A hora e meia de Lisboa, Leiria vive "um bocadinho num país à parte"
- 30/01/2026
Sofia Francisco é secretária da Junta de Freguesia da Maceira, mas nos últimos dois dias deixou o trabalho mais administrativo para percorrer, em articulação com Diana Leitão, assistente social do município de Leiria, os arredores da cidade em auxílio dos mais idosos.
À Lusa, numa dessas visitas a uma senhora de 75 anos, que viu entrar no telhado da cozinha uma das muitas árvores que rodeiam a sua casa, Sofia Francisco explicou que as duas têm "prestado apoio aos idosos que estão referenciados, visitando cada um deles, saber das necessidades e acalmá-los porque se sentem sozinhos, estão com receios".
"Também, muitas vezes, [vimos] tentar arranjar forma de comunicar com os filhos que muitas vezes estão longe, tranquilizá-los, dizer-lhes que estão bem, tranquilizar estes idosos também, dizer que os filhos estão bem", contou, acrescentando que essa tem sido a maior preocupação.
Na parede lateral, junto ao portão de entrada, em vez da placa "cuidado com o cão", encontra-se um painel de azulejos religiosos onde se lê "Atenção: Nossa Sra De Fátima", uma imagem que transmite a calma inexistente nas redondezas, onde só se vê destruição.
Por todos os lados há arvores caídas e arrancadas do chão. O candeeiro da rua é só já um poste, a lâmpada jaz no chão ladeada pelos vasos das flores tombados. Mais à frente chapas metálicas caídas.
Sofia Francisco contou que já tinham estado naquela casa da parte da manhã e, na quinta-feira, quando passaram, a estrada ainda estava cortada. Hoje o carro já foi mesmo à porta.
"Fomos buscar alguns bens alimentares a Leiria e viemos agora reforçar com mais bens alimentares e também dar uma palavra de conforto", explicou, depois de deixar bens como pães-de-leite, néctares de fruta, água e também enlatados.
"Deixei também o Jornal de Leiria porque acho também importante as pessoas terem algo para ler", acrescentou, lembrando que, à semelhança de outras zonas, ali, na localidade de Cerca, Maceira, também ainda não há eletricidade, água ou telecomunicações.
A responsável acredita que "mais ajuda" ainda vai chegar, reconhecendo que, "nas primeiras horas e, principalmente, no primeiro dia tardou a chegar", salientando o papel "muito importante" da junta de freguesia e dos bombeiros voluntários de Maceira.
"Porque era como, ou é como, se nós vivêssemos um bocadinho num país à parte, em que nós, sem redes, sem luz, o resto [da população] não soube a tragédia e o sofrimento porque nós estávamos a passar e é isso, eu espero que chegue, eu espero que a ajuda chegue, nós precisamos de todos aqui", desabafou.
Sofia Francisco acrescentou que, agora, dois dias depois da passagem da depressão Kristin por Leiria, há algumas zonas com rede de telemóvel e as pessoas vão 'postando' as fotografias que tiraram e colocando nas redes sociais "o estado real do país aqui, da zona de Leiria que está tão próximo de Lisboa".
"Acho que nós sentimos um bocadinho isto, sentimo-nos muitas vezes esquecidos, mas normalmente os dias correm e passam, mas nesta tragédia eu esperava mais atenção. Penso que a rádio poderia ter sido uma ajuda fundamental, essencial no nosso primeiro dia, porque [para] todos nós, era o único meio que tínhamos, tentávamos sintonizar desesperadamente a rádio e só se falava no debate entre o André Ventura e o António José Seguro. Precisávamos que a rádio estivesse mais presente connosco e nos ajudasse na comunicação", desabafou.
A passagem da depressão Kristin por Portugal continental, na quarta-feira, deixou um rasto de destruição, causando pelo menos cinco mortos, segundo a Proteção Civil, vários feridos e desalojados. A Câmara da Marinha Grande contabiliza ainda uma outra vítima mortal no concelho.
Leiria, por onde a depressão entrou no território, Coimbra e Santarém são os distritos que registam mais estragos, havendo já iniciativas solidárias de recolha de bens para apoiar sobretudo a região de Leiria.
Há postos para entrega e distribuição de bens alimentares no Pavilhão dos Pousos, em Leiria, e no Pavilhão Nery Capucho, na Marinha Grande, assim como no Quartel dos Bombeiros Voluntários da Nazaré. A Câmara de Pedrógão Grande manifestou a necessidade de lonas e material de cobertura, que podem ser entregues no armazém municipal da Zona Industrial de Pedrógão Grande.
Além da recolha de bens, os municípios de Leiria e da Marinha Grande estão a organizar ações de voluntariado para limpeza de ruas e espaços públicos.
Em Leiria, o Conservatório Internacional de Ballet e Dança Annarella Sánchez fez um apelo para recuperar os "sérios danos" no espaço, referindo que, até se conseguir reparar o telhado, os alunos não podem treinar: "Quem puder ajudar, qualquer doação faz a diferença."
O Governo decretou situação de calamidade entre as 00:00 de quarta-feira até às 23:59 de dia 01 de fevereiro para cerca de 60 municípios, número que pode aumentar.
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