13 dias de protestos, mortos e aviso de Trump: O que se passa no Irão?
- 09/01/2026
Os protestos que estão a acontecer no Irão há 13 dias já fizeram, pelo menos 51 mortos, de acordo com a organização não-governamental Iran Human Rights. De acordo com a mesma fonte, nove das vítimas mortais são menores. Os protestos já levaram a uma troca de acusações entre Washington e Teerão.
As manifestações que têm vindo a acontecer são as maiores demonstrações contra o governo que aconteceram nos últimos anos, tendo na quinta-feira o Irão cortado também o acesso à internet e as linhas telefónicas.
De acordo com o que escreve esta sexta-feira a CNN Internacional, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, já ameaçou mesmo atacar o país caso as forças de segurança respondam com recurso à força. Por outro lado, o líder supremo do Irão, o aiatolá Ali Khamenei, respondeu a Trump dizendo para este "se focar no seu próprio país", e culpado Washington de iniciar a estes protestos.
Mas, afinal, que protestos são estes?
De acordo com a imprensa internacional, os protestos começaram nos bazares da capital iraniana, e foram levados a cabo devido ao aumento da inflação, que fez com que produtos básicos como óleo alimentar e frango encarecessem da noite para o dia, o que levou a que estes produtos alimentares desaparecessem das prateleiras. O descontentamento alastrou-se, no entanto, a outros locais no resto do país.
Os protestos começaram como manifestações nos bazares de Teerã contra a inflação galopante, mas depressa se espalharam por todo o país e se transformaram em protestos mais generalizados contra o regime.
A decisão do banco central em encerrar um programa que permitia a alguns importadores terem acesso a dólares norte-americanos mais baratos em comparação com o resto do mercado levou a que os lojistas aumentassem os preços, tendo alguns tido mesmo que fechar as portas. O governo tentou ainda conter as manifestações, oferecendo subsídios, mas os protestos já tinham alastrado e se incendiado - como alguns locais têm estado mesmo, devido aos protestos.
A dimensão destes protestos
Segundo a imprensa internacional, estes são os maiores protestos desde a morte de Mahsa Amini, uma jovem de 22 anos que, em 2022, morreu às mãos de agentes da chamada polícia da moralidade do Irão. Recorde-se que a jovem morreu após ser espancada por o seu hijab ter revelado algum cabelo, o que vai contra as regras. Esta jovem foi levada pelas autoridades, espancada e esteve três dias em coma, antes de morrer devido à gravidade dos ferimentos.
Sob o mote de "Mulher, Vida, Liberdade", os protestos após a morte de Amini foram esmagados pela repressão estatal, que fez 500 mortos e 22 mil detidos, por todo o país.
Agora, mais de 100 cidades aderiram aos protestos. Há manifestantes que saem às ruas a pedir "Morte para Khamenei", responsável máximo do país. Segundo a agência de notícias estatal iraniana Fars, quase mil agentes da polícia e 60 paramilitares que respondem diretamente ao líder supremo do Irão foram colocados nas ruas, por forma a conter as manifestações. Estes agentes estão equipados com "armas de fogo, granadas e outras armas."
Mas o que distingue os protestos agora?
O que distingue os protestos está na sua origem: os comerciantes, que ao longo da história do país estiveram sempre ao lado do regime iraniano. A CNN Internacional dá ainda conta de que os lojistas desempenharam um papel crucial como influenciadores ao longo da história do país, tendo esse apoio sido muito importante na Revolução Islâmica, em 1979.
"Durante mais de 100 anos da história iraniana, os comerciantes de bazares têm sido atores-chave em todos os principais movimentos políticos do Irão. Muitos observadores acreditam que os comerciantes dos bazares estão entre os mais leais à República Islâmica", referiu à CNN Internacional Arang Keshavarzian, professor associado de Estudos do Oriente Médio e Islâmicos na Universidade de Nova Iorque e autor de "Bazar e Estado no Irão".
O Irão é um Estado teocrático, o que significa que líderes religiosos têm poder sobre o país, ainda que haja eleições. Masoud Pezeshkian foi eleito presidente em 2024, e, num discurso na segunda-feira, disse que "não era de esperar que o governo lidasse com tudo sozinho."
Pezeshkian posicionou-se como pertencendo à classe trabalhadora e prometeu alívio a nível económico. Mas, segundo aponta a CNN Internacional, a corrupção em várias áreas do governo, assim como má gestão noutros setores tem levado a que esta liderança seja criticada. A possibilidade de conflito com os EUA e Israel - este último com quem Teerão já esteve em conflito durante 12 dias - também está a deixar a sociedade iraniana nervosa.
Mas o que disse Trump a Khamenei? E a resposta
Numa altura em que os EUA levaram a cabo a "captura" de Nicolás Maduro, que se encontra agora detido em Nova Iorque, Trump avisou Teerão de que haveria consequências sevaras caso o regime fosse responsável por mortes de manifestantes.
"Já avisei que, se começarem a matar pessoas, o que costumam fazer durante os seus tumultos… vamos atingi-los com muita força", referiu Trump ao apresentador de rádio Hugh Hewitt, na quinta-feira.
Já no seu primeiro discurso televisivo desde que os protestos começaram, Khamenei avisou Trump para "se focar no seu próprio país". "Há alguns agitadores que querem agradar o presidente norte-americano destruindo propriedades públicas. Um povo iraniano unido derrotará todos os inimigos", avisou, acrescentando: "A República Islâmica não recuará diante daqueles que buscam nos destruir."
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