"A tentação é perceber o homem fora do ambiente político, das TVs"
- 17/02/2026
Cerca de dois anos após a estreia de "Soares é Fixe", de Sérgio Graciano, em 2024, e praticamente três anos após as gravações deste projeto, Tonan Quito vê ir para o ar a série "Homens de Honra", que cruza a vida de Álvaro Cunhal com Mário Soares. "Essa grande viagem, um período negro da nossa história, da ditadura que se viveu e toda a construção da democracia, e o depois já em democracia."
Depois da entrevista a Romeu Vala, um dos atores que interpreta Álvaro Cunhal, o Notícias ao Minuto conversou também com Tonan Quito, que está atualmente a fazer digressão da peça de teatro "Começar Tudo Outra Vez", com Raquel André, que se estreou em junho do ano passado. Está também nas Comédias do Minho, em Paredes de Coura, a encenar uma peça que vai ser lançada em março.
Em "Homens de Honra", que foi pela primeira vez para o ar na segunda-feira, dia 16 de fevereiro, na RTP1, o ator faz de Mário Soares numa fase adulta - até às marcantes eleições de 1986. A versão mais jovem do político português é representada pelo também ator Alexandre Carvalho.
Em conversa com o Notícias ao Minuto, Tonan Quito destacou a dimensão de tal papel, de representar "pessoas que marcaram a história".
"No nosso papel como atores, que por vezes é tão pequenino - às vezes é só entregar uma carta, só dizer olá - e de repente calha-nos fazermos uma coisa de grande vitalidade", comentou, mostrando-se refletivo sobre como foi pegar numa figura como Mário Soares, que "teve uma estratégia para o país, uma visão de evolução e de melhoria de vida para as pessoas".
Lembro-me muito bem das eleições de 86, do Soares é Fixe, de distribuir os autocolantes
Lembra-se de quando teve pela primeira vez esta história em mãos qual foi o primeiro pensamento e preocupação enquanto ator?
O que é que eu vou fazer? Como é que se faz isto? Tive algum tempo, mas mesmo assim ainda foi pouco tempo para a imersão que um papel destes exige. Quando vais fazer uma figura histórica recente, e olhas para ti ao espelho - portanto, a nível visual não tens muitas parecenças - sabes que vai haver um trabalho de composição de imagem que te vai de certa maneira, colar. Não havia também uma proteção do Sérgio [Graciano] de que eu ficasse igual. Era mais como é que iríamos abordar esta figura.
A mim assustou-me, sobretudo, [perceber] por onde é que se pegava naquilo e como é que se ia fazer. Íamos incidir mui to o início sobre a noite [das eleições]. Portanto, é uma fatia na vida imensa de uma pessoa mais velha do que eu. E na altura fiquei muito assustado. Tive várias conversas para perceber se era mesmo eu a pessoa indicada para fazer aquilo.
Ultrapassadas essas inseguranças, a questão é mesmo perceber quem era o homem. Passar para uma compreensão, primeiro do texto, ou seja, das cenas, do que é que está ali escrito, o que é que o texto está a querer revelar, onde é que podíamos incidir sobre o texto, não propriamente alterarmos coisas no guião.
A história é aquela, não havia muita margem para onde "fugir"...
Exatamente! E depois era fazer rapidamente um trabalho de pesquisa para perceber a época, a situação e quem era o homem um bocadinho fora da política. Lembro-me muito bem das eleições de 86, do Soares é Fixe, de distribuir os autocolantes.
Por mais que eles colassem o Freitas ou Sá Carneiro a uma política de Direita que era má, não corríamos um risco que se corre agora, de um discurso populista e fácil, e de medo e ódio
Se formos comparar com Álvaro Cunhal, Mário Soares é uma figura política que está, de certa forma, ainda mais presente na memória dos portugueses. Mas o que é que mais o marcou ao conhecê-lo mais a fundo?
A tentação é sempre tentar perceber, pelo menos para mim, o homem fora do texto, fora do ambiente político que conhecemos das televisões. O que é está por trás que o faz mover. Aquilo que se sente - não só na série, mas quando se vê - é que ele era um homem político, ele era aquilo. E o que é engraçado é imaginá-lo em casa, com os filhos ou com a mulher, e ser exatamente uma pessoa política e ética. Não pensar que houvesse uma separação.
