Caso Epstein: "Estamos a tratar de abuso como se fosse um Big Brother"

  • 17/02/2026

As alegações de abusos sexuais de menores cometidos pelo milionário norte-americano Jeffrey Epstein têm sido assunto nos últimos anos. De tempos a tempos, surgem novos dados dos ficheiros que podem não ser tratados da melhor forma, isto é, com o cuidado e atenção que o tema poderia merecer.

 

“Estamos a tratar situações de abuso, trauma real e exploração, como se fosse um Big Brother”, faz sobressair, em entrevista ao Lifestyle ao Minuto, a sexóloga e educadora sexual Joana Viterbo. 

Na sua página de Instagram partilhou algumas ideias sobre o tema, algo explorámos também na conversa que tivemos com a especialista. O caso Epstein é muitas vezes tratado como voyeurista, mas acabam por ser esquecidas as consequências que tal pode trazer a vítimas de abusos.

"Através do confronto com determinadas imagens, descrições, ambientes, o cérebro muito facilmente retorna aos lugares de perigo onde esteve e são reativadas as sensações e o stress associados ao trauma inicial", sublinha.

Nos próximos dias 24 e 26 de fevereiro, a sexóloga vai ministrar um workshop online sobre Educação para a Sexualidade. É dirigido a mães, pais e educadores. Irá tocar em vários pontos sobre a prevenção de abusos. Na página de Instagram serão dadas todas as informações.

A forma como está a ser tratado o tema do Caso Epstein é excessiva?

A forma como o caso está a ser tratado, mais do que excessiva, creio que está a ser displicente, a vários níveis. Quando existe uma denúncia ou uma descoberta deste nível, o objetivo principal deve ser cuidar as vítimas, aferir toda a verdade e dar-se uma responsabilização pelos atos cometidos. O facto de ser um caso com anos continuados de ocorrências, figuras públicas de diferentes quadrantes envolvidas e diversas ramificações,  não devia desviar do objetivo principal, e é o que está a acontecer.

Leia Também: De 2005 até hoje: A cronologia da investigação ao caso Jeffrey Epstein

Como é que uma vítima acaba por sentir-se quando vê este tipo de pormenores revelados?

Uma vítima pode ter diferentes reações a este tipo de exposição - sentir visibilidade, que a verdade está a vir ao de cima, uma oportunidade para agir -, mas o padrão de reação mais comum numa situação de exposição que é tão íntima - e principalmente quando não contribui para um desfecho justo e que responsabilize os agressores - é de re-traumatização. Através do confronto com determinadas imagens, descrições, ambientes, o cérebro muito facilmente retorna aos lugares de perigo onde esteve e são reativadas as sensações e o stress associados ao trauma inicial.

Também opiniões sobre o sucedido que, de alguma forma, responsabilizem as vítimas, que as há, sempre, causam um acréscimo de sofrimento.

Se juntarmos a isto tudo não haver um avanço rápido legal na responsabilização esperada, a devassa das suas vidas e o reviver dos traumas que aconteceram, sem existir uma sensação de justiça ou desfecho é um caminho extremamente duro, frustrante, de sofrimento e pressão extremos que, por vezes, não é sequer possível de suportar.

Passamos a ver algo real como uma telenovela (...). É que isto não é sobre ou para nós! Foi a realidade inconcebível e traumática de crianças, jovens e mulheres! Pessoas reais

É algo que está a ir além da resolução do caso e a tornar-se uma curiosidade que pode ser perigosa?

Sem dúvida! Está a ser ‘trabalhado’ para as massas, e até para efeitos de estratégia política, muito mais do que com o foco na investigação criminal e respetivo julgamento em sede própria, o que é perigoso, a diversos níveis. 

O que estamos a ganhar ou a perder com a forma como tudo está a ser exposto sobre este caso?

Não me parece que ganhemos algo relevante com a forma como a informação está a ser posta a público: massivamente e sem qualquer filtro, causando um gigante ruído à volta do foco primordial, enquanto, judicialmente, pouco está a acontecer.

Repare-se que aparecem descrições gráficas de abusos ocorridos, trocas de e-mails com um teor igualmente violento sobre os acontecimentos, fotografias, vídeos e referências indiscriminadas a pessoas que nada têm a ver com o caso. Qual o interesse - o que nos acrescenta, a nós, que não temos qualquer poder decisor ou judicial - de termos acesso a esta amálgama de informação? Além da curiosidade mórbida, nenhum, enquanto para o(a)s envolvido(a)s, pode ser devastador.

Estamos a tratar situações de abuso, trauma real e exploração, como se fosse um Big Brother. Perdemos objetividade na análise, deparamo-nos, continuadamente, com relatos extremamente violentos que a maior parte de nós não está capacitado emocionalmente para digerir, passamos a ver algo real como uma telenovela e não nos acrescenta muito relativamente à prevenção deste tipo de situações. Não vejo que exista qualquer benefício, por comparação com uma informação que fosse trabalhada, objetiva e difundida após uma investigação escorreita e organizada, com um objetivo de veicular o seu resultado, pontos de awareness e, o mais importante, culminasse num desfecho judicial. É que isto não é sobre ou para nós! Foi a realidade inconcebível e traumática de crianças, jovens e mulheres! Pessoas reais. 

