Ainda há pessoas sem luz em Leiria. Autarca critica E-Redes: "Intocáveis"
- 19/02/2026
O presidente da Câmara Municipal de Leiria, um dos rostos da tragédia que atingiu o país nas últimas semanas, provocada por uma sucessão de tempestades, critica a atuação da E-Redes e o facto de três semanas depois milhares de pessoas ainda estarem sem energia elétrica.
Em entrevista ao programa Hora da Verdade da Renascença e do Público, Gonçalo Lopes defendeu que este tipo de empresas devem ter "mais controlo" público, uma vez que, perante situações como a que aconteceu no Centro do país, uma das zonas mais atingidas pelo mau tempo, "parecem intocáveis".
"Empresas como a E‑Redes — que têm um património de soberania nacional, porque a electricidade é vital para a nossa vida — têm que ter mais regulação, mais controlo, ou têm que ser nacionais. Não podemos ter esta responsabilidade toda entregue a privados sem estar devidamente controlada ou senão tem que ser o Estado a tomar conta. A gente sabe como é que aconteceu. O país estava de tanga. Teve que se vender as joias da coroa. Vendemos o filet mignon. Estas redes eléctricas são muito importantes para o país. Tem que haver uma estratégia de investimento, seja não só naquilo que é a sua resiliência, a sua proteção, a sua capacidade", sublinhou, exigindo que as responsabilidades da E-Redes sejam "apuradas" e os prejuízos que toda esta situação causou à economia e às pessoas sejam "devidamente ressarcidos".
"Tem que se apurar o porquê de os meios não terem sido acionados em devido tempo a nível do estrangeiro, saber quanto é que se gasta na manutenção de uma coisa que é paga por nós. Em alguns serviços, tornámo-nos um país de outsourcing. A E-Redes não tem equipa interna, ou, se tem, é pequena, vive de outsourcing. Tem que se avaliar esse outsourcing. Tem que se avaliar as competências desse outsourcing. E tem que se avaliar quanto é que se paga aos desgraçados do outsourcing para fazer um trabalho tão importante quanto este", atirou.
Já sobre o fim do estado de calamidade, o autarca revelou que ainda recebe telefonemas "para reporem eletricidade na casa das pessoas". "Ainda estamos neste pântano. Terminou a calamidade no domingo, mas ainda tenho pessoas em estado de calamidade. Estou desejoso de terminar esta fase, ter energia em todo o lado, voltar a ter comunicações", admitiu.
Sobre os prejuízos, Gonçalo Lopes diz que estes "ainda estão a ser calculados" mas só em limpezas, a autarquia "gastou 14 milhões de euros".
"Em termos de candidaturas das pessoas para os apoios à sua própria habitação, temos um pedido de apoio de 23 milhões de euros, o que dá uma média de 6.500 euros por casa. Na parte da economia, temos cerca de 700 candidaturas, que representam 200 milhões de euros", exemplificou, acrescentando que "podemos estar a falar de um prejuízo na ordem dos 700 milhões de euros".
"Há uma dimensão de prejuízos que tem a ver com a paragem da economia. A economia do concelho de Leiria representa cerca de 2,1 mil milhões de euros por ano. Há uma dimensão que ainda está por calcular, que tem a ver com a devastação da floresta do concelho. A Câmara tem um orçamento anual de 150 milhões de euros", realçou ainda o presidente de Leiria, lembrando que "nenhum país que leva com uma catástrofe deste tamanho consegue erguer-se sozinho".
"Vai ser sempre precisa ajuda da União Europeia. Foi o que aconteceu no ano passado em Valência, que recebeu 68 milhões de euros", notou, alertando que a tragédia que atingiu a região Centro poderá tranformar-se num "grave problema para a economia nacional", assegurou, realçando que "tem que entrar dinheiro, senão toda esta recuperação pode pôr em causa a qualidade de vida mínima das pessoas".
"Se o efeito contágio do que aconteceu com a Kristin neste território não for controlado já, podemos ter um grave problema para a economia nacional. Nós estamos a falar de setores exportadores, setores de indústria de ponta. E se eles ficam parados, vai-se sentir no país", arremessou.
Na mesma entrevista, Gonçalo Lopes assumiu arrepender-se de ter criticado os políticos que foram a Leiria fazer "um circo".
"Como é óbvio, nestas três semanas, voltando à questão da empatia, há nervos. Levei com uma bomba em cima. Nestes momentos a questão da capacidade de raciocínio, de mobilização, nem sempre é mais clara. Eu admito os erros [...] Se calhar não devia ter dito [que não queria um "circo" em Leiria]. Se calhar isso está a prejudicar Leiria. E arrependo-me de ter dito isso. Mas foi aquilo que me saiu na altura. Eu devia ter pensado que isso devia ter consequências para Leiria", esclareceu.
O autarca socialista revelou ainda na mesma entrevista que o Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa "foi peça fundamental nestas três semanas" e foi o seu "segundo telefonema", a seguir ao primeiro-ministro.
Gonçalo Lopes acredita que "este nível de políticos [como Marcelo] já não vai haver muitos". Porém, não tem "dúvidas nenhumas" que "o Presidente António José Seguro vai, no seu mandato, colocar os efeitos da catástrofe de Kristin na sua agenda".
Nas redes sociais, o autarca fez ontem um balanço da tempestade que atingiu, há três semanas, o concelho de Leiria e fez seis vítimas mortais. "Os números falam por si":
Resposta humanitária:
- 10.439 operacionais no terreno
- 1.750.000 m² de lona e manga plástica distribuídos a 42.000 pessoas
- 380 toneladas de alimentos e bens de higiene entregues a 8.677 famílias
- 300.000 telhas distribuídas a 7.000 pessoas
- 5.000 voluntários mobilizados nas ações "Limpar Leiria"
Impacto no Património e Equipamentos:
- 486 edifícios municipais danificados — 112 escolas
- 39 espaços desportivos e culturais atingidos
- Mais de 5 milhões de árvores afetadas
- 50.000 apólices de seguros acionadas
Impacto na economia:
- 724 empresas do concelho candidatas às linhas do Banco de Fomento
- 200 milhões de euros em candidaturas submetidas
Apoios à habitação:
- 3.900 candidaturas no concelho
- 25,3 milhões de euros em pedidos de apoio
A lamentar:
- 775 feridos
- 6 vítimas mortais
Investimento municipal já concretizado:
- 13,3 milhões de euros
"Este é um retrato da dimensão da tragédia, mas também da dimensão da resposta. Muito obrigado a todos os que participaram neste extraordinário movimento de solidariedade, que continua no terreno e que continuará até que cada família recupere a sua normalidade", agradeceu Gonçalo Lopes na sua página de Facebook.
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