Ainda tivemos um dia com o João Soares, o filho, a enquadrar aquela cena toda e ouvi-lo a falar do pai, perceber o pai também. Era tudo muito político e um pensamento sobre o país. Não interessa muito estar a pintar o homem, se é bom, se é mau. O que interessa é vermos um homem, uma pessoa nas suas contrariedades e contradições.
O que foi sempre engraçado quando andávamos para trás era perceber que o que está para trás foi o que o fez chegar àquela noite. Para mim, era muito vital chegar àquela noite, que cenas tenho para trás, que conversas é que tenho com o Álvaro Cunhal… Foram meia dúzia de cenas que fiz e que vão entrar na série fora do filme, que me ajudassem a perceber a tensão e o tudo ou nada que foi aquela noite. E isso foi a parte mais difícil, mas também a mais interessante de procurar. Não de encontrar, mas de procurar.
Depois, foi muito pouco tempo de gravação, foram algumas noites e acho que a cada take, a cada cena, havia essa necessidade de perceber como é que ele estava. Como é que um homem daqueles, que era conhecido por toda a gente, com a idade que tinha, ainda assim, vai a umas presidenciais... com a bagagem que tinha, com a importância que teve na luta contra a ditadura, depois de ter sido primeiro-ministro, ainda acha que tem alguma coisa para dizer, que tem um papel para ajudar o país.
Que insatisfação foi esta que permite partidos de extrema-direita populistas estarem a ganhar poder, sabendo que o que está em causa é perdermos algumas das liberdades que foram conquistadas
As eleições presidenciais de 86 – que são abordadas no filme e de que o próprio Tonan se recorda, como já referiu nesta entrevista – foram lembradas nestas últimas eleições. Uma vez que experienciou (apesar de ter sido de uma forma diferente) as eleições de 86 e agora estas últimas, como é que compara estes dois momentos tendo em conta o atual panorama político em Portugal?
Acho que são muito diferentes. Sou de uma família de Esquerda, por mais que disséssemos, ou que os meus pais dissessem mal da Direita, e por mais que eles colassem o Freitas [do Amaral] ou [Francisco] Sá Carneiro a uma política de Direita que era má, acho que não corríamos um risco que se corre agora, de um discurso populista e fácil, e de medo e ódio, que se está a viver hoje.
O Freitas do Amaral foi uma pessoa extremamente culta. Ouvindo os discursos deles na altura, são extremamente democráticos. Era para o bem das pessoas e com visões sobre as pessoas. Não era a dizer que uns são maus e agora temos de mandar esta gente toda embora. É mesmo muito diferente.
Havia uma consciência política diferente, também na altura, do que há agora. Por mais que fosse a Esquerda é boa, a Direita é má, agora é mesmo há uns maus e há uns bons. Há pessoas que são de mal e há pessoas são de bem. Não me interessa estar aqui a pôr o meu posicionamento político, mas aquilo que se passa hoje é muito diferente.
O que se passa hoje é muito perigoso. Aliás, porque o que se está a passar aqui não se passa só aqui, passa-se nos Estados Unidos com perseguição a pessoas. Um problema que se passa a nível europeu e mundial, que é uma repressão, uma perseguição que se está a ouvir. Aqui o que temos é que na segunda volta há um partido que faz isso, essa perseguição, que agora é só às minorias, mas no futuro pode ser outra coisa qualquer.
Naquela altura, apesar de haver um medo de a Direita estar colada a Salazar, mesmo assim ainda era diferente. E é muito interessante vermos um discurso, os debates políticos na televisão, como foi o do Álvaro Cunhal e do Mário Soares, e vermos um debate hoje em dia… Não tem mesmo nada a ver. Eles sabiam o que é que queriam, o que pensavam, vinham de quadrantes políticos totalmente diferentes. Penso que tinham estratégias para o país totalmente diferentes, mas as pessoas ouviam-se, queriam construir mesmo um país, queriam o melhor para o país. Hoje em dia não se percebe. Aquela coisa dos minutos e da contagem, as pessoas estão sempre a interromper, a desinformar e a achincalhar.
