos".

Mas Tiago Lourenço não está sozinho. São três famílias de Lisboa, cinco crianças e três casais, que chegaram a Idanha-a-Velha em momentos diferentes.

"Temos a ambição de transformar o espaço num centro de interpretação da paisagem rural. Apela-nos a paisagem, apela-nos a agricultura tradicional, o espaço natural, o modo de vida e uma maneira de estar que fica completamente comprometida quando se decide industrializar a paisagem, desvirtuá-la, sem ter qualquer sensibilidade a quem cá vive, aos projetos de vida e ao futuro que fica comprometido", lamenta-se.

Mas, apesar de tudo, recusa-se a desistir: "O projeto não vai acontecer. Não pode acontecer. Se acontecer, descaracteriza completamente o trabalho todo e põe tudo em perspetiva. Se há efetivamente uma preocupação de descarbonização energética, então os interesses que devem ser prioritários nunca serão o de destruir a natureza e ocupar territórios férteis".

Em Penamacor, a Lusa encontrou Julien Huys, um belga de 40 anos que ali se radicou há cerca de oito anos com a família, a mulher e duas filhas.

Este antigo carpinteiro adquiriu inicialmente um terreno de três hectares, ao qual já juntou um outro de quatro hectares, onde gere atualmente um projeto de agroturismo.

"Vim para Portugal porque queria mudar de país. Na Bélgica, a vida era demasiado agitada e cara. Aqui posso encontrar paz e sentido de liberdade, o que é muito difícil encontrar pela Europa. Em Portugal, foi aqui [Penamacor] que pude encontrar tudo isto", explicou.

Julien contou à Lusa que teve conhecimento da intenção de instalação da central solar Sophia quando leu uma notícia.

"Depois, comecei a falar com as pessoas e quase ninguém sabia. Este projeto não pode acontecer. A transição energética não é assim. Não faz sentido", desabafou.

O belga manifesta preocupação em relação ao futuro, caso o projeto avance: "Desde que ouvimos falar deste projeto temos medo. O que vamos fazer?".

Para o empresário, que jogou todas as fichas no projeto de agroturismo, o futuro é bastante incerto, uma vez que a presença da central fotovoltaica vai levar à alteração da paisagem e, consequentemente, à perda de clientes.

Contudo, recusa-se a baixar os braços e diz que o importante é combater um projeto que não faz qualquer sentido.

Perto da Mata da Rainha, no concelho do Fundão, a reportagem da Lusa foi ao encontro de Laurence Manchee, de 43 anos.

Este britânico que vive ali há cerca de 10 anos, adquiriu 18 hectares de terreno, onde se dedica à prática de agricultura biológica e onde ministra também 'workshops' e cursos de agricultura biológica.

Trabalhava num escritório, mas optou por vir para Portugal, pela natureza e pelo sossego: "Tenho uma vida boa, a paisagem é boa e a vida é mais tranquila. A comunidade aqui na Mata da Rainha é muito boa".

Laurence Manchee teve conhecimento da intenção da instalação do projeto Sophia quando na aldeia uma senhora lhe mostrou o 'link' de uma notícia.

"Até hoje ninguém me contactou. Se nós tivermos painéis solares por todo o lado, deixa de haver razão para morar aqui, além das implicações na agricultura".

O agricultor está ainda preocupado porque o caminho de acesso à sua quinta, no projeto, vai ser cortado, além de vir a afetar nove hectares da sua quinta.

Para o britânico, a possibilidade de vender está colocada de parte, uma vez que já ninguém quer comprar os terrenos, além da sua desvalorização.

À Lusa, contou que um dos seus vizinhos já tinha acordado a venda de uma casa e da quinta, negócio esse que foi cancelado na sequência, presume-se, deste projeto fotovoltaico.

Para já, não coloca sequer a hipótese de vender ou de alugar a sua quinta. Apenas quer viver a sua vida, com a sua família, que aumentou há sete dias com o nascimento do seu filho.

Caso o projeto seja concretizado com o atual plano, Laurence Manchee promete lutar conjuntamente com toda a aldeia que está unida contra este projeto.

"O projeto não vai avançar", garantiu.

A central solar fotovoltaica Sophia abrange os municípios do Fundão, Idanha-a-Nova e Penamacor, no distrito de Castelo Branco, e representa um investimento ronda os 590 milhões de euros, para uma capacidade instalada de 867 MWp (Megawatt pico).

Trata-se de um projeto com 390 hectares de área ocupada por módulos fotovoltaicos, 435 hectares considerando todas as infraestruturas, e um total de 1.734 hectares de área vedada.

A Comunidade Intermunicipal (CIM) da Beira Baixa já emitiu um parecer desfavorável ao projeto, no âmbito da consulta pública, pelos enormes impactos na comunidade e no território.

A avaliação ambiental está ainda em curso e o prazo legalmente previsto para este procedimento termina no dia 09 de fevereiro.

Leia Também: Marques Mendes expressa dúvidas sobre megaparques solares

FONTE: https://www.noticiasaominuto.com/economia/2917315/central-fotovoltaica-ameaca-projetos-de-quem-escolheu-beira-baixa-para-viver#utm_source=rss-ultima-hora&utm_medium=rss&utm_campaign=rssfeed


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