Antes de tudo, é importante refletirmos sobre o que realmente estamos a querer retirar do que procuramos ler e absorver. Estamos a querer estar informado(a)s e compreender o tema, ou apenas um choque de adrenalina?

Que consequências poderá ter o consumo deste tipo de conteúdo, algo tão pormenorizado e que é real e não uma série a que estamos a assistir?

Apesar do consumo deste tipo de conteúdo poder criar uma certa dessensibilização superficial face à situação real em si, estarmos exposto(a)s continuamente a este tipo de violência pormenorizada pode, também, causar stress, ansiedade, hipervigilância, insónia, sensação de insegurança constante, gerar uma resposta desproporcional face a determinadas situações, reativar traumas pessoais, ou até, numa estrutura emocional que esteja mais frágil ou desprotegida, provocar um esgotamento emocional. 

Como seria a melhor forma de 'consumir' e estar a par do tema sem que seja visto como algo voyeurista?

Apenas através de meios de informação jornalística e que não trabalhem a informação com um tom sensacionalista.

Estamos a falar deste caso dos Epstein Files em concreto, mas podemos vir a ter estes riscos noutros temas idênticos e até que nos sejam mais próximos?

Se falarmos no risco de ‘mergulharmos’ no acompanhamento destes temas, é natural que nos identifiquemos e tenhamos um maior envolvimento emocional com situações que ocorram em contextos, sociais, geográficos e de género, mais próximos do nosso. Quando existem estes marcadores de identificação, mas ainda assim é longe, temos uma grande tendência para acompanharmos desta forma sôfrega, lá está, de uma forma voyeurista, como se tratasse de uma série. 

Quando nos é intimamente próximo, dentro do nosso círculo relacional, por oposição, como já é mais real, outros mecanismos entram em jogo e o evitamento e bloqueio são reações comuns, quer em situações ocorridas quanto relativamente à sua prevenção. Não estou a falar das vítimas, estou a falar de quem tem conhecimento de um caso próximo, ou até na família direta, atenção. 

Uma reação nítida dessas é a aversão à educação sexual. Um ‘não vamos falar disso’, em vez de haver uma compreensão de que é uma arma de prevenção brutal contra situações de abuso. Ainda existe muito a ideia de que é algo que só acontece noutras famílias, sendo que a grande maioria das situações de abuso sexual de menores acontece por parte de pessoas que fazem parte do meio familiar, e que, portanto, não é preciso falar sobre. ‘Quando chegar à adolescência falamos, ou até, de certeza que se vai informar online’. Mas a prevenção é um trabalho que é subtil e organicamente feito durante todo o desenvolvimento da criança e depois jovem.
 
Compreendo que seja extremamente duro para uma mãe ou pai pensar que alguma vez o seu filho ou filha possam estar numa situação similar, mas o ‘não pensar nisso’ não vai dar ferramentas para prevenir que aconteça (pelo contrário!), ou lidar da melhor forma possível, no caso de uma situação de abuso acontecer. Aprender, ensinar, capacitar e encarar a realidade é a melhor forma de prevenir!

Como podemos perceber que já estamos a ver/ler/ouvir demais e é melhor parar de explorar a questão? Há sinais no nosso corpo, na nossa forma de agir e pensar?

Antes de tudo, é importante refletirmos sobre o que realmente estamos a querer retirar do que procuramos ler e absorver. Estamos a querer estar informado(a)s e compreender o tema, ou apenas um choque de adrenalina? E sermos honesto(a)s na nossa resposta. É importante também estarmos atentos a se estamos a conseguir parar, ou se já estamos com um comportamento compulsivo em que não conseguimos deixar de ir procurar mais ‘pormenores chocantes’. Sim, estamos a falar de conteúdos, mas que podem ter um efeito algo aditivo, pela repetição de ciclos de recompensa dopaminogénica, que fazem com que ‘se queira sempre mais’. Além das consequências referidas, alguns sinais que o nosso corpo nos dá para gritar ‘para’ são a tensão muscular, dor de cabeça, dor de estômago, irritação, sensação de nevoeiro no pensamento, ou perda de concentração noutros temas.

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O magnata Jeffrey Epstein trocou alguns e-mails nos quais falou sobre Portugal, nomeadamente, sobre o "custo alto" que seria ter residência no país. Note-se que já não é a primeira vez que Portugal surge nos ficheiros relacionados com o caso do magnata.

 Ana Teresa Banha | 12:56 - 13/02/2026

FONTE: https://www.noticiasaominuto.com/lifestyle/2940330/caso-epstein-estamos-a-tratar-de-abuso-como-se-fosse-um-big-brother#utm_source=rss-ultima-hora&utm_medium=rss&utm_campaign=rssfeed


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