Vê-se isso nos Estados Unidos de uma maneira camuflada. Estamos a fazer isto porque as pessoas estão cá ilegais, mas o que estamos a assistir é a uma perseguição de pessoas, porque havia outra maneira de fazer as coisas
Tendo em conta a atualidade, hoje seria mais fácil fazer de António José Seguro ou de Mário Soares?
O Mário Soares é muito particular - para pegar como ator. O António José Seguro tem menos características que à partida fossem fáceis de pegar. Nunca tinha feito um trabalho de composição, colado a alguém que já existia. Não sei. Acho que é mais fácil o Mário Soares.
Todos temos as nossas características, mas é como o Álvaro Cunhal, têm coisas tão marcadas, a maneira como mexem as mãos, a maneira como olham, como lançam as frases… Se calhar porque estive muito tempo a olhar para o Mário Soares, parece-me mais fácil. Com o António José Seguro ainda não fiz esse trabalho [risos].
Há pouco referiu precisamente estas ideias que partilhou em entrevistas anteriores, quando o filme "Soares é Fixe" foi lançado. Nessa altura disse que o filme era importante para as novas gerações "perceberem que há perigos" atualmente. "Concordando ou não com Mário Soares, ele foi um homem pela democracia." Se Mário Soares se sentasse hoje por um dia no Parlamento, o que é que acha que o deixaria mais inquieto?
A bancada do Chega, com certeza. Não teria nada a ver. Acho que ele seria um bocadinho implacável. É tudo contra aquilo por que ele lutou. E o António José Seguro veio buscar um bocado a frase que o próprio Mário Soares tinha invocado no seu discurso: "É um partido de todos". Um bocado como o Papa Francisco também veio dizer.
Esta série pode fazer-nos questionar o atual estado da política?
Sim, com certeza! Todas as séries políticas ou históricas dão-nos essa possibilidade de rever um período da história, e como é que os homens se comportaram perante determinadas situações, e perante políticas dos países.
Esta série, sendo sobre eleições e o percurso político destas duas figuras, pode-nos fazer pensar de onde é que vimos e onde é que estamos, como é que chegamos aqui, que insatisfação foi esta que permite partidos de extrema-direita populistas estarem a ganhar poder sabendo que o que está em causa, o que está escondido, é perdermos algumas das liberdades que foram conquistadas em 50 anos.
Aliás, vê-se isso nos Estados Unidos de uma maneira camuflada. Estamos a fazer isto porque as pessoas estão cá ilegais, mas o que estamos a assistir é a uma perseguição de pessoas, porque havia outra maneira de fazer as coisas.
Hoje em dia temos a Internet e podemos falsear o que quisermos. Depois o vir dizer que foi mentira já não interessa nada porque o mal já está feito
Se tivesse hoje a oportunidade de se encontrar com Mário Soares, que pergunta gostava de lhe fazer? Ou que tema iria querer debater com o político?
Haveria muitas perguntas. Na altura em que gravei tinha muitas questões de fundo. Para ele e outros - para o Freitas do Amaral e Álvaro Cunhal também. Foram muitos sacrifícios que eles fizeram e isso deixou-me sempre muito curioso.
Uma vida sempre para a política... então e a vida pessoal? O que é que era fora disso? Como é que conseguiam suportar uma vida toda de bastidores? Porque o que sai nas notícias é só aquilo que a gente vê. Mas aquilo que não é visto, as conversas que se têm - dentro do próprio partido, entre partidos. Que conversa é que Mário Soares teve com o Freitas do Amaral antes das eleições? Aquela última conversa, aquele último encontro. Fora partidos, o que é que eles realmente pensavam? O que é que sonhavam? Sem a luz dos holofotes, sem as câmaras e terem de dizer aquilo que as câmaras querem, porque é isso que lhes daria votos.
Hoje em dia temos a Internet, os telemóveis e podemos falsear o que quisermos, porque essa é a verdade. Depois o vir dizer que foi mentira já não interessa nada porque o mal já está feito.
Interessava-me perceber qual foi o momento em que eles decidem que vale a pena o sacrifício. O que é que os fazia mover além do ego, da vontade de querer mudar e melhorar um país. O que os fez decidir ir em frente e não desistir, mesmo quando estava tudo contra eles ou quando tudo parecia correr mal.
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